João 6:34-40.

“Enão disseram: Senhor, dá-nos sempre este pão. Jesus lhes respondeu: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede. Mas já vos disse que me vistes e não credes. Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e aquele que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora. Porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que me deu, mas que os ressuscite no último dia. E a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” Amém.

 

A multidão que parte e os discípulos que permanecem

O conteúdo integral de João 6, incluindo o texto que lemos juntos hoje, carrega um significado muito mais profundo do que normalmente imaginamos. Em João 6:66 está escrito: "Desde então, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam com ele." Tendemos a imaginar que o ministério de Jesus registrado nos evangelhos foi sempre próspero e bem-sucedido, mas na realidade o ministério do Senhor não foi tão tranquilo nem bem-sucedido da forma que esperamos. Geralmente, quando fundamos uma igreja ou começamos algo novo, sonhamos sempre com prosperidade e sucesso. Contudo, a grande multidão que seguia o Senhor no texto acabou por lhe virar as costas e se afastar.

 

Nem todos foram embora, é claro. No versículo 68, lemos: "Jesus lhes disse: Quereis vós também retirar-vos? Simão Pedro lhe respondeu: Senhor, a quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna." Havia claramente pessoas que permaneceram ao lado do Senhor. Em última análise, a Palavra que começamos a examinar hoje nos exigirá uma decisão muito importante sobre a essência da fé.

 

Espero que este seja um momento precioso para vocês refletirem sobre o verdadeiro significado e propósito da vida na igreja que têm levado até agora. Será também uma oportunidade para examinarem honestamente a própria fé. O motivo que os levou a dar os primeiros passos na igreja pode ser diferente para cada um. Pode ter sido por doença física ou por problemas de vida difíceis de suportar; alguns talvez frequentem por buscar alívio para o coração angustiado ou pela paz da família. Qualquer que seja o motivo, é muito valioso que vocês, presentes neste lugar para meditar na Palavra de Deus, ouçam com atenção o que a Bíblia verdadeiramente proclama. No texto de hoje há passagens que nos despertam com um enorme sinal de alerta em vários lugares. Dentre todo esse vasto conteúdo, quero hoje me concentrar em uma parte para partilhar a vontade de Deus.

 

Aquele que devemos ver além do pão

Enquanto o Senhor conversava com os judeus, disse à multidão que o seguia: "Em verdade, em verdade vos digo que me procurais, não porque vistes os sinais, mas porque comestes do pão e vos fartastes." O motivo pelo qual a multidão seguia o Senhor não era amor por ele, nem porque compreenderam o verdadeiro significado dos sinais que ele demonstrou. Era simplesmente pelo pão que saciaria o ventre físico. O Senhor lhes explica detalhadamente: assim como dizem que foi Moisés quem deu maná aos antepassados de vocês no deserto, na verdade foi Deus quem desceu o pão da vida do céu, e agora vocês devem comer o verdadeiro pão celestial. Mas os judeus que ouviram isso pedem: "Senhor, dá-nos sempre este pão." O propósito pelo qual vieram ao Senhor desde o início era o pão, e mesmo após receber o ensinamento, ainda não conseguiam se libertar das amarras do pão físico.

 

O pedido daqueles que no versículo 34 dizem "Senhor, dá-nos sempre este pão" é de fato persistente. Sem desistir, buscam apenas o pão de forma consistente. Somos tentados a classificá-los simplesmente como pessoas mundanas e materialistas, absortas apenas pela questão de comer e viver, mas devemos meditar profundamente no versículo 36 que se segue: "Mas já vos disse que me vistes e não credes." Eles não simplesmente perderam Jesus por estarem distraídos com o pão. Viram Jesus diante de seus olhos e não creram nele. Portanto, estas passagens não são palavras dirigidas a gentios que não conhecem Jesus ou que nunca ouviram o evangelho. São uma proclamação solene dirigida a pessoas que estão ouvindo a Palavra de Deus e testemunhando pessoalmente os milagres e o ministério que Jesus realizou.

 

O testemunho histórico e o verdadeiro propósito dos milagres

Esta é uma Palavra que se aplica diretamente a mim e a vocês. Pois nós também conhecemos bem o que Jesus Cristo realizou. Contudo, o texto testifica que eles, mesmo tendo visto Jesus Cristo pessoalmente, não creram. Reconheceram quem era o Senhor e viram com seus próprios olhos os milagres que ele realizou. A seriedade da Bíblia está exatamente neste ponto. No passado, uma editora coreana publicou um livro chamado "Jesus é um mito", que foi retirado de circulação por pressão de cristãos conservadores. Embora a publicação tenha sido interrompida, isso acabou estimulando a curiosidade do público, fazendo com que mais pessoas tomassem contato com seu conteúdo. Pessoas comuns, que não são especialistas, são facilmente seduzidas pela lógica que o livro defende.

 

O livro argumenta que o nascimento virginal de Jesus e a confissão de que ele é Filho de Deus foram tomados emprestados de mitos pagãos vizinhos, especialmente dos mitos de Baco e Apolo. À primeira vista pode parecer muito plausível, como se tudo tivesse sido emprestado de mitos. Mas se você lê diretamente as fontes primárias — os próprios mitos — em vez de depender de informações de segunda mão, sua opinião mudará rapidamente. Se você verificar a substância do mito de Apolo, ficará claro o quanto ele é essencialmente diferente do nascimento virginal e da filiação divina que a Bíblia descreve. A tentativa de reconhecer Jesus Cristo na Bíblia mas negar sua divindade não é algo recente — tem sido um ataque que persiste ao longo de toda a história da Igreja.

 

As pessoas reconheceram Jesus e viram o que ele fez. Considerando o período de registro da Bíblia e os testemunhos das testemunhas oculares da época, se João, o autor do evangelho, tivesse inventado e inserido milagres fictícios para deificar Jesus, esse documento nunca teria sobrevivido em sua época. A razão pela qual tantos documentos míticos daquela época desapareceram na história é que as pessoas os reconheceram como ficção. Se João tivesse manipulado os milagres como um artifício para enaltecer Jesus, diante da situação em que inúmeros sobreviventes que experimentaram diretamente esses eventos ainda estavam vivos, a oposição acirrada teria levado à eliminação do próprio registro. No entanto, ao contrário, inúmeras pessoas aceitaram o registro do Evangelho de João como verdade.

 

O Evangelho de João foi registrado no século I, antes da partida do apóstolo João, de modo que pessoas que criam em Jesus e viram pessoalmente seus milagres ainda estavam vivas. Elas viram claramente o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Mas o fato importante é que aqueles que viram o milagre não creram em Jesus. Este é o ponto central. Se toda a multidão que viu o milagre tivesse se submetido ao Senhor, este registro talvez fosse apenas uma história heroica para divinizar Jesus. Mas a Bíblia registra honestamente que aqueles que testemunharam os milagres, ao contrário, não creram em Jesus. O próprio Senhor lamentou: "Me vistes e não credes." Por que a Bíblia registra um conteúdo tão desconcertante? Se a Bíblia descrevesse que "inúmeras multidões, inspiradas pelos milagres de Jesus, o seguiram e se tornaram discípulos, tornando-se pessoas admiráveis que contribuíram para a sociedade", seria muito mais fácil de ler para nós. Mas a Bíblia aponta em uma direção completamente diferente. Termina, ao contrário, com o evento dos discípulos abandonando Jesus. É verdadeiramente um livro extraordinário.

 

Libertando-se da tentação de empacotar a fé

Portanto, chegamos a perceber que simplesmente reconhecer Jesus, ou confessar que ele viveu uma vida adequada como Filho de Deus, não garante nossa fé. Também é muito perigoso estar mergulhado no alívio de frequentar a igreja e estar convicto de que se é cristão. Não estou tentando abalar a fé de vocês. Apenas desejo, por meio do fenômeno de que inúmeras multidões se afastaram diante do ensinamento de Jesus, questionar a essência de nossa fé. Não importa o que colocarmos no lugar do "pão" que os judeus buscavam, o resultado é o mesmo. Sempre que crises como solidão, a incapacidade de se relacionar — problemas crônicos da sociedade moderna — ou a ruína econômica se abatem, as pessoas correm para a igreja. Quantas pessoas se reuniram nas igrejas após o 11 de setembro? Mas elas logo desapareceram.

 

Algumas pessoas vêm à igreja por desejo de ser reconhecidas pelos outros. Nesse caso, o pedido "dai-nos o pão" equivale ao clamor "reconhecei-me". Todos nós queremos ser reconhecidos e ansiamos pelo sucesso para satisfazer esse desejo. Não apenas pela abundância material, mas quanto nos dedicamos pela realização pessoal e pela avaliação dos outros? Os pastores também não estão livres dessa tentação. Quando começam o ministério, todos sonham com um ministério reconhecido, um chamado ministério bem-sucedido, querendo alcançar resultados excelentes. E aí acabam caindo na lógica vaga de "reunir mais pessoas e pregar o evangelho a elas não é bom?", sem medir meios e métodos. Isso em si não está totalmente errado, mas há uma armadilha perigosa escondida.

 

A forma como Jesus age na Bíblia de hoje é completamente diferente do nosso pensamento. O Senhor não abusou dos milagres para reunir mais multidões. Ao contrário, os dispersou com palavras de verdade. Existe uma grande disparidade entre o avivamento que buscamos e o ministério de Jesus. Pastores e membros sedentos de sucesso e reconhecimento são facilmente tentados a exaltar o nome da igreja. Às vezes, quando encontro membros fora, ouço-os falar com orgulho de terem sido membros de alguma famosa igreja coreana. Por um lado, imagino uma vida de fé dedicada, mas por outro sinto um arrepio inexplicável. Porque conhecer um determinado pastor ou ter pertencido a uma famosa igreja não tem nenhum valor no céu.

 

Em relação ao que cremos e em quem seguimos, não existe outra condição além de Jesus Cristo e da Bíblia para ser reconhecido por Deus. O mesmo se aplica a vocês. Se vierem à igreja, ouvirem apenas histórias agradáveis aos ouvidos e perderem a vida eterna, quem arcará com essa tragédia? A Bíblia descreve o lamento daquele momento como "choro e ranger de dentes". Por isso, por mais desconfortável e difícil que seja, é de suma importância compreender corretamente a Palavra de Deus e entrar na essência do evangelho. Ir à igreja não é um passeio que se repete toda semana. Na realidade, é como estar diante de um lugar solene que separa a vida da morte.

 

Necessidades físicas e prioridades espirituais

Em última análise, a questão essencial que enfrentamos é esta: "Compreendo a vida eterna e usufruo das bênçãos abundantes do reino de Deus nela, ou não?" Às vezes, quando nos aproximamos do Senhor, escrevemos o nome "doença" no lugar do "pão". Às vezes, oramos "Senhor, curai esta enfermidade", e também ansiamos pela paz econômica. Não estou dizendo que buscar essas necessidades é errado. Pois o ser humano é, por natureza, um ser que precisa comer para viver, e é a nossa frágil existência que dificilmente mantém o princípio mesmo jejuando três dias. Como Deus nos criou como seres com corpo físico, como poderíamos ignorar a questão de comer e viver? O mesmo vale para a doença. É absolutamente natural que alguém em sofrimento deseje a cura. Se o Senhor cura as doenças e também concede fé, não há nada melhor.

 

Mas há aqui uma ordem solene que não deve ser ignorada. Não é que o Senhor não possa curar nossas doenças ou não tenha capacidade de resolver os problemas sociais. Mas se não compreendermos claramente as prioridades com que enfrentamos os problemas e o significado espiritual que esses problemas nos trazem, também nós, como os judeus do texto, só clamaremos "dai-nos este pão". E então receio que por fim ouçamos do Senhor a severa repreensão: "Vocês não creem em mim." Alguém pode questionar: "Não há também inúmeros doentes na Bíblia? O Senhor não teve compaixão deles, curou-os, alimentou os que não tinham o que comer e pregou o evangelho?" Está certo.

 

Mas há algo que devemos ter em mente ao lermos a Bíblia ou textos de fé. Não devemos acreditar cegamente que tudo que defende o cristianismo está certo, nem depender apenas de informações tendenciosas porque se opõe a ele. Se você realmente quer conhecer a verdade, deve explorar fontes mais fundamentais e encontrar bases confiáveis. O mesmo vale ao ler a Bíblia. É fato que o Senhor curou doenças, mas se observarmos de perto os alvos dessas curas, encontramos características muito peculiares. O Senhor curou principalmente cegos, surdos, coxos, paralíticos. É difícil encontrar registros de que curou simplesmente resfriados ou doenças cotidianas. Doenças como a lepra, que o ser humano não pode resolver com suas próprias forças, aparecem com frequência. Isso não é simplesmente um meio de levar as pessoas a crer através de milagres, mas carrega a intenção significativa da Bíblia de mostrar como o reino de Deus vem a esta terra.

 

A vinda do reino de Deus e a nova criação

Meditemos nas palavras de Isaías 35:5-7: "Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos serão abertos. Então o coxo saltará como o veado, e a língua do mudo cantará; porque águas romperão no deserto, e ribeiros na solidão. A terra seca e sedenta se tornará piscina, e a terra árida em mananciais de águas; na habitação dos dragões, onde cada um jazia, haverá erva com canas e juncos." Estas palavras vão além do simples significado de que doenças físicas serão curadas. Proclamam a "nova criação" que acontecerá quando o Messias — Jesus Cristo que confessamos — vier e o reino de Deus vier a esta terra.

 

A essência do evento em que o deserto se transforma em piscina significa que um riacho de vida começa a fluir em meio a uma vida desolada como um deserto. A cura que a Bíblia testemunha não é simplesmente a recuperação do corpo, mas a verdadeira restauração espiritual revelada por meio de aspectos físicos. Quando Jesus leu Isaías na sinagoga e proclamou "Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos", foi a declaração de que o reino de Deus já havia chegado ali. Com a vinda de Jesus Cristo a esta terra, o governo do reino de Deus começou, e a realidade daquele reino foi revelada para nós por meio do sinal da cura de doenças físicas. Aqui, a figura do cego, do leproso e do paralítico simboliza a existência de nossas vidas, tão áridas quanto um deserto e uma solidão.

 

A Bíblia aponta o fato de que nossas vidas são como um cego que não consegue ver adiante, como um paralítico que não consegue se levantar sozinho e como um surdo que não consegue ouvir a verdade. Em meio a uma vida tão desesperadora como um deserto, o reino de Deus está vindo agora. Romanos 3:10-11 claramente testifica: "Como está escrito: Não há um justo, nem sequer um; não há quem entenda; não há quem busque a Deus." Conforme a proclamação da Bíblia, não há ninguém entre nós que possa compreender por si mesmo ou buscar a Deus. A essência do milagre da multiplicação dos pães também não está no fato de a multidão ter comido o pão. Está em mostrar que os que comeram o pão estavam na realidade no meio do deserto e da solidão — ou seja, que estavam numa situação em que pereceriam naquele lugar se Jesus não lhes desse o pão da vida. Porque o ser humano, com suas próprias forças, nunca pode beber da água da vida nem saciar a fome da alma.

 

A graça descoberta no deserto da autoconfiança

Ter uma fé verdadeira é realmente difícil. Porque muitos creem que "se eu escavar a terra, a água virá". Negam que estão num estado tão desesperador quanto um deserto. Consolam-se dizendo que agora estão apenas numa situação infeliz e as coisas não estão saindo como queriam, mas que com um pouco mais de esforço e fidelidade a Deus poderão conseguir. Mas a Bíblia nos diz categoricamente que não temos tal capacidade autônoma. Até agora expliquei o "pão" como necessidade física, mas agora quero expandir seu significado. No pedido "dai-nos o pão" podem estar contidas exigências religiosas como "dai-nos a fé", "dai-nos a espiritualidade" ou "dai-nos a piedade". Às vezes até Deus e Jesus são colocados no lugar do pão para suprir nossas necessidades. Buscar fé e piedade pode parecer uma fé muito sincera e bela à primeira vista. Alguns chegam a erguer a bandeira da "reforma" nesse lugar.

 

Criticam que "a igreja estabelecida está corrompida, portanto não há verdade dentro dela", e clamam por novas mudanças. Argumentam que o sistema e a administração existentes estão todos errados, então é preciso levantar um novo vento. Por isso esforçam-se para mudar o sistema da igreja e reformar a organização, criticando o sistema de presbíteros, o sistema de diáconos e até mesmo as qualificações dos pastores. Claro que nem todas essas tentativas são sem sentido. Mas se todo esse esforço é no final apenas um meio de adornar a si mesmo e à igreja, então é falso. Não importa quão nobres sejam os termos usados e quão alto se clame a glória de Deus, se a essência for uma atitude autodefensiva de empacotar a própria existência e manter a felicidade, isso nunca poderá ser chamado de fé verdadeira. A atitude de tentar preservar a vida com as próprias forças apenas nos afasta do verdadeiro evangelho. Muitos buscam a razão pela qual as pessoas deixam a igreja na "corrupção da igreja", mas mudar a administração ou a organização não fará os que partiram retornar. Porque onde a verdade está ausente, o povo de Deus não pode se reunir.

 

Por que queremos adornar nossa forma de fé? Porque usamos a fé, o louvor e até mesmo o nome de Jesus como ornamentos para nos destacar. Assim inevitavelmente passamos a nos comparar com outros ou com outras igrejas. Consolamo-nos com o orgulho de "nós estamos sobre uma Palavra mais pura e ortodoxa do que eles, portanto estamos bem". Mas aviso: não busquem tranquilidade pela comparação com outras igrejas. A salvação não é obtida pela vantagem comparativa com outras igrejas. Se não nos colocarmos honestamente diante da Palavra do Senhor, nosso destino final é óbvio. Por isso, se vangloriar de estar bem e tomar isso como conforto é muito perigoso. Uma boa igreja não é a que teve sucesso externamente. Ao contrário, é a que percebe de forma dolorosa suas próprias falhas e fraquezas e se apoia ardentemente apenas em Jesus Cristo.

 

A verdadeira igreja é uma reunião de pessoas que, sabendo muito bem que são pecadoras, vão diante do Senhor com lágrimas todos os dias. Uma boa igreja é onde se crê na graça do Senhor que nos guarda sem nos dispersar, embora minhas palavras e ações não sejam adequadas ao coração de Deus. Onde há neste mundo uma igreja essencialmente superior às outras? É impossível que grande bondade venha de um lugar onde pecadores se reúnem. Já conhecemos a vergonhosa realidade escondida no interior uns dos outros. Portanto, agora devemos ser honestos uns com os outros. Todos nós estamos diante de Deus como os mesmos pecadores. A razão pela qual devemos perdoar e aceitar uns aos outros é que nenhum de nós pode suportar nem um único momento sem a misericórdia do Senhor.

 

A fé verdadeira: as mãos vazias que confessam a impotência

Frequentemente mal entendemos a expressão "não ter fé". Ao ver nossa própria imagem com a fé enfraquecendo dia a dia, caindo em tentações, brotando dúvidas, não conseguindo fazer grandes coisas pelo Senhor, nos autoacusamos de não ter fé. Consideramos o estado de pecar continuamente ou de sofrer com dúvidas como evidência de pouca fé. Mas a realidade é o oposto. A pessoa que verdadeiramente não tem fé é aquela que acredita poder ficar de pé completamente com suas próprias forças. A pessoa que confia em sua própria vontade e no tamanho de sua fé, e está convicta de que Deus certamente estará satisfeito com ela porque está se dedicando suficientemente ao Senhor agora — exatamente essa é a pessoa sem fé e com pouca fé. Quem possui a fé verdadeira é a pessoa que sabe exatamente quem é.

 

Aqueles que se aproximam de Jesus Cristo, porque perceberam sua carência essencial, reconhecem que são eles mesmos um deserto. Confessam que não podem realizar nada com suas próprias forças e, como diz a letra do hino, vão ao Senhor apenas "com as mãos vazias". Sentem dolorosamente que não têm nada a oferecer ao Senhor, nada para mostrar, nem qualificação para ficar diante do Senhor por si mesmos. Sabendo que o peso e o fardo de sua vida estão num nível que de forma alguma conseguem suportar, em vez de tentar carregá-los forçosamente, são aqueles que buscam ardentemente apenas o Senhor dizendo: "Senhor, o senhor não conhece minha situação?" Acaso vocês nunca tentaram viver de forma pura pelo menos uma vez? Nunca tentaram viver uma vida moralmente superior aos outros? Se tentaram, provavelmente sabem bem o que fica ao final. Usando minha própria experiência, o resultado foi apenas desespero. Quanto mais tentamos viver rigorosamente pela régua da consciência, o que nos resta é apenas um terrível desespero e a consciência de nossos próprios limites.

 

Esta é a tarefa existencial que todos nós enfrentamos todos os dias. O Senhor não nos advertiu simplesmente a "ouvir bem minhas palavras e segui-las". Ao contrário, disse: "Agora vocês não podem entender todas estas palavras que vos digo, mas depois que eu morrer na cruz, o Espírito Santo Consolador virá e fará vocês se lembrarem do que eu disse, e somente então compreenderão o verdadeiro sentido." Significa que somente depois de passar pela cruz é que se compreende. O que vocês acham que é a razão pela qual o cristianismo tem sido perseguido nos últimos 2.000 anos? É porque o nível moral do cristianismo é baixo? Não. O cristianismo ensina uma ética nobre de amar até os inimigos. Ou é porque o cristianismo é fictício? Também não. A verdadeira razão pela qual o cristianismo é rejeitado é porque gloriamos na "cruz maldita".

 

Porque confessamos que negaremos totalmente a nós mesmos e dependeremos apenas de Jesus Cristo, o mundo nos persegue e vira o rosto. A acusação "por que creem no homem Jesus como Deus" não é de hoje. Já começou quando Deus chamou Moisés, e tem sido o mesmo ataque levantado quando Jesus estava nesta terra e mesmo depois de ressuscitar. Porque o ser humano quer ser ele mesmo um deus, não precisando necessariamente de outro deus. As pessoas geralmente querem um deus que elas mesmas criaram e que pode se mover ao seu gosto. Se isso não for possível, se auto-deificam ou inventam uma divindade limitada para aplacar o medo do ser humano finito. Mas a Bíblia avisa claramente: com um deus criado arbitrariamente pelo ser humano, nunca se pode chegar à verdadeira felicidade, nem se pode salvar a si mesmo.

 

Negai-vos a vós mesmos e agarrai a vida

O Senhor chama de "filhos da fé" aqueles que vieram num estado impotente, sem poder fazer nada. O significado do mandamento do Senhor de "negar a si mesmo" não é simplesmente da dimensão de esvaziar o coração como um exercício espiritual. É a confissão de reconhecer honestamente que somos apenas um deserto sem Jesus Cristo. Alguém pode questionar: "Se não podemos fazer nada, devemos ficar parados como um tronco morto?" De forma alguma. Quando ocorreu o milagre da multiplicação dos pães, foram as próprias pessoas que receberam o pão distribuído, mastigaram e engoliran. Deus não ignora nossa personalidade e vontade. Negar a si mesmo é reconhecer que não temos capacidade de gerar vida com nossas próprias forças. Por mais que comamos, acumulemos, aprendamos e nos esforcemos, não podemos germinar a vida eterna autonomamente dentro de nós. Por isso a Bíblia aconselha a "negar-te a ti mesmo" para obter a vida que vem apenas do Senhor.

 

Haverá problemas complexos ao redor de vocês agora. A razão pela qual enfatizo em voz alta não é porque esses problemas são leves. É porque há um problema de "ser e essência" muito mais solene diante de nós. A única estrada que devemos tomar diante de tantas angústias que não saem da cabeça e de tarefas não resolvidas é "eu morrer". Quando negamos a nós mesmos e nos colocamos para baixo, é aí que percebemos o quão leves aqueles problemas eram. Talvez pareça irresponsável, mas mesmo que tudo o que possuímos desapareça, o que mudará essencialmente? Quem no mundo pode tirar aquela vida preciosa obtida por meio de Jesus Cristo? As tempestades do mundo podem a qualquer momento varrer o que temos nas mãos, mas a vida dada pelo Senhor nunca pode ser abalada. Portanto, negai-vos a vós mesmos diante dos problemas que estão à vista. Não se esqueçam de que o sofrimento atual não é tudo da vida, e venham ao Senhor sem esquecer que são possuidores da vida eterna.

 

"Senhor, sou merecedor de ser abandonado. Mesmo que me jogue num abismo profundo, não tenho nada a dizer. Quando é que servi a Deus plenamente, quando é que amei o Senhor de coração? Sou uma vida miserável que nem sequer consegue guardar a própria consciência." Enfrentem a si mesmos com uma alma assim totalmente falida. Não é já um milagre maravilhoso o fato de que eu, um pecador digno de ser ignorado por Deus, esteja agora invocando o nome do Senhor e avançando? Esta é a realidade da fé que temos. Mesmo que Deus me expulse, a confissão de que sou filho e filha dele, que não posso deixar de me dirigir apenas a Deus — esse apego desesperado é o que nos faz viver.

 

A perseverança dos santos: a promessa de nunca se perder

Vocês provavelmente já ouviram falar sobre a "perseverança dos santos". Isso não é um slogan arrogante como o popular "uma vez fuzileiro, sempre fuzileiro". Seu verdadeiro significado está claramente registrado no versículo 39 do texto de hoje: "E a vontade do Pai que me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que me deu, mas que os ressuscite no último dia." Esta é a essência da perseverança. O Senhor jamais perde. Aqueles que vieram diante de Deus levantando as duas mãos em rendição.

 

"Senhor, minha vida é um deserto e uma solidão. Confesso que não pude vir a este lugar com minhas próprias forças. Nem mesmo estar sentado aqui posso dizer que é minha vontade ou mérito. Eu, um pecador que por natureza não pode senão morrer, estou aqui agora chamando de Pai." Aquele que assim confessa, Jesus não abandonará jamais. Absolutamente nunca o perderá.

Haverá entre vocês quem se pergunte quem são exatamente "as pessoas que o Pai enviou". O significado específico disso partilharemos juntos na próxima vez, mas há algo que vocês devem guardar no coração hoje. É que, ao se colocar diante de Deus, não tentem se apresentar exibindo sua fé, nem se coloquem na posição de quem possui algo. Apenas confessem: "Deus, sou um deserto. Estou numa situação em que morrerei de fome se o Senhor não partir o pão da vida para mim. Simplesmente fico aqui para receber o pão que o Senhor me dá." Então o Senhor promete: "Aquele que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora." O protagonista desta promessa são exatamente vocês.

 

Oremos.

Senhor amado, confessamos que até agora temos vivido mal-entendendo a fé como se fosse uma história de um mito heroico. Muitas vezes nos autoacusamos pensando que apenas enfrentar a morte com serenidade diante de uma arma ameaçadora é a verdadeira fé.

 

Mas, Senhor, nossa realidade é apenas um ser fraco que só pode tremer diante de uma arma. Sem a ajuda do Senhor, nem mesmo conseguimos pronunciar a confissão de que somos por Jesus; reconhecer que somos pecadores que não podem fazer nada por Deus sozinhos — isso é exatamente a nossa verdadeira fé.

 

Senhor, tende piedade de nós. Que o próprio Deus Espírito Santo se torne nossa força, para que continuemos este passo de fé até o fim. A cada passo que dermos, que o governo de Jesus Cristo e o reino de Deus habitem plenamente em nosso interior e no cenário de nossas vidas. Fazei-nos viver este dia não pela nossa vontade, mas apenas pelo poder do Espírito Santo.

 

Oramos em nome de Jesus Cristo. Amém.


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