Jeremias 17:12-13

 

Trono de glória, excelso desde o princípio, é o lugar do nosso santuário. Ó Senhor, esperança de Israel, todos os que te deixam serão envergonhados; os que se apartam de ti serão escritos no pó, porque deixaram o Senhor, a fonte das águas vivas.” Amém.

 

Características dos Manuscritos Bíblicos e o Contexto da Seleção do Texto

Estamos continuando a examinar juntos as palavras do Evangelho de João. No entanto, hoje vocês podem estar se perguntando por que, de repente, o livro de Jeremias se tornou o nosso texto principal. O conteúdo de João 7:53 a 8:11 é uma história muito famosa que provavelmente vocês já ouviram em inúmeros sermões ou encontraram frequentemente através de filmes. É o relato da mulher pega em adultério que é trazida diante de Jesus; quando o Senhor diz que aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra, todos se retiram, e o Senhor também não condena a mulher.

 

No entanto, se observarem essa história com atenção, notarão que existem parênteses no início e no fim em suas Bíblias. A presença desses parênteses significa que esta parte está omitida nos manuscritos antigos mais importantes entre os diversos códices autorizados. Frequentemente, as boas Bíblias incluem uma nota de rodapé dizendo: "Não se encontra em alguns manuscritos antigos". Para aprofundar-se neste tema, seria útil consultar livros sobre crítica textual, como os escritos por George Eldon Ladd, embora não sejam livros fáceis de ler para o fiel comum.

 

Autenticidade Histórica e Valor como Texto para o Sermão

Para adiantar a conclusão, é muito provável que esta história não estivesse presente para os primeiros copistas que criaram os manuscritos originais. Ela foi inserida na Bíblia em gerações posteriores. Vocês poderiam perguntar como alguém ousaria acrescentar ou retirar algo da Palavra de Deus, mas o consenso comum dos estudiosos é que, embora este evento tenha sido inserido mais tarde, trata-se de um fato histórico que ocorreu realmente.

 

Isso se deve ao fato de que foi encontrado um relato quase idêntico registrado pelo famoso historiador da igreja, Eusébio, ao citar os escritos de Papias, um discípulo de João. Aqui nos deparamos com um dilema: embora seja pouco provável que o próprio João tenha incluído este conteúdo quando escreveu originalmente o Evangelho, ao mesmo tempo, todos concordam que é um evento historicamente certo.

 

Devido a esse contexto, este trecho apresenta certa dificuldade para ser tomado como base de um sermão que deve proclamar a Palavra segura de Deus. Embora possa ser tratado profundamente em uma classe de estudo bíblico, existem limitações claras como texto de pregação. No entanto, se o conteúdo, o significado e o pensamento que flui neste trecho concordam com o ensinamento geral da Bíblia, podemos iluminar este evento através de outros trechos do Antigo e Novo Testamento. Visto que refletir sobre o seu significado é de grande benefício espiritual, hoje decidi tomar como base a palavra de Jeremias, que tem uma profunda conexão com esta história de João.

 

O Padrão da Lei e a Armadilha Oculta por Trás Dela

Por isso, o texto de hoje não é João 7:53 ao 8:11, mas Jeremias 17:12 e 13. Como vocês conhecem bem esta história, gostaria de falar primeiro sobre a situação que Jesus enfrentava e a natureza do ataque. Os fariseus e os escribas trouxeram uma mulher pega no ato do adultério, mas o processo em si gera muitas dúvidas. Dado que tais atos não costumam ocorrer em lugares públicos em nenhuma época, o fato de terem invadido a cena para pegá-la sugere a suspeita razoável de que prepararam uma armadilha antecipadamente para testar Jesus. Além disso, embora a Lei estipule que tanto o homem quanto a mulher devem ser punidos, trouxeram apenas a mulher. Originalmente, a razão pela qual a Lei tratava com tanta severidade o adultério era porque simbolizava a relação de aliança entre Deus e o povo de Israel. Dado que a adoração de outros deuses por parte de Israel era considerada um adultério espiritual, aplicava-se um castigo severo nesse contexto. Portanto, por trás deste evento havia uma intenção calculada de prender Jesus, tal como testifica a Escritura.

 

Eles apresentaram a Jesus uma armadilha aterradora, perguntando-lhe com base na Lei de Moisés se ela deveria ser apedrejada até a morte. Se Jesus dissesse para matá-la segundo a Lei, seus ensinamentos de amor e perdão como amigo de publicanos e pecadores cairiam em contradição. Pelo contrário, se dissesse para não matá-la, estaria violando a Lei de Moisés. Provavelmente eles se regozijavam internamente ao ver Jesus em tal dilema. Frequentemente pensamos na resposta de Jesus — "Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra" — simplesmente como uma resposta engenhosa para escapar de uma crise. No entanto, esta declaração contém um significado muito mais profundo e fundamental do que uma mera resposta sábia para evitar uma situação.

 

Escrever na Terra e a Correspondência com Jeremias

Jesus não respondeu imediatamente ao ouvir a pergunta dos fariseus. Embora a situação parecesse exigir apenas a frase "aquele que estiver sem pecado que atire primeiro", a primeira reação do Senhor foi inclinar-se e escrever no chão com o dedo. Alguns imaginam de forma engraçada que Jesus fez isso para ganhar tempo porque não lhe ocorria o que dizer, mas como podemos discernir rapidamente, isso não faz sentido. Então, por que Jesus escreveu no chão? A pista para entender o contexto dessa ação — e um trecho muito semelhante ao texto de hoje — aparece no livro de Jeremias que lemos juntos.

 

Olhando a parte final do versículo 12 no texto, aparece a confissão: "Nosso santuário, o Senhor é o nosso templo". Casualmente, o lugar onde ocorreu o evento da mulher adúltera foi o Templo, e naquele momento, o Senhor estava ensinando o povo no Templo. O mais fundamental é que o próprio Jesus Cristo é o verdadeiro Templo. Portanto, este evento aconteceu no Templo, e Jeremias 17 descreve esse mesmo Templo. Olhando a parte média do versículo 13, diz: "Os que se apartam de ti serão escritos no pó". Esta palavra sobre os que se apartam do Senhor sendo escritos no pó contém um simbolismo muito semelhante à imagem de Jesus escrevendo hoje no chão com o seu dedo.

 

Ainda mais interessante é a parte final do versículo 13. A Bíblia identifica a razão como: "porque deixaram o Senhor, a fonte das águas vivas". Amigos, o que aprendemos enquanto falávamos da Festa dos Tabernáculos até a semana passada? Jesus proclamou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba", e "Quem crer em mim... do seu interior fluirão rios de água viva". No entanto, em Jeremias fala-se daqueles que abandonaram o Senhor, a fonte das águas vivas. Este versículo e a história do Evangelho de João estão se encaixando atualmente com uma ressonância muito profunda. Embora possa ser difícil aceitar isso simplesmente em um nível superficial apenas porque os dois trechos coincidem, o significado espiritual que flui por baixo está claramente conectado.

 

O Julgamento da Lei e a Maldição Gravada no Pó

Devemos prestar atenção à semelhança entre o ato de 'escrever com o dedo' no texto e a expressão 'gravar no pó' em Jeremias. Em Jeremias, escrever os nomes dos que se apartam do Senhor no pó significa o julgamento de Deus. Para entender isso plenamente, precisamos olhar todo o capítulo 17 de Jeremias. Este capítulo declara que o pecado de Judá está gravado nas tábuas de seus corações e nos chifres de seus altares, advertindo sobre o julgamento de Deus de que eles não podem evitar a morte. Por que são julgados? Precisamente porque não guardaram a Lei. Devido ao fato de terem se apartado do Senhor ao não guardarem a Lei, recebem o julgamento de serem gravados no pó. Ou seja, escrever nomes no pó é um ato profundamente relacionado com a Lei.

 

Cenas semelhantes aparecem em outros lugares da Bíblia. Há efetivamente três instâncias na Bíblia onde Deus mesmo escreve algo com o seu dedo, incluindo o texto de hoje. A primeira são os Dez Mandamentos, que gravou diretamente com sua mão no Êxodo. No filme 'Os Dez Mandamentos', foi dramatizado como letras esculpidas em tábuas de pedra com faíscas voando, mas a Bíblia expressa claramente que Deus as escreveu diretamente. Outra instância é a escrita na parede no livro de Daniel. Vocês se lembram de como foram usados os Dez Mandamentos — a Lei — escritos por Deus no Êxodo? Durante os 40 dias que Moisés esteve no monte Sinai para receber a Lei, houve caos ao pé da montanha. Quando o líder não retornou, o povo desesperado pressionou Arão para que fizesse um bezerro de ouro e cometeu o terrível pecado de chamá-lo de o Senhor que os tirou do Egito.

 

O Dedo do Senhor Reconhecendo a Condenação da Lei

Ao descer da montanha, Moisés quebra as duas tábuas de pedra escritas por Deus mesmo contra o bezerro de ouro. Esta é uma cena muito importante que mostra que a Lei se tornaria uma maldição em vez de uma bênção para aqueles que traíram o Senhor e não guardaram a sua palavra. A Lei dos Dez Mandamentos foi usada como uma ferramenta de maldição e julgamento. O mesmo ocorre com o livro de Jeremias. Ele contém o significado de que para aqueles que se apartaram do Senhor ao abandonarem a Lei, viria sobre eles o julgamento e a maldição de que seus nomes fossem gravados no pó segundo essa lei. Tendo em conta este contexto, podemos ver que a ação de Jesus hoje também se realizou dentro de um teste relacionado com a Lei. Os fariseus estavam testando o Senhor, segurando a Lei de Moisés e perguntando o que ele faria.

 

Naquele momento, o Senhor escreveu no chão com o seu dedo. Dado que o que ele escreveu não está registrado na Bíblia de forma alguma, só podemos imaginá-lo, mas o importante não é o conteúdo, mas o fato de que o ato em si tem uma relação profunda com a Lei e a maldição. Ou seja, ao escrever no chão, Jesus estava reconhecendo o fato de que esta mulher merecia morrer segundo a Lei de Moisés; estava reconhecendo a maldição dessa Lei. A razão pela qual devemos ver este evento tão solenemente torna-se ainda mais clara através da resposta posterior de Jesus.

 

A Declaração de Condenação e a Multidão que Foge

Jesus, que estava escrevendo no chão, levantou-se e disse: "Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra contra ela". Se deixarmos de lado a condição de estar 'sem pecado' por um momento, o núcleo desta declaração é "atire a pedra contra esta mulher". Em outras palavras, o próprio Senhor está reconhecendo que, segundo a Lei, esta mulher merece morrer. Jesus não está negando o julgamento e a maldição da Lei em relação a esta mulher; pelo contrário, está aceitando plenamente o princípio dessa condenação. No entanto, a situação resultante é muito interessante. A Bíblia registra que os escribas e fariseus, que estavam inflamados e prontos para matar, sentiram o aguilhão de suas consciências diante dessa única frase sobre quem não tem pecado e se retiraram um por um.

 

Frequentemente pensamos nesta cena como se Jesus tivesse derrotado belamente os seus oponentes com palavras sábias. No entanto, este evento contém um significado espiritual muito mais solene. Jesus estava declarando a condenação em relação a eles, dizendo: "Vocês são os que têm pecado". Qual foi a reação dos judeus diante da aguda condenação do Senhor? Nem uma única pessoa se ajoelhou e disse: "Senhor, sou um pecador. Por favor, perdoe-me". Simplesmente fugiram da cena. Todos, desde o mais velho até o mais jovem, abandonaram o lado do Senhor sem exceção.

 

Eles haviam entrado no centro mesmo de Jesus Cristo, que é o verdadeiro Templo. Qual foi a verdade que enfrentaram dentro do Templo? O Senhor fez brilhar o padrão da Lei sobre eles e revelou que eles também eram pecadores que não tinham outra escolha senão morrer segundo aquela Lei. Mas os que foram condenados se dispersaram. Não houve ninguém que buscasse a graça, dizendo: "Senhor, sou um pecador, tem piedade de mim", ou que se ajoelhasse diante da santidade do Senhor para pedir misericórdia. Ao serem revelados como pecadores diante do Mestre do Templo, simplesmente escolheram o caminho de dar as costas ao Senhor e fugir para longe.

 

A Justiça Própria Humana e a Distorção da Graça

Considerem quem eram as pessoas de Israel naquele momento. Eram pessoas que esperavam fervorosamente pelo Messias. Criam que uma vez que viesse o Cristo, todos os problemas seriam resolvidos e não haveria mais preocupações. Estavam certos de que seriam libertados da opressão romana, alcançariam a independência nacional e que um Messias como o rei Davi apareceria para governar este mundo. A sua forma de pensar equivalia finalmente a dizer: "Deus, a única coisa que precisamos para entrar no Reino de Deus e encontrar-te é o Messias". Não é diferente de alardear: "Apenas dá-me um mapa do destino e envia-me um carro. Então conduzirei esse carro e seguirei o mapa para encontrar-te eu mesmo". Criam que se apenas se cumprisse a condição do Messias, poderiam chegar a Deus pela sua própria força.

 

Isto é semelhante ao maná que o povo de Israel buscou durante o seu tempo no deserto. Pensaram que se Deus simplesmente lhes desse maná, todos os problemas seriam resolvidos. Estavam prometendo: "Deus, apenas resolve este problema que estou enfrentando. Apenas faz com que o meu coração se sinta apaixonado. Se fizeres isso, realmente poderei fazê-lo bem de agora em diante. Apostarei tudo por Deus e servir-te-ei com todas as minhas forças". Tudo o que o povo de Israel precisava era o maná. Garantiam que poderiam servir bem a Deus se tão somente o tivessem.

 

Mas qual é a resposta do Senhor? Ele pergunta: "Quando me provaram e se rebelaram contra mim, exatamente com que força se rebelaram?". Usaram a mesma força que ganharam ao comer o maná e as codornizes que Deus proporcionou para se virarem e se rebelarem contra Deus. Usaram o alimento dado pelo Senhor para cobrar forças e usaram-no para trair a Deus. Amigos, quão aterrador é isto? Os seres humanos são assim tão frágeis e teimosos. É a realidade de nós humanos tomar os produtos da graça outorgada por Deus e, paradoxalmente, usá-los para nos opormos e trairmos a Deus.

 

A Essência do Evangelho e a Justiça Própria Profundamente Enraizada do Homem

Apesar de o Messias ter vindo a esta terra, não houve ninguém que realmente o acolhesse ou se ajoelhasse diante do Senhor para confessar que era um pecador. Pelo contrário, as pessoas apenas buscavam matá-lo. Então Jesus declarou: "Vocês são cegos, e não são diferentes dos mortos". Ele fez-lhes ver o fato solene de que pela nossa força humana não podemos encontrar nem reconhecer a Deus, e que aproximar-se do Senhor mesmo é impossível. No entanto, diante desta declaração do Senhor, os humanos mostramos uma reação verdadeiramente peculiar. Mesmo quando parecemos nos dar conta de que "já vejo, não posso fazer nada pela minha própria força", imediatamente perguntamos de novo: "Então, o que devo fazer?".

 

Esta é a realidade dos humanos e a nossa própria imagem. Embora Ele nos diga que Jesus veio precisamente porque é totalmente impossível pela nossa força, ainda tentamos antepor as nossas ações, perguntando "como fazê-lo". Embora o começo do Evangelho seja ajoelhar-se e dizer: "Senhor, não posso fazê-lo. Tem piedade de mim e salva-me", perguntamos até ao fim: "O que devo fazer?". Os judeus no texto eram iguais. Quando os seus pecados foram assinalados pela palavra do Senhor de "aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra", em vez de se arrependerem e esperarem a salvação, abandonaram o Templo. Por quê? Foi porque o pensamento de que ainda eram 'justos' estava assentado profundamente no seu interior.

 

Nunca podemos descartar o pensamento: "Ainda assim, sou pelo menos um pouco melhor que os outros". No entanto, a Bíblia faz-nos estar diante da declaração resoluta de Deus, não importa o quanto tentemos dar desculpas e fugir. Mesmo que nos chamemos humildes e nos orgulhemos de dedicar tudo a Deus, no fim, se olharmos dentro desse coração, estamos destinados a voltar a uma mente que diz: "Deus, ainda assim, não sou melhor que aquela pessoa?". Devido ao fato de os humanos serem assim tão teimosos, não tentam render-se completamente a Deus. Pelo contrário, antes de se renderem, querem cultivar-se e disciplinar-se para poderem estar diante de Deus ainda que seja um pouquinho sem vergonha e com confiança. É a nossa natureza querer argumentar logicamente e falar claramente diante de Deus. No entanto, com tal coração, um só terminará caminhando pelo mesmo caminho que aqueles que deram as costas ao Senhor e fugiram.

 

A Verdade que Permanece Só Diante do Verdadeiro Templo

Ao fim desta dramática história, resta apenas uma mulher. Por que não fugiu esta mulher? Não pôde ir embora porque não tinha para onde ir. Devido ao fato de ter chegado ao beco sem saída chamado morte, não havia mais lugar para retroceder. Em que lugar da vida há um sítio mais longínquo do que a morte? Devido ao fato de ter sido empurrada ao limiar da morte, esta mulher não teve outra escolha senão ficar naquele lugar. Espero que vocês, como esta mulher, sejam conduzidos a um canto sem saída. Mesmo que não seja um lugar de ser julgado por quebrar a Lei, quero que se deem conta do fato de que são pecadores que não têm outra escolha senão morrer diante de Deus e que se situem naquele ponto onde já não possam fugir.

 

Os judeus tinham uma forma de fugir. Tinham desculpas para se defenderem, dizendo "Com que diligência assisti à igreja" ou "Guardei a Festa dos Tabernáculos e o Dia de Ação de Graças". Mas para esta mulher, não havia base alguma para se afirmar. Naquele mesmo lugar, o lugar do desespero onde o seu pecado foi aberto e queimado e não teve mais escolha senão morrer, a mulher encontrou-se com Jesus. Então o Senhor declara: "Nem eu te condeno".

 

Mas por que o Senhor usou a expressão "nem eu" (나도) em vez de simplesmente "eu não te condeno"? Se for mal interpretado, poderia soar como: "Tal como esses judeus não puderam condenar-te, eu também não te condenarei". Significaria então que Jesus também tinha alguma falta oculta e por isso não se atreveu a condenar? Certamente não. Como testifica Hebreus 4:15, sabemos bem que não há pecado em Jesus Cristo. Há um significado mais profundo que devemos compreender no fato de o Senhor sem pecado ter usado especificamente a expressão "nem eu".

 

O Verdadeiro Descanso e a Vida Encontrados no Altar

Vejamos juntos o Salmo 84, o segundo texto do sermão de hoje. Nos versículos 1 a 3, o salmista canta assim: "Quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos! A minha alma suspira, sim, desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha os seus filhos, junto aos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu."

 

Amigos, há algo que lhes chame a atenção ao lerem isto? Vejam o versículo 3 de novo em particular. Diz que o pardal e a andorinha encontraram um ninho no altar do Senhor. Originalmente, que classe de lugar é um altar? É um lugar de morte espantosa onde os animais são mortos, os seus corpos abertos e queimados no fogo. No entanto, o salmista confessa que o altar — aquele lugar de morte — é onde o pardal e a andorinha construíram lares e encontraram paz suficiente para criarem os seus filhotes.

 

Os pardais e andorinhas mencionados aqui referem-se a aves muito insignificantes e triviais. O ponto é que o altar é um lugar onde mesmo criaturas tão pequenas desfrutam de alegria e paz suficientes para dar à luz e criar os seus filhotes. Aqueles de vocês que tenham criado animais saberão que as aves ou os peixes nunca têm crias a menos que o ambiente seja perfeitamente correto e as suas mentes estejam em paz. Esta história paradoxal — que o altar, onde o sangue salpica e o cheiro a carne queimada perdura, se tornou um refúgio mais seguro do que qualquer outro lugar do mundo para aves insignificantes — assemelha-se muito de perto à situação que enfrentou a mulher no texto de hoje.

 

A mulher adúltera está atualmente impulsionada para a beira do precipício da morte. Está numa situação em que morrerá inevitavelmente. No entanto, o Senhor fala desde aquele lugar de morte: "Nem eu te condeno". Esta é a voz da absolvição que declara que os pecados da mulher foram perdoados. A mulher está agora diante de Jesus, o verdadeiro santuário, experimentando o assombroso mistério de obter vida no meio da morte. Quando foi arrastada pela primeira vez como pecadora, o que a esperava era apenas condenação fria e morte; no entanto, dentro do Senhor, o verdadeiro Templo, finalmente descobriu aquele refúgio pacífico que o pardal e a andorinha haviam encontrado.

 

O Senhor que Carregou com o Registro do Julgamento no Seu Lugar

Depois de receber a pergunta, Jesus inclinou-se de novo e escreveu no chão. Pelo padrão da Lei, aquele lugar deveria ter sido um lugar de morte. A primeira escrita do Senhor no chão foi um ato de reconhecimento do solene julgamento da Lei de "apedrejá-la até à morte". O Senhor falou claramente de julgamento. Mas aqui se dirige uma cena verdadeiramente misteriosa. Depois de o Senhor dizer: "Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra", inclinou-se e escreveu de novo. Se o julgamento já se tivesse declarado, deveria ter terminado com a execução e o desaparecimento da pecadora; por que o Senhor escreveu de novo?

 

De fato, havia exatamente uma pessoa sem pecado naquele lugar. Era Jesus Cristo. Enquanto outros poderiam deixar as suas pedras e ir-se embora devido a uma consciência ferida, apenas o Jesus sem pecado poderia ter levantado com confiança uma pedra e golpeado a mulher. No entanto, em vez de levantar uma pedra, o Senhor escolheu o caminho de escrever no chão de novo. Embora o julgamento se tenha passado claramente e fosse uma situação onde se deveriam ter arrojado pedras, o Senhor declara: "Nem eu te condeno". Que classe de evento teve lugar no chão enquanto isso?

 

A cena do Senhor escrevendo de novo é também uma história de julgamento, sem mudanças. Tanto esta semana como a passada, o tema continua sendo o julgamento. No entanto, o objeto daquele julgamento mudou. Em 2 Coríntios 5:21, o apóstolo Paulo interpreta este assombroso mistério assim: "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". A Bíblia não só diz que Jesus morreu em lugar dos nossos pecados; testifica que Jesus mesmo se tornou literalmente 'pecado'.

 

Neste momento, Jesus está fazendo exatamente isso. Naquele pó onde deveria estar escrito o nome da mulher, naquele lugar onde deveria estar gravado o registro do julgamento de que a mulher não tinha mais escolha senão morrer, o Senhor está efetivamente escrevendo o seu próprio nome. Ele gravou no chão a sua vontade de substituição: "Eu serei aquele que receba este julgamento; eu serei o pecador que carregue com o fardo do pecado desta mulher e estarei naquele lugar". Ao converter-se o Senhor mesmo em pecado, recebeu a flecha da condenação em direção à mulher com o seu próprio peito.

 

A Graça da Substituição e a Verdadeira Paz Sobre o Altar

O Senhor tornou-se o nosso pecado mesmo. Há momentos na vida em que vocês e eu somos conduzidos a um beco sem saída, e os nossos corações sentem que estourarão de dor pela culpa irresolúvel e os desafios da vida. A mente não consegue encontrar a sua direção e vaga, sem saber o que fazer. Naquele momento, o Senhor vem e fala: "O resultado do pecado que cometeste é apenas a morte. Quem pode julgar-te? Dado que só aquele que não tem pecado pode fazê-lo, não há ninguém no mundo para julgar-te, mas eu te julgarei". No entanto, quando levantamos as nossas cabeças diante do solene julgamento do Senhor, resulta que quem recebe o julgamento não sou eu, mas Jesus Cristo. O Senhor apagou os nossos nomes gravados no pó e escreveu o seu próprio nome naquele lugar no seu lugar. Alguma vez lhe pedimos que o faça? Alguma vez nos agarramos ao Senhor para que nos salvasse primeiro?

 

Antes de nós sequer pedirmos, o Senhor atuou dessa maneira. Porque sabia que essa era a única forma de nos salvar, o Senhor escreveu voluntariamente o seu nome naquele lugar de julgamento. Naquele momento, que classe de lugar se tornou aquele Templo aterrador que nos assustava? Devido ao fato de Jesus mesmo se ter tornado pecado e ter sido queimado no altar, aquele santuário e altar converteram-se agora num refúgio de paz que o mundo não pode dar. O lugar de morte converteu-se na alegria daquela mulher. Veem agora a razão pela qual o salmista confessou: "Anseio e amo o santuário do Senhor. Preferiria ser porteiro na casa do meu Deus do que habitar nas tendas da maldade"? Sabem verdadeiramente que são alguém que habita dentro daquele santuário de graça?

 

Todos vocês foram conduzidos a um canto da vida, mas são aqueles que ganharam a vida graças a Jesus Cristo. O Senhor tirou todos os seus nomes pecaminosos e escreveu o seu nome no seu lugar. Graças a isso, tal como o pardal e a andorinha obtiveram um ninho sobre o altar, vocês chegaram a desfrutar do verdadeiro descanso no seio do Senhor. Agora, escutem a voz apacível e delicada do Senhor. Todos nós somos fundamentalmente como a mulher adúltera, pecadores num beco sem saída. No entanto, o Senhor proclama: "Nem eu te condeno. Porque eu mesmo me fiz o teu pecado". E acrescenta: "De agora em diante, deixa a tua vida de pecado". Espero que esta graça de absolvição e o convite a uma nova vida transbordem nos seus corações e no meu hoje.

 

A Vitória da Cruz e a Batalha Espiritual do Crente

Não é porque não vivamos em pecado que Deus nos aceita. Certamente não é porque nos tenhamos esforçado muito por viver limpamente que Ele nos tolera. Não podemos satisfazer o coração de Deus com nenhum esforço humano. No entanto, há um que se tornou pecado mesmo em lugar de todos os nossos pecados e gravou o seu nome sobre aquele pó de julgamento. Graças a Ele, agora somos aqueles que não têm nada a ver com o pecado; pelo contrário, convertemo-nos em inimigos do pecado. A luta feroz com o pecado que ocorre na sua vida surge desta mudança de estatus. No passado, vocês estavam do mesmo lado que o pecado, por isso não havia necessidade de lutar. Mesmo o coração para viver um pouco mais limpo segundo a consciência não era, de fato, nada mais que um desejo humano de possuir orgulho moral enquanto se enchia a cobiça mundana.

 

Mas agora, convertemo-nos em pessoas que não têm nada a ver com o pecado e que podem verdadeiramente resistir e lutar contra ele. No passado, não tínhamos a força para lutar contra o pecado, mas agora, devido a que Jesus Cristo se fez pecado por nós e ganhou essa luta, nós também podemos nos opor ao pecado. Vocês são aqueles que lutam contra o pecado, pessoas a quem se outorgou a capacidade de resistir inclusive até ao ponto de derramar sangue. Durante a viagem da vida que o Senhor permitiu, quanto mais lutarmos contra o pecado, mais profundamente nos daremos conta de quão grandes pecadores somos. E quanto mais nos dermos conta dessa miséria, mais nos comoverá essa graça sem limites ao ir perante a cruz de Jesus Cristo que nos perdoou.

 

A Liberdade do Pecado e o Poder da Cruz

À medida que vivo a vida, coisas que eram totalmente impossíveis pela minha própria força tornam-se possíveis graças a Jesus Cristo. Graças ao Senhor, posso viver o dia de hoje também. Mesmo que nos frustremos e falhemos, podemos levantar-nos de novo confiando no Senhor que saiu vitorioso. Portanto, agora estão libertados do pecado. Não fujam mais, presos da culpa. Ganharam a verdadeira liberdade de consciência. Nada pode condenar-vos. Não se deixem enganar pela tentação do diabo que lhes faz carcomer-se a si mesmos ou se burla de vocês dizendo: "És acaso uma pessoa que crê em Jesus?". É porque Jesus escreveu o seu nome naquele lugar de julgamento em lugar dos vossos nomes.

 

Não se limitem a sentar-se e viver uma vida insignificante no mundo, mas participemos nessa guerra santa que o Senhor odiou e ganhou pessoalmente. Sabemos bem que a cobiça dentro de nós não desapareceu por completo. No entanto, a Bíblia proclama constantemente: "O poder desse pecado já não tem nada a ver contigo. Assim que luta". Mesmo que estejamos expostos perante numerosas tentações que surgem dentro de nós, não vacilemos. Somos o povo do Senhor chamado a lutar contra essas tentações. O Senhor está connosco, e Ele foi vitorioso nesta guerra antes de nós — não, só —. Somos os filhos da graça que receberam o grande amor de Deus, marchando para a frente sustentando esse estandarte de vitória.

 

Não tentem lutar contra o pecado com a força humana, como a sua própria resolução ou determinação. Agarrem-se apenas à cruz de Jesus Cristo. Com um coração que lhe ama, meditem profundamente uma vez mais em quem é Ele. Cada vez que descubram a seriedade do vosso pecado, corram diretamente a Jesus. Sobre esses passos em direção ao Gólgota, abençoo-vos no nome do Senhor para que apenas a cruz de Jesus se torne a vossa força completa.

 

Oremos.

Senhor, nós éramos aqueles que mereciam morrer sobre o altar. No entanto, o que se gravou naquele lugar de morte não foram os nossos nomes, mas o nome de Jesus. Devido a que o Senhor se tornou pecado por nós, morremos com o Senhor e também voltamos à vida com o Senhor. Agora o Senhor diz-nos: "Vai e não peques mais". Confessamos que este santo chamado se tornou um novo marco para as nossas vidas.

 

Senhor, ainda há tantas coisas que não sabemos a respeito de por que devemos lutar e como devemos viver. Perante as numerosas decisões que enfrentamos em cada etapa da vida, às vezes vagamos sem saber para onde ir. No entanto, temos uma segurança inalterável: cremos que o mérito de Jesus Cristo, quem começou a boa obra em nós e a completou pessoalmente, se alcançará de forma rica e plena nas nossas vidas. Confiando não na nossa fraqueza mas na integridade do Senhor, marchamos hoje para a frente agarrados à vitória da cruz.

 

Oramos no nome de Jesus Cristo. Amém.

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