João 5:24–30

Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo. E deu-lhe poder de exercer o juízo, porquanto é o Filho do Homem. Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação. Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo, e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai, que me enviou.” Amém.

 

O ‘Amém’ de Jesus que nos transfere da morte para a vida

O texto de hoje começa com a solene declaração: "Em verdade, em verdade", uma passagem célebre que marca a transição para a segunda metade do primeiro grande discurso de Jesus. Peço que prestem atenção mais uma vez ao versículo 24: “Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida”. Não é exagero afirmar que este versículo constitui um dos pilares mais fundamentais da fé cristã. Juntamente com João 3:16, esta passagem define com clareza as perguntas essenciais: "Por que frequento a igreja?" e "Por que creio em Jesus?". Frequentemente simplificamos estas palavras pensando que "crer em Jesus garante o recebimento da vida eterna". No entanto, a vida eterna da qual a Escritura fala não se limita, de modo algum, a uma extensão física e infinita da existência. Se entendermos a vida eterna apenas como "viver para sempre", estaremos perdendo o profundo e verdadeiro significado que a Palavra revela.

 

A vida eterna não é um produto da ganância, como o elixir da imortalidade buscado pelo imperador Qin Shi Huang. Se alguém fosse obrigado a viver eternamente mantendo uma natureza intrinsecamente maligna, não seria isso a própria definição do inferno? A essência da vida eterna, segundo o testemunho da Bíblia, está no "estado de manter um relacionamento correto com o Deus eterno". Embora não seja incorreto dizer que vamos para o céu, a vida eterna transcende a mudança de lugar; significa que os relacionamentos rompidos de nossa vida são restaurados à sua posição original. É como abotoar corretamente uma peça de roupa que antes estava desalinhada. Devemos gravar profundamente em nossos corações que a vida eterna não é uma apólice de seguro para o céu enquanto perseguimos desejos mundanos, mas a restauração do vínculo que havia sido cortado entre o Deus eterno e nós.

 

A premissa de um relacionamento correto com Deus

Se a vida eterna significa a restauração de um relacionamento, a razão fundamental pela que precisamos desta Palavra parte da premissa de que atualmente não estamos em um relacionamento correto com Deus. A Escritura mantém uma severidade constante para com todos, inclusive para com aqueles que já confessaram sua fé. A Bíblia pergunta incessantemente: "Vocês estão realmente mantendo um relacionamento correto com Deus?". Como se nos lembrasse que todos estamos inerentemente em um estado de separação de Deus, ela nos insta a verificar e examinar esse relacionamento sem descanso. Nesse contexto, a proclamação do texto de hoje é claríssima. Jesus diz: "Quem ouve a minha palavra e crê nAquele — Deus — que me enviou, tem a vida eterna". O cerne desta proclamação reside no anúncio de que já "passamos da morte para a vida". Portanto, a conclusão que enfrentamos hoje é evidente: ouvir atentamente as palavras de Jesus e avançar para uma vida que O confesse plenamente como Senhor.

 

Se eu encerrasse o sermão aqui, talvez vocês se alegrassem internamente com um final mais cedo do que o esperado. Mas reflitam profundamente mais uma vez. Acaso Jesus nos diria palavras que nos fizessem mal? Não entregaria Ele somente a verdade que é boa e bela? Além disso, qual é a imagem de Jesus que costumamos imaginar? Frequentemente visualizamos a figura de um santo cujo rosto irradia misericórdia, amor, compaixão e graça; alguém cuja voz fascinaria inevitavelmente qualquer um que O conhecesse. Nos meios de comunicação ou no cinema, Jesus é retratado frequentemente com uma autoridade e bondade avassaladoras. Pensem naquela cena famosa do filme Ben-Hur, onde o protagonista, exausto, recebe água de um homem cujo rosto faz o soldado romano recuar assombrado por sua majestade. O mundo costuma retratar um Jesus com um carisma que domina as massas apenas com sua presença, mas a realidade do Messias que a Bíblia testifica é, de fato, bastante diferente. As palavras de Isaías 53:1–3 provam essa realidade.

 

Um Messias sem beleza para admirar

Quando Jesus veio e pregou a verdade, acaso o mundo O recebeu com hospitalidade e creu nEle? A Escritura registra firmemente que não foi assim. “Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz duma terra seca; não tinha beleza nem formosura; e, olhando nós para ele, não havia figura nela, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos”. Esta é a descrição real de Jesus feita pela Bíblia. Longe de ficarem maravilhadas por Ele, as pessoas O acharam tão comum que chegaram a desprezá-lO e considerá-lO alguém insignificante. Frequentemente cometemos o erro de pensar que Jesus possuía um carisma tão poderoso que os discípulos se sentiram cativados por sua personalidade até o ponto de darem suas vidas. No entanto, a realidade é que, no momento em que Jesus foi preso, nem um só discípulo permaneceu ao seu lado; todos, sem exceção, fugiram.

 

Ninguém ficou com Jesus. Exceto uns poucos que desapareceram covardemente e reapareceram discretamente mais tarde, todos voltaram aos seus antigos ofícios. Mesmo sob os padrões humanos de liderança, Jesus parecia uma figura que carecia do carisma necessário para que um subordinado estivesse disposto a ir para a prisão em seu lugar. Os discípulos não O seguiram pela nobreza espiritual de Jesus, mas, ao verem os milagres que realizava, O seguiram com a expectativa de que "com este homem se poderiam alcançar grandes coisas mundanas". É difícil encontrar na Bíblia um registro de que O seguiram com uma fé perfeita desde o princípio. Quando uma figura tão modesta e aparentemente impotente declarou "Ouçam a minha palavra", quem teria realmente escutado essa voz?

 

Costumamos julgar as pessoas pela aparência e ornamentos externos. Seguindo o pensamento comum de que o que é bonito é bom, supomos que Jesus também deve ter sido alguém atraente, mas a Bíblia enfatiza que Ele era uma figura verdadeiramente sem atrativo físico. Quando um homem que carecia completamente de condições externas para cativar as massas se chamou a si mesmo de Messias, a resposta do público foi fria. A única razão pela que muitos O seguiam era, segundo o testemunho bíblico, "porque comeram do pão e se saciaram". Jesus viu suas verdadeiras intenções e, de fato, se afastava das multidões. Ao contrário de outros líderes religiosos cujo objetivo é reunir e ensinar pessoas, Jesus, pelo contrário, desconfiava das massas. Devemos contemplar a existência de Jesus com muito mais seriedade. Devemos abandonar a ilusão de que teríamos crido imediatamente apenas ao vê-Lo falar. A verdadeira proclamação de Jesus não reside em seu encanto externo, mas precisamente nas palavras do versículo 25.

 

A voz que levanta os mortos

Vejamos de novo o versículo 25. Qual é a razão pela que esta breve palavra nos exige uma reflexão tão profunda? “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão”. A "hora" de que se fala aqui é o momento exato em que Jesus está proclamando. No entanto, surpreendentemente, os sujeitos que ouvem essa voz e ganham vida são "os mortos". Estes não são apenas os que ressuscitarão dos sepulcros no futuro, mas refere-se àqueles que estão atualmente mortos em um sentido espiritual. Jesus está definindo as pessoas que tem diante de Si como "mortos". Somente mantendo esta perspectiva é que as palavras anteriores do versículo 24 fazem sentido. Quão paradoxal é dizer a um morto: "Se você ouvir a minha palavra e crer, terá a vida eterna"? Como pode um morto ouvir uma voz?

 

Isso é como ir a um cemitério, tocar um apito e dizer que quem ouvir o som e correr primeiro será salvo. Ninguém nos túmulos pode responder ao som do apito. Diante da desconexão absoluta que a morte impõe, qualquer voz nobre é simplesmente ruído. A etapa da fé — ouvir as palavras de Jesus e crer — é uma tarefa impossível para alguém que está morto. Nossa tragédia fundamental não é se temos ou não fé, mas nossa ignorância de que já estamos espiritualmente "mortos". Não devemos confundir a fé com o mero assentimento intelectual ou uma convicção subjetiva. A confissão "creio que Jesus é meu Salvador" às vezes pode ser nada mais que uma autoafirmação. No entanto, dar-se conta de que ‘originalmente eu era um homem morto’ é um nível de consciência totalmente diferente.

 

Apenas para quem compreende dolorosamente que está prisioneiro em uma cela, a declaração de "liberdade" se torna uma alegria real. Para alguém que acredita sempre ter sido livre, a oferta de liberdade é apenas um som estranho. Por que os judeus se enfureceram quando Jesus declarou que vinha salvar os pecadores? Foi pela arrogância de dizer: "Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém; como ousas chamar-nos de pecadores?". Nós também podemos confessar pecados de forma conceitual e admitir falhas menores. Mas devemos perguntar a nós mesmos quão profundamente estamos sentindo nossa realidade existencial como ‘alguém que merece morrer’, que é o que a Bíblia aponta como o pecado fundamental.

 

O ‘Amém’ de Jesus vem primeiro

Estamos realmente encarando o fato de que éramos prisioneiros e mortos espirituais? Se Jesus nos define como mortos e fala conosco, o que significa então o seu conselho prévio de "Ouvir a minha palavra"? Como pode alguém cuja vida foi cortada obedecer a essa voz? Voltemos ao versículo 24 para encontrar a resposta. “Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna”. No início deste versículo que conhecemos tão bem, encontra-se uma expressão crucial que nunca devemos ignorar: a proclamação "Em verdade, em verdade vos digo".

 

No idioma original, esta frase significa "Amém, Amém". É a mesma palavra que usamos para concluir um hino ou uma oração. Portanto, se traduzirmos mantendo o significado original, seria: "Amém, Amém, eu vos digo". ‘Amém’ não é uma mera exclamação de acompanhamento, mas uma declaração que contém um acordo total e uma confirmação: "Assim é, é verdadeiramente assim, é justo".

 

Originalmente, a confissão do Amém sempre ocupava o final de uma frase no uso bíblico. O Salmo 41:13 diz: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel de século em século. Amém e Amém”, encerrando assim o final do louvor. O Salmo 72:19 também termina com: “E bendito seja para sempre o seu nome glorioso... Amém e Amém”. Tal como hoje respondemos Amém apenas ao terminar uma oração, esta palavra funciona como o ponto final que sela todas as petições e louvores. No entanto, de maneira muito pouco convencional, Jesus colocou o "Amém, Amém" no princípio do seu discurso. Este uso foi tão único que nem a literatura judaica nem os discípulos, que conheciam intimamente a forma de falar de Jesus, ousaram reproduzir esta expressão.

 

Frequentemente descartamos isto como uma simples frase de ênfase. Mas se isto fosse apenas um meio para enfatizar, por que o apóstolo Paulo, que argumentou a verdade de maneira tão veemente em Romanos, não tomou emprestada esta expressão? Teria sido imensamente eficaz dizer: "Amém, Amém, digo-vos que não há condenação". O fato de nenhum apóstolo ter usado esta expressão sugere que ela carrega um significado na história da redenção que apenas Jesus pode proclamar, indo além de uma simples ênfase.

 

Para compreender a profundidade desta expressão, devemos observar o contexto do capítulo 5 de João. Os versículos 19 e 30 repetem a mesma confissão: "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma", mudando apenas o sujeito entre 'o Filho' e 'Eu'. Isto enfatiza que o ministério de Jesus não foi uma ação independente, mas um ministério de obediência que recebia exatamente o que via e ouvia de Deus. Ao compreender esta estrutura, a verdadeira intenção do "Amén, Amén" revela-se. Jesus está, neste momento, diante do plano de salvação e da Palavra de Deus, respondendo primeiro com um "Amém, Amém" a essa obra santa. Ou seja, antes de nos pedir para "ouvirmos bem", a palavra do Senhor é precedida por sua obediência total à vontade de Deus: o 'Amém de Jesus'.

 

Por que isto é tão importante? Porque Jesus está falando agora àqueles que estão ‘mortos’. Os mortos não têm capacidade de ouvir por si mesmos, portanto, para que possam escutar a voz da vida, algo deve ocorrer primeiro necessariamente: o Amém de Jesus. Não é que nós entendamos e depois digamos Amém; antes, porque Jesus disse Amém ao plano de salvação de Deus, sua eficácia nos alcança. Quando Deus mandou: "Vá ao mundo e morra por eles", o Senhor obedeceu dizendo "Amém", e por isso nós, que estávamos mortos, fomos vivificados para podermos ouvir a sua voz. Nossa fé e nossa confissão não existem sozinhas por si mesmas. Porque existiu o Amém de Jesus, que obedeceu a Deus antes de nós, nós também podemos finalmente dizer Amém junto com o Senhor.

 

O Deus ignorado, nós os que O ignoramos

Antes de nossa resposta, o ‘Amém’ de Jesus foi sempre primeiro. Por essa graça infinita, finalmente podemos ouvir e crer, despertando do sono da morte para viver. No entanto, ao ganhar vida espiritual, começamos a ver claramente pela primeira vez que tipo de atos malignos cometemos contra Deus. A Bíblia aponta a existência humana de forma afiada, e a parte onde nos opusemos a Deus é uma verdade verdadeiramente temível e pesada. Antes de crer em Jesus, ninguém se dá conta realmente de que pecou contra Deus. Consideramos apenas as faltas éticas, como odiar outros ou mentir, mas quase não há consciência de ter feito algo indevido contra o Criador. No entanto, a verdadeira jornada da fé começa com a dolorosa compreensão: "Ah, eu pequei contra Deus".

 

Crer em Jesus implica um processo de arrependimento onde a pessoa bate no peito por seus pecados. É uma dor que vai além da reflexão sobre defeitos morais; é dar-se conta de quão horrivelmente vivemos ignorando o Deus santo. Os pecados cometidos contra pessoas podem ter um caminho para pedir perdão ou compensar, mas a rebelião contra o Deus eterno não pode ser paga com nossas próprias forças. Nunca consultamos a Deus sobre o rumo de nossa vida. Viver como nos agradava sem Lhe perguntar, enquanto respirávamos e vivíamos sem restrições, foi em si mesmo um ato de ignorância extrema que excluiu Deus completamente.

 

Começa-se a ver quão temível foi todo o esforço por construir a vida com nossas próprias forças e dirigi-la segundo nossa vontade. Ficam expostos os anos de arrogância em que acreditávamos que podíamos viver perfeitamente sem Deus. Ao tentar sobreviver apenas pelo nosso próprio poder, a única coisa que nossa vida acumulou foi um orgulho e uma soberba desmedidos. Mas, paradoxalmente, à medida que esse orgulho cresce, cresce também em proporção nosso complexo de inferioridade interno. Ao nos depararmos com o limite de não podermos alcançar o 'eu ideal' que propusemos, o ser humano cai inevitavelmente no pântano da inferioridade. Nesse estado, cada palavra dos outros se torna uma ferida, e até a palavra proclamada do púlpito é vista com suspeita, interpretando-a como um "ato de me ignorar". Esta é uma doença existencial que nada tem a ver com ter muito ou pouco.

 

Esse sentido de inferioridade estreita extremamente nossa visão para olhar os outros. Avaliamos as pessoas apenas com o padrão que criamos e as odiamos ou dividimos segundo nossas preferências. Considerar isto simplesmente como um problema de personalidade é muito arriscado espiritualmente, porque em sua base reside a declaração: "Eu serei o Deus da minha vida". Esta declaração arrogante — que a soberania da minha vida me pertence apenas a mim — é a escuridão mais profunda de que fala a Bíblia.

 

O amor de Jesus que nos resgata da morte

Não temos o poder de controlar nossa própria inferioridade e orgulho. Presos nessas correntes, sofremos constantemente e trememos diante do fracasso e da ansiedade. A compulsão de ter de ser responsáveis por nós mesmos oprime a vida. No entanto, ao receber o Evangelho, percebemos que precisamente esse estado era a 'morte'. Compreendemos que esse esforço miserável por agir como se fôssemos Deus era o estado de morte espiritual. Embora o fôlego físico permaneça, confessamos que todos esses anos de luta para provar a si mesmo enquanto se estava preso pelo orgulho e pela inferioridade eram o lugar da morte apontado pela Bíblia. Enfrentamos a realidade de uma vida egoísta que considerava todos os outros como competidores ou inimigos, usando até família e amigos como meios para elevar nosso próprio valor.

 

No entanto, crer em Jesus é o evento de ser resgatado desta morte isolada. É porque finalmente compreendemos que há alguém que realmente se preocupa conosco e nos ama. Há alguém que nos olha sem nunca desistir, mesmo quando nos destruíamos com um orgulho incontrolável. Por um pecador como eu, que viveu ignorando e negando a Deus, por alguém que trai e se rebela sem cessar, aquele que disse "Amém" à obediência até a morte foi Jesus Cristo.

 

Jesus chama este momento de "esta hora". É o instante decisivo em que os mortos ouvem a voz do Senhor e vivem. Quando a verdade de que alguém decidiu morrer por nós — inclusive em todos os momentos em que dávamos as costas a Deus — colide com nossa alma, a vida salta dentro de nós. Só então podemos dizer que ‘vivemos’. Quem saboreia esta vida maravilhosa descobre o verdadeiro significado da existência louvando: "Senhor, como podes conceder uma graça tão estranha a alguém como eu?".

 

O valor da vida não reside em conquistas brilhantes nem em uma filosofia elevada. Para que a vida tenha sentido, primeiro deve estar viva. Aqui, estar vivo significa ir além da mera sobrevivência para restaurar o relacionamento correto com Deus, ou seja, desfrutar da 'vida eterna'. Somente dentro deste relacionamento podemos discutir uma vida verdadeira. Mas, ao chegar ao versículo 29, enfrentamos de novo um grande desafio de fé: “E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação”. Ao ler isto, às vezes sentimos perplexidade ao pensar se a salvação depende de novo de nossas obras. Como devemos manter o equilíbrio entre a promessa de obter a vida eterna pela fé e este versículo que exige boas obras?

 

A boa obra que Deus começou

Sentimos uma estranha dissonância ao encarar a palavra de que devemos fazer o bem para alcançar a ressurreição da vida. Isto deve-se ao fato de que, mesmo depois de crer em Jesus, coexistem em nós aspirações boas e a natureza maligna. Se o Evangelho consistisse em obter a vida baseando-se nas boas obras, como poderíamos escapar do juízo pelas más ações que ainda permanecem em nossa vida? Se interpretarmos esta passagem literalmente, ninguém poderia livrar-se da ressurreição da condenação. Portanto, a expressão ‘fazer o bem’ aqui encerra um significado espiritual que transcende em muito o nível ético e moral que pensamos convencionalmente.

 

O que é exatamente a obra boa que o próprio Deus define? Para encontrar essa pista, prestamos atenção a Josué 23:14. Josué, antes de morrer, confessa assim ao povo: “E eis que vou hoje pelo caminho de toda a terra; e vós bem sabeis, com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma, que nem uma só palavra caiu de todas as boas palavras que falou de vós o Senhor vosso Deus; todas vos sobrevieram, nem uma delas caiu”. Ele está proclamando que as obras de Deus para com Israel se cumpriram sem exceção.

 

Aqui, a obra boa de Deus refere-se a todo o processo de redenção: tirar Israel da escravidão no Egito, dividir o Mar Vermelho, alimentá-los com maná e codornizes no deserto e guiá-los à terra de Canaã. Ou seja, a boa obra que a Bíblia testifica não é a bondade moral humana, mas ‘o processo em si da história da salvação de Deus cumprindo-se em nossas vidas’. Toda a providência nesta terra que avança para a consumação da salvação é, em si mesma, a obra boa.

 

O Novo Testamento apoia esta visão com mais firmeza. Efésios 2:10 registra que somos “criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. As boas obras não são um mérito que nós fabricamos arbitrariamente, mas o caminho santo que Deus já planejou e estendeu sobre o horizonte de nossas vidas. Hebreus 13:21 também roga para que, através de Jesus Cristo, se cumpra em nós a vontade que agrada a Deus, esclarecendo que isso é precisamente a boa obra.

 

Em conclusão, fazer o bem significa uma atitude perante a vida que aceita a obra de Deus iniciada em nosso interior através de Jesus Cristo e se entrega a esse fluxo. O fato de a vontade santa que Deus estabeleceu para nós se tornar uma realidade é a essência da boa obra. Nesse processo, é claro, virá acompanhada a santidade moral, mas o valor mais fundamental reside no fato de que ‘o plano de salvação de Deus está se cumprindo sem interrupção em nossa vida’.

 

Estar confiado de que Ele a aperfeiçoará

Neste ponto, quero enfatizar especialmente as palavras de Filipenses 1:6. O apóstolo Paulo, usando termos que coincidem com a mensagem de hoje, assegura com firmeza: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”. Aqui, a ‘boa obra’ é precisamente a obra iniciada e dirigida por Deus. O ponto de partida da boa obra não é a vontade humana, mas o decreto de Deus. É a segurança de que, dado que o próprio Deus a começou, Ele a terminará infalivelmente durante o resto de nossa existência. Portanto, aquele que fez o bem e sai para a ressurreição da vida é aquele que tem a vida e experimenta a obra de Deus que o sustém e o molda.

 

Quem é o santo? É precisamente ‘uma pessoa em quem a boa obra de Deus está se cumprindo em tempo presente’. Que definição tão clara e gloriosa! A vida de um santo não é um tempo que flui sem sentido, mas o cenário da redenção onde a mão santa de Deus trabalha sem descansar nem um só instante. Por isso, nunca podemos tratar de forma leviana os irmãos que estão ao nosso lado. Não menospreze seu cônjuge ou seu vizinho com quem percorre o caminho da fé. O que está ocorrendo agora mesmo dentro deles? Está ocorrendo a obra santa dAquele que criou os céus e a terra.

 

Embora sua aparência pareça frágil agora e surja o ceticismo sobre se poderão mudar, se essa pessoa conhece a Cristo e possui a vida em seu interior, não podemos perder a esperança. É porque a boa obra de Deus já começou. Às vezes, o rumo dessa vida pode ser tortuoso e difícil, mas devemos confiar na fidelidade de Deus que trabalha nos bastidores. Não podemos julgar a vida de alguém como sucesso ou fracasso baseando-nos apenas em um curto fragmento do presente. Porque todos nós somos seres preciosos escolhidos para que a boa obra de Deus se cumpra plenamente em nós.

 

Boas obras junto com Jesus

O caminho da fé começa com a emoção do Evangelho ao receber nova vida em Cristo, ouvir a Palavra de Deus e regozijar-se nessa verdade. A gratidão de saber que ‘eu revivi porque Jesus disse Amém primeiro’ nos faz vibrar. No entanto, a alegria não é tudo na fé. Quando compreendemos a Palavra e tentamos viver seguindo essa luz, necessariamente segue-se uma mudança real em nossas vidas. A boa obra de Deus, ou seja, o caráter e a vida de Jesus Cristo, começa a manifestar-se atravessando todo o nosso ser.

 

A vida de Cristo brota em nosso interior, rompendo os restos do velho eu e a vida rotineira. Quando o caráter de Jesus começa a atuar em nós, aprendemos finalmente uma devoção e um amor que não se podem expressar com palavras, e a estética de uma paciência profunda. Às vezes chega a dor de participar nos sofrimentos de Cristo, mas todo este esforço é um processo sagrado que é possível porque Jesus obedeceu primeiro com um ‘Amém’ por nós.

 

Há momentos em que quer perguntar por que deve percorrer um caminho tão cansativo e solitário apesar de crer em Jesus? Nesses momentos, nunca se esqueça: você está caminhando pela senda da vida graças ao Amém de Jesus. Mesmo quando passar por vales de sombra e poços de desespero, lembre-se de que o Amém fiel de Jesus sustenta sua vida com firmeza. Gravemos em nosso peito essa grande convicção que teve o apóstolo Paulo. No final da vida, Deus certamente levará a cabo essa boa obra. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”. Apegados a esta promessa gloriosa, completemos a carreira da fé sem vacilar.

 

Oremos

Amado Senhor, te damos graças por tua graça ao começares uma boa obra em nós e a levares ao cumprimento. Confessamos que frequentemente desesperamos ao ver nossas deficiências em cada curva da vida, e nos desanimamos perante a realidade escura onde não se vê o caminho. Toca nossos corações feridos por tentar alcançar o bem com nossas próprias forças.

 

Como prometeste hoje, sairemos finalmente para a ressurreição da vida. Proclamamos em fé que essa obra santa que Deus começou em nossa vida não será interrompida, mas será cumprida plenamente. Confiamos que até nossa fraqueza e nossos limites estão sob tua soberania perfeita, pois Tu és o eterno ‘Amém’ de nossas vidas. Como Tu abriste primeiro o caminho da obediência, nós também Te seguiremos respondendo de bom grado com nosso Amém.

 

No nome de Jesus Cristo, oramos. Amém.

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