João 4:1–10
“E, quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos), deixou a Judeia e foi outra vez para a Galileia. E era-lhe necessário passar por Samaria. Chegou, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José. E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pides de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos)? Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.” Amém.
Jesus Cristo, o Verdadeiro Protagonista da História
Continuando nossa jornada pelo Evangelho de João, chegamos agora ao famosíssimo episódio registrado no capítulo 4. Assim como existe o conhecido hino intitulado "A Mulher Samaritana" ou "A Mulher junto ao Poço", esta história nos é profundamente familiar. No entanto, ao encontrarmos frequentemente os relatos da mulher samaritana ou de Nicodemos, podemos facilmente cair em um equívoco: pensar que a mulher samaritana é a protagonista do capítulo 4, ou que Nicodemos é o centro da narrativa. Embora seja verdade que Nicodemos e a mulher samaritana ocupem um lugar significativo nas Escrituras, não devemos esquecer que o único e verdadeiro protagonista da história é Jesus Cristo. Se perdermos esse fato de vista, perderemos a perspectiva mais importante para compreendermos a Bíblia.
O conteúdo de João capítulo 4, seguindo a partir do capítulo 2, é, na verdade, parte de um único e grande fluxo que começou nas bodas de Caná. No meio do capítulo 2, surgem as bodas de Caná, e o capítulo termina com o incidente no templo. No capítulo 3, segue-se o incidente de Nicodemos e, no capítulo 4, emerge a história da mulher samaritana. Finalmente, o grande desfecho do capítulo 4 conclui com o segundo milagre ocorrido novamente em Caná. Ao observarmos a estrutura geral, percebemos que esta narrativa começa em Caná e retorna a Caná, conectando-se em um círculo completo.
O primeiro início em Caná foi no sétimo dia. Isso significa o tempo em que a criação de Deus é completada, o descanso é proclamado e um banquete é realizado. Portanto, as bodas de Caná são um protótipo do maravilhoso banquete celestial que ocorre no sétimo dia. Naquele banquete, não foi derramado apenas vinho visível aos olhos humanos, mas o vinho milagroso descido do céu. O incidente subsequente no templo revela o verdadeiro Templo do céu, e a história de Nicodemos testifica sobre aqueles que nasceram de novo do alto. Além disso, João Batista confessa em direção ao Noivo celestial: “Ele é o Noivo, e eu desfruto da alegria do amigo que está ao lado do Noivo”.
A história da mulher samaritana em João capítulo 4, que enfrentamos hoje, apresenta-nos a água viva do céu. E o segundo milagre em Caná, ao final do capítulo 4, através da história de um menino que venceu a morte e viveu, declara uma vida celestial que nem mesmo a morte pode deter. Em última análise, todas estas histórias revelam claramente que Jesus Cristo — o vinho do céu, o Templo e a vida eterna — é o tema central de cada acontecimento.
A Providência de Deus para a Salvação e a Expansão do Evangelho
Se observarmos de perto o processo desta história, a jornada começa na Judeia. Após as bodas de Caná, Jesus entra na Judeia, especificamente no Templo em Jerusalém, abrindo o prelúdio de Seu ministério de salvação. Lá Ele encontra Nicodemos, seguido pelo testemunho de João Batista, e somente então se dirige a Sicar. Sicar fica na região de Samaria. Finalmente, antes de retornar a Caná, Ele cura o filho de um oficial real, estendendo a cura a um gentio. Alguma passagem bíblica específica vem à sua mente ao ver esta sequência que vai do judeu Nicodemos à mulher samaritana e, depois, ao gentio? Lembremo-nos juntos de Atos 1:8.
“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra”. Este fluxo, cruzando as fronteiras do Templo, de Jerusalém e do judeu Nicodemos em direção aos samaritanos e depois aos gentios, está profundamente conectado à vida que o próprio Jesus Cristo viveu. A trajetória da vida que o Senhor viveu e o mandamento que Ele pessoalmente deu são finalmente completados no livro de Atos, quando o Espírito Santo Consolador, o dom de Jesus Cristo, desce sobre Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra.
Quão maravilhoso é este evento! A história que enfrentamos hoje está intimamente ligada à graça do batismo no Espírito Santo desfrutada pelos crentes: o evento da descida do Espírito Santo. Portanto, enfatizo novamente: Nicodemos e a mulher de Sicar não são os verdadeiros protagonistas desta história. O protagonista desta história é apenas Jesus Cristo, e este evento é um testemunho que mostra claramente como o Senhor cumpre especificamente a obra de salvação de Deus nesta terra.
O Caminho do Senhor: Crescer Diminuindo
Vocês se lembrarão da confissão de João Batista. Ele declarou que ele deveria diminuir e Jesus Cristo deveria crescer. O fundamento sobre o qual João Batista pôde confessar tal coisa foi nada menos que este: a própria vida de Jesus Cristo foi esse mesmo caminho. Muitas vezes pensamos que João Batista disse que Jesus deveria ser exaltado e ele deveria ser rebaixado simplesmente porque ele era muito humilde. Mas como o ‘crescimento’ do Senhor se manifestou especificamente? Surpreendentemente, o evento de Seu sofrimento, carregando a cruz e morrendo, foi o próprio evento através do qual Jesus Cristo cresceu.
Em outras palavras, a vida de João Batista foi uma vida que preparou o caminho para Jesus Cristo, uma vida que projetou a vida do Senhor antecipadamente como uma sombra. O próprio Jesus fez alguém crescer diminuindo a Si mesmo. Esse alguém é o povo de Deus. O Senhor escolheu o caminho do sofrimento e enfrentou a morte para salvar o Seu povo. A vida de João Batista foi uma vida moldada conforme esta vida de Jesus. Se o Senhor veio a esta terra e fez o povo de Deus crescer diminuindo a Si mesmo, como deveria ser a vida de nós, que O seguimos? Que nós diminuamos para que o Reino de Deus e Sua glória cresçam — este é o princípio claro da fé.
Tal como confessou João Batista: “É necessário que ele cresça e que eu diminua”, Jesus Cristo salvou o povo de Deus que necessitava de salvação diminuindo a Si mesmo. Portanto, nós, como crentes, também devemos viver com a confissão: “Nós diminuímos, e o Reino de Deus cresce e recebe a glória”. Esta é a vida de um verdadeiro crente. Ao observarmos o texto agora, podemos ver como este princípio espiritual se desenvolve concretamente.
A Razão Inevitável pela qual Ele Tinha que Passar por Samaria
Olhando para o versículo 1 do capítulo 4, registra-se que o Senhor soube que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João. Isso significa que Jesus havia ganhado imensa popularidade, com multidões acorrendo a Ele. O Senhor tornou-se o centro da atenção pública, e as pessoas competiam para receber o batismo e tornar-se Seus discípulos. Mas, naquele exato momento, algo inesperado acontece. O versículo 3 registra: “Deixou a Judeia e foi outra vez para a Galileia”. Quando Sua popularidade estava no auge e a atenção das pessoas estava voltada para Ele, o Senhor, ao contrário, abandonou a Judeia. Que princípio está atuando aqui? É o princípio de diminuir a Si mesmo. Este princípio de ‘diminuir’ revela-se ainda mais claramente na rota em direção à Galileia. O Senhor não apenas abandona a Judeia; Ele escolhe deliberadamente passar por Samaria.
A região de Samaria pode ser um tanto desconhecida para nós. Enquanto nos orgulhamos de ser um grupo étnico unido, para Israel, a linhagem pura como descendentes de Abraão era uma grande fonte de orgulho. No entanto, por volta de 720 a.C., quando Israel estava dividido em Norte e Sul, o Reino do Norte de Israel foi invadido pelo poderoso Império Assírio. A Assíria era uma nação poderosa, e Samaria, a capital do norte de Israel, caiu sem remédio.
Naquela época, a Assíria implementou uma política dura em relação aos territórios conquistados. Realocaram à força os intelectuais e líderes de Samaria para outras terras, enquanto transferiam povos estrangeiros para Samaria. A intenção era misturar as etnias para que não pudessem resistir à Assíria. Esta política teve muito sucesso e, eventualmente, o norte de Israel tornou-se um povo de sangue misto.
Consequentemente, as tribos de Judá e Benjamim que permaneceram no sul começaram a desprezar ferozmente os samaritanos por não terem mantido pura a sua linhagem. Quando dez das doze tribos essencialmente desapareceram, as duas tribos restantes afirmaram ser a única linhagem verdadeira e ortodoxa. Esta é também a razão pela qual o apóstolo Paulo mais tarde enfatizou a si mesmo como “hebreu de hebreus, da tribo de Benjamim”. Além de Judá e Benjamim, o significado étnico tornara-se insignificante. A partir de então, os samaritanos foram desprezados pelos judeus ainda mais do que os gentios.
Olhando para a geografia daquele tempo, o caminho mais rápido para ir da Judeia para a Galileia era passar por Samaria, situada no meio. No entanto, os judeus odiavam até mesmo associar-se aos samaritanos, por isso optavam por dar uma longa volta pelas margens do rio Jordão para evitar aquele lugar. Era uma expressão obstinada de recusa em colocar sequer um pé na terra de Samaria. Mas Jesus entra nessa mesma Samaria. E acontece um evento ainda mais assombroso — Ele encontra uma mulher ali.
Jesus, que Veio em Providência
O fato de Jesus ter encontrado esta mulher é um acontecimento muito surpreendente, considerando a situação social da época. Isso não pretende menosprezar as mulheres, mas deve-se aos costumes rigorosos que prevaleciam entre os rabinos de então. Embora não fosse uma lei codificada, os rabinos, de acordo com seu próprio senso de autoridade e suas regras, proibiam estritamente encarar e falar com uma mulher em um lugar público. No entanto, agora Jesus encontra-se com esta mulher junto ao poço, no caminho para Samaria. O encontro em si é provocativo, mas a vida desta mulher também era extraordinária. De acordo com o registro bíblico, ela havia sido casada cinco vezes, e o homem com quem vivia atualmente não era seu marido. Frequentemente supomos que sua vida devia ser miserável simplesmente pelo fato dos ‘cinco casamentos’, mas a Bíblia não revela os detalhes.
O que está claro é que ela buscou a felicidade através do matrimônio, mas finalmente não conseguiu saciar essa sede. Através de repetidos casamentos e separações, ela encontrava-se agora em um estado de ter perdido o sentido da própria instituição do matrimônio. Estava simplesmente ficando com alguém, tendo perdido seu verdadeiro propósito de vida. Antes de aplicar normas morais, podemos calibrar suficientemente o quão ansiosa e cansada a vida desta mulher devia estar, e até que ponto ela devia considerar sua própria vida um fracasso.
O fato de a hora em que ela veio tirar água ser a ‘hora sexta’, ou meio-dia na atualidade, corrobora isso. Geralmente, a água é tirada no frescor da manhã ou da tarde, por isso ir ao poço em pleno meio-dia, sob o sol escaldante, significa que ela queria evitar os olhos das pessoas ou tinha medo de enfrentá-las. Era uma alma que havia provado a profunda frustração da vida. Mas o que devemos notar aqui é a expressão do versículo 4. A Bíblia registra: “E era-lhe necessário passar por Samaria”. O texto original deste versículo contém uma poderosa inevitabilidade. Esta palavra mostra claramente, como mencionado antes, que Jesus Cristo é o protagonista desta história. A obra da salvação de Deus havia começado, e Deus Pai estava impulsionando e guiando Jesus Cristo em direção a Samaria.
Além disso, olhando para o versículo 8, registra-se que os discípulos tinham ido à cidade comprar comida logo antes de o Senhor começar Sua conversa com a mulher samaritana. Se os discípulos não tivessem se ausentado e Jesus não tivesse ficado sozinho, esta conversa íntima poderia ter sido difícil de alcançar. Neste exato momento, vocês estão testemunhando como Sua delicada providência atua especificamente no momento em que ocorre a maravilhosa obra de Deus.
Frequentemente encontramos oportunidades inesperadas enquanto nos esforçamos para compartilhar o Evangelho com aqueles ao nosso redor. Confissões como ‘não sabia que diria tais coisas’ ou ‘não sei como Ele deu o momento tão perfeito’ nunca são coincidências. Esta é a essência mesma da história da salvação e da obra que Deus realiza. Como a Bíblia testifica, Deus está trabalhando pessoalmente e provendo neste exato momento. Não devemos perder de vista o fato de que esta mesma obra está acontecendo dentro de nós quando proclamamos o Evangelho.
Não é por nossa eloquência ou sabedoria que alguém volta para Deus. É o resultado de Jesus Cristo — que visitou a mulher de Sicar conforme a providência de Deus — estar presente ali naquele exato momento. Cristo estava conosco, presidiu a obra e a realizou pessoalmente. Não há uma única coincidência na questão de crer em Deus. Não há lugar para coincidência no conhecimento de conhecer a Deus. Rastreiem todo o processo de como vocês vieram a conhecer Jesus Cristo pessoalmente. Quer tenha levado muitos anos ou o tempo que passaram entrando e saindo da igreja sem pensar, no momento de encontrar o verdadeiro Jesus, finalmente percebemos: ‘Deus me trouxe até aqui’. Não é pela persuasão de ninguém, mas por Jesus Cristo, que estava presente naquele lugar, que encontramos o Senhor e nos rendemos voluntariamente diante dessa maravilhosa providência.
A Vontade do Senhor que Diz: "Dá-me de Beber"
Em tão assombrosa providência, Deus notou uma única mulher samaritana, e Jesus Cristo partiu da Judeia para a terra de Samaria. Nosso Senhor é Aquele que mais tarde Se entregará na cruz do Calvário para salvar uma única alma perdida. Que grande narrativa de salvação é esta! Se tão maravilhosa guia divina está em curso, o que diríamos diante desta oportunidade de ouro? Provavelmente tentaríamos proclamar o Evangelho diretamente, dizendo: “Creia em Jesus” ou “Deus te ama muito”. Mas o Senhor na Bíblia oferece inesperadamente palavras muito comuns e mundanas. Ele simplesmente diz: “Dá-me de beber”.
Muitas vezes entendemos estas palavras como uma espécie de técnica de conversa ou um meio para o evangelismo. Embora exista esse aspecto, se percebermos o fluxo de todo o Evangelho de João, percebemos qual é o verdadeiro tema desta história. É a ‘água viva’. Jesus não tomou simplesmente o elemento da água como desculpa para dar uma explicação, mas fez intencionalmente este pedido para revelar o que é a verdadeira água viva. Portanto, há um significado espiritual muito profundo nas palavras do Senhor ao pedir água.
Pensem nisso por um momento. Entre Jesus, que pede água, e a mulher, que está em posição de dar água, quem é realmente o rico? Na superfície, Jesus parece ser o que tem carência. Em Sua forma humana, o Senhor deve ter tido sede. No entanto, o Senhor faz mais tarde uma declaração muito importante no versículo 34: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. Sem beber uma única gota de água da mulher, o Senhor diz aos Seus discípulos que Ele tem uma comida para comer que eles não conhecem.
Em última análise, a água física não era o objetivo de Jesus. As palavras “Dá-me de beber” não eram tanto porque Ele precisasse da água em si, mas eram um meio para cumprir perfeitamente a obra de Deus. Através desta pergunta, o Senhor pretendia despertá-la para quem era o ser verdadeiramente sedento. Ele pergunta: ‘Você possui realmente a vida verdadeira que umedecerá e enriquecerá sua vida ressequida e fará com que nunca mais tenha sede?’. Embora a mulher não tenha compreendido este profundo significado no início.
Este pedido, perguntando se há água para saciar a sede da vida, tem um grande significado para nós hoje também. Porque somente Jesus é Aquele que verdadeiramente possui tudo. A vida da igreja não é diferente. Confessamos com nossos lábios que a igreja não se move por coisas materiais. Mas, por outro lado, achamos difícil sacudir o pensamento realista: ‘Não deveria haver finanças para continuar o ministério?’. Mas faz sequer sentido comparar nossas posses com Deus, o Dono de todas as coisas no céu e na terra? É uma comparação que é fundamentalmente impossível.
Embora Deus possua tudo, Ele requer ofertas de nós, diz para darmos nosso tempo e nos manda servir em diversos cargos. Isso é muito parecido com Jesus pedindo de beber à mulher. Não é porque Deus tenha uma carência que Ele nos pede. O propósito de Seu requerimento é apenas um: é para o nosso próprio bem. É uma consideração espiritual para nos fazer perceber quem realmente somos e o que verdadeiramente possuímos.
Não é que a igreja seja sustentada pelas ofertas que vocês dão, mas, ao requerer ofertas, Deus ensina que a sua vida não está ligada a coisas materiais. Alguns ainda podem não se render totalmente diante desta ensinança. Mas a verdadeira razão pela qual Deus nos manda ser devotos é para nos fazer saber que não somos seres que vivem pela sua própria força. Deus não tem carências. No entanto, Ele nos estende Sua mão para nos tirar da falsa riqueza de colocar a esperança em coisas diferentes de Deus, para que sejamos pobres de espírito, satisfeitos apenas pelo Senhor.
Rico de Coração ou Pobre de Espírito?
Se não compreendermos este princípio espiritual, viveremos sempre sob a ilusão de que somos ricos. Nicodemo e a mulher samaritana que aparecem no texto são figuras muito contrastadas em termos humanos. Nicodemo era um homem que possuía tudo no mundo. Era fariseu, membro do conselho governante judeu, o maior erudito de seu tempo e um rabino respeitado. Era um homem que desfrutava de riqueza, fama, status e poder, tudo ao mesmo tempo. Por outro lado, a mulher samaritana encontrava-se na situação oposta. Era uma mulher samaritana que sofria o desprezo social, havia fracassado em cinco casamentos e agora estava em profunda frustração, tendo perdido até o sentido da vida.
Frequentemente presumimos que para Nicodemo teria sido difícil aceitar o Evangelho devido ao seu alto e nobre status, enquanto a mulher samaritana teria se arrependido e voltado para o Senhor facilmente porque era humilde e tinha muitas deficiências. Mas a realidade não é assim. Quando Jesus disse a Nicodemo a verdade celestial de que “é necessário nascer de novo”, ele replicou: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?”. Ele respondeu à linguagem celestial com lógica terrena. Com a mulher samaritana ocorreu o mesmo. Quando Jesus disse que lhe daria água viva para que não tivesse que voltar a tirar água, ela pediu imediatamente: “Senhor, dá-me dessa água, para que não tenha sede e não venha aqui tirá-la”. Ambos compreenderam e reagiram aos valores espirituais celestiais apenas através da lente da utilidade terrena.
O que tinham em comum era que possuíam apenas valores terrenos e tentavam satisfazer-se com eles. Para a mulher, um único casamento bem-sucedido poderia ter sido a resposta para a vida. Assim como Nicodemo tentou desfrutar da felicidade através de sua origem, ela também tentou preencher sua vida com coisas terrenas. Em última análise, como buscavam a satisfação em coisas diferentes de Deus, são ‘ricos’ sob uma perspectiva bíblica. A Bíblia define ser rico como um estado em que o coração está preenchido com coisas diferentes de Deus. Com o que vocês estão preenchendo o seu coração agora mesmo?
Quando Jesus perguntou à mulher: “Dá-me de beber?”, o que Ele realmente queria que ela percebesse era isto: embora estivesse em um estado miserável e lamentável, se continuasse buscando a satisfação nas coisas terrenas em vez de em Deus, ela também estava em um estado de ser ‘rica de coração’. Nós não somos diferentes hoje. De acordo com uma pesquisa com donas de casa brasileiras, embora o trabalho doméstico tenha se tornado mais fácil devido ao desenvolvimento dos eletrodomésticos, muitas sofrem, na verdade, com sintomas de depressão. Isso mostra que não é um problema que possa ser resolvido melhorando o ambiente de vida. A causa raiz do sofrimento é, em última análise, a cobiça, e essa cobiça provém de um coração que tenta obter satisfação das coisas mundanas.
Tentar preencher o coração com valores mundanos é, paradoxalmente, um testemunho de medo, e esta é a ‘riqueza errada’ contra a qual a Bíblia adverte. Este é um estado que contradiz diretamente as palavras do Senhor: “Bem-aventurados os pobres de espírito”. Quando o Senhor pediu: “Dá-me de beber?”, a mulher acreditou que possuía algo que podia dar. Mas a pergunta do Senhor era fundamental: ‘Você possui verdadeiramente a água viva verdadeira que umedecerá sua alma e resolverá a sede de sua vida?’.
O Senhor nos pergunta o mesmo hoje. Mesmo no lugar onde servimos e nos dedicamos ao Senhor, Ele está perguntando: “Você acredita que a sede de sua vida será realmente resolvida pelo que você tem? Qual é o verdadeiro valor que você possui?”. Através desta pergunta, a mulher finalmente começa a encarar quem ela realmente é diante de Jesus Cristo. Ela começou a perceber o quão fútil era sua vida passada, tentando encontrar satisfação em coisas diferentes de Deus. A frustração e o sofrimento que ela experimentou através de repetidos casamentos e separações, e o anseio por uma felicidade verdadeira que nunca havia desfrutado, começaram a ficar expostos diante do Senhor. Sua frustração, que só aumentava quanto mais buscava a felicidade, levou-a agora a olhar para Jesus Cristo, o verdadeiro protagonista da história.
O Senhor que Carregou a Sede de Nossas Vidas
Naquele momento, a mulher olha para Jesus Cristo, que lhe pedira água. O Senhor nos desperta para o verdadeiro significado contido naquelas palavras: “Dá-me de beber”. Jesus estava muito cansado da longa jornada e sentou-se junto ao poço, com Suas forças exaustas. É um fato claro que o Senhor tinha sede e buscava água. Mas por que o Senhor pediu água especificamente a nós? Ele tinha comida diferente da nossa e era capaz de resolver aquela sede por Si mesmo; então, por que deixou Sua sede como estava e nos estendeu Sua mão? Junto àquele poço onde a desesperança da mulher se derrama, o Senhor tem sede agora mesmo. A razão pela qual o Senhor tem sede é que agora Ele está recebendo em Sua própria vida essa vida miserável, ressequida e agrietada da mulher. A vida do Senhor teve sede por causa da vida dela.
Queridos santos, espero que não paremos apenas em obter lições intelectuais ou identificar informações quando enfrentamos a Bíblia. Hoje, desejo fervorosamente que entrem diretamente na cena da Escritura junto com a mulher de Sicar. De lá, olhem para a sede de Jesus Cristo através dos olhos da mulher de Sicar. Por que o Senhor tem sede? É por causa de sua vida agrietada que o Senhor tem sede. O Senhor teve sede com sua vida mesma. Ele teve sede porque carregou pessoalmente sua frustração, dor, morte e miséria. E em troca dessa sede, o Senhor nos concedeu água viva eterna.
Vocês se lembrarão das últimas sete palavras do Senhor gritadas da cruz. Entre elas estava o grito desesperado: “Tenho sede”. Ele tinha sede simplesmente porque a dor física era profunda? Não. O Senhor derramou em Sua vida as vidas inteiras dos seres humanos — o fracasso, a frustração e a dor profunda que cada um de vocês teve que experimentar. Por isso o Senhor teve sede e, por causa do preço dessa sede, podemos beber a água viva que flui do Senhor. Vocês e eu somos aqueles que recebem essa mesma vida.
Mas há uma coisa que devemos lembrar claramente: Jesus Cristo tomou minha vida e teve sede em meu lugar. Portanto, não tenham mais sede por causa de sua frustração e seu fracasso. Essa é uma sede que o Senhor já tomou. A nós, que estamos no meio de uma vida manchada pelo pecado, uma realidade sufocante e o desespero pelo fracasso, o Senhor concede água viva. As palavras: “tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”, são uma proclamação de vida dada a nós hoje. Meu coração se enche cada vez que medito neste versículo. Porque espero de verdade a jornada do Evangelho que examinaremos a partir da próxima vez.
O que é essa água, e o que é essa água viva? Para onde se dirige o amor de Jesus Cristo — que carregou pessoalmente a sede enquanto dizia “Dá-me de beber”? Que tipo de pessoas somos nós que desfrutamos das coisas no Senhor? As respostas a estas perguntas se desdobrarão uma a uma através da conversa entre a mulher samaritana e Jesus. Quando voltarem a enfrentar a Palavra do Senhor na próxima semana, não escondam sua vida ferida, mas tragam-na tal como ela é, como se a estivessem colocando para secar ao sol. Não empacotem seu coração ressequido e agrietado, mas coloquem-no diante do Senhor. Encontremo-nos novamente com um coração fervoroso, dizendo: “Eu também me tornarei a mulher de Sicar e provarei a água viva de Jesus Cristo; eu também saberei o que é a Sua água viva”. Hoje o Senhor lhes diz: “Dá-me de beber”. Espero que este chamado se torne sua meditação profunda da semana.
Oremos
Senhor, que nos estabeleces, nos sustentas e nos amas, hoje nos fazes olhar profundamente para dentro de nós mesmos. Somos ricos que se conformam com coisas diferentes do Senhor, ou somos pobres de espírito que anseiam apenas pelo Senhor? Coloquemo-nos diante do imenso desafio do Senhor. Se estivermos plenamente satisfeitos com as coisas do mundo, nunca seremos pobres de espírito. Senhor, faze-nos pobres de espírito e deixa-nos enfrentar nosso verdadeiro eu. Quando o Senhor pedir água, confessemos: “Senhor, não tenho água para saciar minha sede. Concede-me apenas a água viva de Jesus Cristo e tira a minha sede”. Que esta confissão se torne realidade e poder em nossas vidas.
Oramos no nome de Jesus Cristo, nossa água viva eterna. Amém.
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