João 3:1–8
“Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele. A isto respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.” Amém.
A Elite de Israel que Buscou a Luz na Escuridão
Através das palavras de João 3:1–8, propomo-nos a examinar este texto centrando-nos na figura de Nicodemos, dando continuidade à nossa sessão anterior. Neste passo, Nicodemos depara-se com uma revelação verdadeiramente impactante. Foi a assombrosa declaração: “A menos que alguém nasça de novo, não pode ver o reino de Deus”. Examinar a quem estas palavras foram proclamadas carrega um significado profundo, pois Nicodemos não era, de modo algum, um indivíduo comum.
Mesmo sob uma perspectiva contemporânea, ele possuía as melhores qualificações. Para usar uma analogia acadêmica, ele era como um estudante que nunca perdia o primeiro lugar, servia como líder de todas as organizações estudantis e gozava da profunda confiança e afeto tanto de professores quanto de colegas. No entanto, é como se esse estudante modelo fosse subitamente rejeitado pelo conselho docente e informado de que não poderia mais participar de nenhum evento oficial da universidade. É uma situação difícil de compreender para qualquer pessoa. Como pôde algo assim acontecer a alguém como Nicodemos? Desde o momento de sua aparição, Nicodemos emerge da escuridão. Ao assinalar que ele buscou o Senhor no profundo da noite, o apóstolo João insinua, sutil mas claramente, que ele era, essencialmente, um homem pertencente às trevas.
Acompanhando a trajetória de Nicodemos até o fim, mesmo em João 19, a Escritura acrescenta intencionalmente a descrição: “aquele que dantes viera ter com Jesus de noite”. Isso ocorre porque o fato de ele ter vindo de noite carrega profundas implicações espirituais. Ele era certamente um homem da escuridão; contudo, isto é tanto mais paradoxal porque, aos olhos do mundo, ele não era o tipo de pessoa que parecia destinada a permanecer nas sombras. Acima de tudo, Nicodemos era fariseu. Era um dos líderes religiosos mais respeitados de seu tempo e, simultaneamente, um dos principais entre os judeus. Provavelmente, havia menos de cem pessoas naquela época que ocupassem ambos os cargos ao mesmo tempo. Ele era a elite da elite, o primeiro entre os honrados. Rogo-lhes que não vejam isto como uma história alheia a vocês mesmos. Se até mesmo alguém tão aparentemente perfeito como Nicodemos pertence à escuridão, devemos refletir sobre onde nós mesmos estamos. Como mencionado na última vez, Nicodemos não era apenas um homem que acreditava em Deus com os lábios; era um daqueles que arriscavam a vida para seguir a Palavra de Deus.
Um Reino não Garantido por Experiência ou Status Religioso
Naquele tempo, ninguém se esforçava mais sinceramente para observar as Escrituras do que Nicodemos e os fariseus. Ele era verdadeiramente um homem de tal fervor. No entanto, a Escritura testifica que, ao contrário, ele “pertencia à escuridão”. Uma das razões principais pelas quais ele permanecia nas trevas era que acreditava porque via sinais. Crer pelos sinais significa perseguir os sinais em si; em termos modernos, não seria exagero dizer que ele estava “perseguindo experiências”. Naturalmente, as experiências são valiosas. Encontrar a cura após crer em Jesus Cristo ou receber respostas a orações desesperadas são grandes ativos para a fé de alguém. Contudo, o que percebemos através de Nicodemos — e, de fato, através da história dos israelitas — é que experimentar milagres e confessar a crença em Deus com os lábios não serve como garantia para entrar no Reino de Deus. Isso ocorre porque alguém pode experimentar milagres e continuar ignorando a verdadeira natureza de seu próprio pecado.
O mesmo princípio se aplica hoje em dia. Seja alguém pastor, presbítero, diácono, ou alguém que tenha frequentado a igreja por décadas como cristão de berço, ainda pode ser uma pessoa que não conhece a Deus em absoluto, independentemente dessas condições externas. Não apresenta a Escritura o solene exemplo de Judas Iscariotes? As experiências espirituais que Judas teve foram verdadeiramente notáveis. Ele próprio orou para curar os enfermos e expulsar demônios, realizando numerosos prodígios em nome de Jesus Cristo. Quando o Senhor enviou seus discípulos, Judas estava entre aqueles que manifestaram milagres e poder através do nome do Senhor. No entanto, ao fim, ele não logrou entrar no Reino de Deus; nem sequer pôde percebê-lo espiritualmente.
Portanto, mesmo as abundantes experiências que possuía Nicodemos, o fariseu, não serviam como evidência de que ele pudesse ver o Reino de Deus — embora possuísse a mais alta linhagem e status como judeu. Jamais devemos considerar levianamente o grupo dos fariseus ou o indivíduo Nicodemos. Ele era um homem que ansiava pelo Reino de Deus mais do que qualquer outro e, para esse propósito, observava estritamente a Lei e dedicava-se incansavelmente à autodisciplina. Praticava boas obras, dizimava honestamente e nunca cessava no jejum e na oração, alcançando o ápice da vida religiosa. Nicodemos, que tanto se esforçou por cumprir a Palavra de Deus, chegou inclusive a confessar corretamente a Jesus: “Sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus”. Ele possuía a doutrina e o pensamento corretos; detinha um conhecimento infalível. Contudo, o Senhor dirigiu-lhe palavras totalmente inesperadas.
Cidadãos Celestiais que Devem Superar a Justiça dos Fariseus
O Senhor falou com decisão: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Isso equivalia a assinalar: “Tu me confessas como alguém vindo de Deus e falas como se pertencesses ao Reino, mas, na verdade, ignoras por completo esse Reino”. Para Nicodemos, foi uma declaração que só poderia conduzir à consternação. Se foi assim para Nicodemos, que dizer de nós hoje? Através deste evento, a Escritura nos devolve a pergunta: “Olhe para Nicodemos. Compare sua vida religiosa e o que você crê com a dele. Pode você dizer realmente que é melhor que Nicodemos?”. A pergunta que o Senhor propôs a Nicodemos então, Ele a propõe a nós hoje: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. Como está o seu coração? Possui você uma justiça que supere a de Nicodemos?
Jesus continua suas palavras ao desconcertado Nicodemos, despertando-o de sua ignorância: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”. É igualmente difícil para nós aceitar estas palavras. Pode haver muitos que mantiveram uma vida de fé por muito tempo, crendo que nasceram de novo e orgulhando-se de servir bem ao Senhor. No entanto, devo perguntar mais uma vez: comparado a Nicodemos, há realmente algo superior em você? Pode você afirmar com confiança que sua justiça é verdadeiramente maior do que a rigorosa justiça que Nicodemos construiu?
As Perguntas de Nicodemos Aprisionadas na Razão e Experiência Humana
Na última vez, observamos que a essência do problema não residia no que Nicodemos fez ou em suas conquistas, mas em sua própria existência. O problema era o próprio Nicodemos. Nicodemos acreditava que, se pudesse desenvolver um pouco mais seu estado atual, compensar seus defeitos e observar a Palavra de Deus com um comportamento aprimorado, poderia seguir a Jesus Cristo ou entrar no Reino de Deus. No entanto, o Senhor declara firmemente: “Não, isso não é suficiente em absoluto. Deves nascer de novo”. Diante disso, a pergunta proposta por Nicodemos foi, sob sua perspectiva, uma conclusão perfeitamente natural. “Senhor, como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?”.
Frequentemente nos é fácil perguntar: ‘Como pôde o mestre de Israel, Nicodemos, fazer uma pergunta tão tola?’. Mas, tal como eu vejo, Nicodemos estava sendo sumamente coerente em sua lógica e, antes, representa nosso próprio ser interior honesto. Nicodemos aderia estritamente a uma única forma de pensar: ‘Posso ser insuficiente para entrar no Reino de Deus aos Teus olhos. Confesso que, embora tenha me esforçado por cumprir a Lei, ainda há uma deficiência. Se é assim, não seria possível se eu nascesse de novo desde o princípio, cumprisse a Lei, me disciplinasse mais profundamente e vivesse como uma pessoa qualificada? Portanto, há algum outro caminho além de entrar no ventre da mãe e sair de novo? Mas como posso eu, que sou velho, entrar de novo no ventre?’. Esta era sua súplica angustiada.
Aqueles Nascidos de Deus, Transcendendo a Linhagem e a Vontade da Carne
O que é, então, que o Senhor deseja verdadeiramente? Naquele momento, o interior de Nicodemos estava preenchido por uma única certeza: ‘Sou um judeu escolhido por Deus. Se não alguém como eu, quem poderia entrar no Reino de Deus?’. Amigos meus, qual creem ser a condição para entrar no Reino de Deus? É a linhagem judaica? É a frequência apaixonada à igreja ou a recitação impecável das Escrituras? Ou é uma vida moral de esforço na caridade e devoção ao próximo? A respeito de quem é apto para o Reino de Deus, o apóstolo João proclama claramente a resposta em João 1:13:
“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”
Rogo-lhes que gravem este versículo profundamente em seus corações. “Nascidos de Deus”; além disso, ninguém pode entrar no Reino de Deus. Como confessou Davi no Salmo 51: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe”, os seres humanos nascem essencialmente no pecado. Mesmo que alguém pudesse entrar no ventre materno e nascer de novo como hipotetizou Nicodemos, a realidade fundamental de ser um pecador concebido no pecado não mudaria. Ainda que nos arrependamos pessoalmente dos erros passados e resolvamos firmemente ‘viver para Deus de agora em diante’ para começar a vida de novo, não há esperança para nós. Isso ocorre porque continuamos sendo seres nascidos no pecado.
Portanto, o ‘novo nascimento’ de que fala a Bíblia não é uma questão de uma personalidade ligeiramente melhorada ou uma renovação de propósito para o Ano Novo, como costumamos pensar. Uma mera decisão voluntária de começar a vida com um coração novo nunca pode converter alguém em uma ‘nova pessoa’. O que é, então, o verdadeiro renascimento? O Senhor define o renascimento no versículo 5 do nosso texto: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. A resposta ficou clara. O renascimento não é entrar de novo no ventre, mas nascer da água e do Espírito. Parece uma resposta clara, mas a pergunta se aprofunda. O que significa, em nome de Deus, nascer da água e do Espírito?
Cuidado com o Misticismo Emocional: A Realidade do Renascimento
Quando entendemos mal o significado do renascimento e nos inclinamos para uma fé mística, frequentemente descartamos a obra do Espírito Santo como algo puramente sensorial. Como o Espírito é invisível, esperamos que chegue algum sentimento ou sensação misteriosa cada vez que oramos, clamando: “Espírito, vem; vem e toma o controle de mim”. Assim, alguns creem ter recebido o Espírito apenas quando se veem envolvidos por emoções ardentes, seus corações se comovem e têm uma experiência das chamadas ‘transformadoras’. Eu também fui assim no passado. Orava fervorosamente e me perguntava: ‘Por que outros reagem com tanta paixão enquanto eu estou tão tranquilo?’. Houve muitas vezes em que me agarrei a Deus, dizendo: “Senhor, hoje arrancarei até a raiz de uma árvore para receber esta graça por qualquer meio necessário”. Certamente, tive momentos em que meu coração se aqueceu tanto que não sabia o que fazer e, embora essas emoções não tenham durado muito, sem dúvida passei momentos de intensas experiências.
No entanto, isso não pode ser chamado de experiência essencial do renascimento, conforme testificam as Escrituras. O renascimento não consiste em utilizar fenômenos místicos para aquecer impessoalmente o coração humano. De fato, tais êxtases emocionais são possíveis mesmo sem religião. Olhem para os adolescentes reunidos no concerto de um cantor pop. Seus corações se comovem com uma única canção; derramam lágrimas ardentes e confessam um amor frenético pelo cantor. Isso não é, de modo algum, uma atuação; é uma emoção real que brota de seu ser interior. É famosa a anedota de quando Cliff Richard visitou a Coreia na década de 1960: até as estudantes universitárias, as intelectuais das mais altas instituições, mostraram um comportamento fora do senso comum em meio a uma agitação emocional extrema. Apenas porque o coração se aqueceu, não devemos supor erroneamente que seja a inspiração do Espírito Santo. Apenas porque meu coração se sente cheio de amor por Deus hoje, não posso concluir que esta seja a verdadeira realidade da fé.
A Vida que Transcende as Condições Físicas e os Rituais Religiosos
Nascer de novo do Espírito significa, como afirma o texto, ser ‘nascido da água e do Espírito’. Existiram vários pontos de vista sobre isto ao longo da história da igreja. O primeiro é o que vê esta ‘água’ como o ‘líquido amniótico’ experimentado durante o nascimento físico. Visto que todos os humanos emergem do ventre materno através da água, isto é visto como um contraste entre o nascimento físico e o nascimento espiritual através do Espírito. Embora o fato de nascermos através do líquido amniótico seja evidente por si mesmo, não se encaixa no contexto das palavras do Senhor. É improvável que o Senhor, que enfatiza o nascer “não do sangue, nem da vontade da carne, mas de Deus”, se referisse novamente ao ‘líquido amniótico’, um processo de nascimento físico. Portanto, a ‘água’ no texto não carrega uma conotação física.
Outro ponto de vista interpreta esta ‘água’ como o ‘batismo’. A lógica é que alguém deve receber o batismo em água seguido do batismo no Espírito para entrar no Reino de Deus. Embora isto pareça plausível, apresenta várias dificuldades. Primeiro, o apóstolo João, do capítulo 1 ao capítulo 3 de João, nunca substitui a menção do batismo pela expressão simbólica ‘água’. Consistentemente, usa o termo direto ‘batismo’. Se se referisse ao batismo, o Senhor teria dito claramente: “Recebei o batismo em água e o Espírito”.
O problema mais fundamental é que o rito religioso do batismo em si mesmo não pode garantir a salvação. A cerimônia do batismo realizada por um ministro em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo não se converte, por si só, no poder que nos conduz ao Reino de Deus. O batismo é simplesmente uma confissão externa e um sinal (Sign) de que aceitei Jesus Cristo como Salvador; o ritual em si não gera a eficácia da salvação. Nossa salvação não se encontra em nenhum outro lugar senão na cruz de Jesus Cristo. Ficar enterrado na forma de uma cerimônia batismal e crer que ela é a salvação em si é malcompreender a essência do Evangelho. Embora possa ser benéfico examinar o significado espiritual do batismo contido na ‘água’, há limites claros ao confiná-lo simplesmente ao rito propriamente dito.
O terceiro ponto de vista vê a água como a ‘Palavra de Deus’. Esta interpretação, de que a Palavra e o Espírito trabalham juntos para nos fazer renascer, é uma visão espiritualmente excelente e cheia de graça. O Espírito sempre trabalha junto à Palavra da verdade, e chegamos à fé pelo ouvir a Palavra. No entanto, isto também possui pontos de ligeiro desajuste quando se observa de perto o contexto detalhado da passagem. Falta uma razão clara pela qual o Senhor se desviaria de seu caminho para se referir metaforicamente à Palavra como ‘água’. Se sua intenção fosse mencionar a Palavra, tê-la-ia chamado ‘Palavra’ diretamente. Se é assim, devemos agora rastrear este significado a partir de uma direção ligeiramente diferente. Por favor, tomem nota de João 3:10.
A Obra da Água e do Espírito Revelada Através de Ezequiel
A chave para interpretar esta difícil passagem reside no versículo 10. Após falar sobre nascer de novo da água e do Espírito, Jesus pergunta a Nicodemos, por sua vez: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”. Aqui, a expressão ‘mestre em Israel’ inclui um artigo definido. Isso significa que Nicodemos não era apenas um dos muitos eruditos legais, mas ‘o mestre’ de maior renome naquele tempo. A tal homem, Jesus repreende: “Se és o grande mestre de Israel, não deverias conhecer já esta verdade?”. Isto implica que a ‘água e Espírito’ de que falou o Senhor não era um conceito estranho, mas um já enraizado no Antigo Testamento. Onde, então, está a passagem decisiva no Antigo Testamento onde a água e o Espírito aparecem juntos?
Observem as palavras de Ezequiel 36:25 e seguintes: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. Habitareis na terra que dei a vossos pais; vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus.”
Este passo de Ezequiel compartilha dois importantes pontos em comum com o ensino do Senhor em nosso texto. Primeiro, a ‘água’ e o ‘Espírito’ aparecem um ao lado do outro. Deus promete limpá-los com água pura e que seu Espírito habitaria dentro deles. Segundo, é a promessa a respeito do resultado. Assim como Jesus disse que nascer da água e do Espírito conduz a entrar no Reino de Deus, Ezequiel também proclama que, uma vez limpos e habitados pelo Espírito, habitarão para sempre na Terra Prometida, Canaã. Em última análise, a obra da água e do Espírito de que fala Jesus baseia-se na promessa de Ezequiel 36. Aqui, a água simboliza a ‘limpeza’. O que significa, então, especificamente ser limpo pela água? É certo que não se refere a uma mera lavagem externa. Para captar o verdadeiro significado desta ‘limpeza’, devemos recordar outra cena decisiva no Antigo Testamento que serve de pano de fundo para Ezequiel. Onde mais na história a água e o Espírito trabalham para abrir o caminho ao Reino de Deus?
O Princípio de Juízo e Salvação no Mar Vermelho e no Dilúvio de Noé
Essa cena decisiva é o evento do Mar Vermelho no Êxodo. Diante do Mar Vermelho, as águas dividiram-se e um forte vento soprou para criar um caminho; esse caminho tornou-se o único passo em direção à Terra Prometida, Canaã. A palavra que Ezequiel viu em sua visão está, na realidade, profundamente conectada com a história do Êxodo. Aqui, devemos notar como a ‘água’ nos limpa. A nação israelita alcançou a limpeza precisamente ao passar entre as águas divididas. Em 1 Coríntios 10, o apóstolo Paulo registra este evento, dizendo: “todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar”. Em outras palavras, o evento de cruzar o Mar Vermelho contém o significado de ‘batismo’, o rito de limpeza. Mas como pode o entrar no mar converter-se em um rito de limpeza? Sabemos bem o que ocorreu naquele mar. O exército egípcio que perseguia Israel afundou naquele mar e encontrou a morte. Para eles, aquele mar foi, de fato, o ‘mar da morte’.
A nação israelita também entrou no meio daquele mar de morte, mas saiu com vida através do caminho que Deus abriu. Para entender este princípio com clareza, recordem o evento do Arca de Noé de um ponto ainda mais inicial na história humana. Que papel desempenhou a água então? Foi uma ferramenta de juízo solene para varrer um mundo manchado pelo pecado. Todos os humanos encontraram a morte ao serem submersos naquela água. Somente após passar um juízo tão rigoroso, o mundo ficou finalmente limpo. A verdadeira limpeza vem apenas depois que o juízo de Deus precedeu. O fato de os israelitas entrarem na água do Mar Vermelho também significa que passaram sob o juízo de Deus. Não sair daquela água de juízo é a morte; contudo, aqueles que saem vivos pela graça de Deus são aqueles que foram limpos. Portanto, a ‘água’ de que se fala na Escritura simboliza primariamente a ‘morte’ e o ‘juízo de Deus’.
Em última análise, nascer da água e do Espírito carrega um profundo pano de fundo do Antigo Testamento, além dos ritos religiosos ou das experiências sensoriais que costumamos pensar. Dê um passo adiante. Onde mais aparecem simultaneamente a água, as trevas e o Espírito? É no relato da criação de Gênesis 1. Se Gênesis 1 foi o começo da primeira criação pertencente à carne, João 3 trata da nova criação pertencente ao Espírito. Coisas da carne eventualmente desvanecerão, mas a Escritura proclama que agora começou uma vida eterna do Espírito. Também aqui, a água significa morte. Tal como o Espírito se movia sobre a face das águas na criação para dividi-las, e tal como Deus dividiu as águas no Êxodo para abrir um caminho, a obra soberana de abrir um caminho de vida através do próprio centro do juízo mortal é a realidade de nascer de novo da água e do Espírito.
O Caminho de Juízo e Salvação Aberto por Deus
Enfrentamos agora uma pergunta fundamental. Se nascer da água e do Espírito significa passar através da morte e do juízo, quem de nós poderia possivelmente suportar e atravessar o peso dessa morte majestosa por suas próprias forças? Recordem o momento dramático em que os israelitas cruzaram o Mar Vermelho. Eles não dividiram o mar nem pavimentaram o caminho por si mesmos. Foi apenas que Deus mesmo abriu o caminho diante deles. Foi o mesmo durante o dilúvio de Noé. Não venceram o poder da água por nenhuma força humana; preservaram suas vidas em meio àquele juízo solene apenas porque permaneceram dentro da Arca da graça preparada por Deus. Assim, a verdade proclamada consistentemente em toda a Bíblia é clara: embora a água do juízo seja uma realidade que os humanos nunca podem evitar, o caminho que atravessa esse juízo em direção à vida não depende da decisão ou do esforço humano, mas unicamente da soberania de Deus.
Jesus Cristo, que esteve no Lugar da Morte por Nós
Portanto, estas palavras pronunciadas por Jesus a Nicodemos não são simplesmente um estímulo para ser mais zeloso religiosamente. São uma solene ‘declaração de substituição’: que alguém deve estar nesse lugar de juízo onde nós deveríamos morrer por direito. E esse ‘alguém’ é nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus entrando nas águas do Jordão para ser batizado não foi uma mera cerimônia religiosa. Foi uma prefiguração, demonstrada com todo o seu corpo, da morte que eventualmente suportaria na cruz. Na cruz, o Senhor sozinho carregou todo o juízo de Deus que nós deveríamos receber. Naquela água de morte onde nós deveríamos ter sido arrastados e ter morrido, Jesus entrou em nosso lugar.
Nicodemos esforçou-se por converter-se em um ser melhor mediante seu próprio esforço e disciplina, mas o Senhor falou com firmeza: não se trata de a existência melhorar ligeiramente, mas de morrer e nascer de novo. Da mesma forma, somente quando estamos unidos a Jesus Cristo, de modo que nossa pecaminosidade profundamente arraigada encontra sua morte, pode começar dentro de nós a vida nova dada pelo Espírito. Isto não é algo que possa ser alcançado através da linhagem humana ou da vontade individual; é puramente a graça total de Deus que desce do céu.
O Mistério da Vida Nova Desfrutada em União com Cristo
O renascimento proclamado pela Escritura não significa uma mera mudança temporal na emoção ou uma resolução de vontade determinada. É um evento misterioso de ‘união’, no qual eu morro com Jesus Cristo em sua morte e sou ressuscitado com Cristo em sua ressurreição. Esta é a verdadeira realidade de uma pessoa nascida do Espírito. Jesus comparou isto ao ‘vento’. O vento está além do controle humano; não se pode conhecer sua origem — de onde vem ou para onde vai —, mas o resultado, o balançar das folhas e a mudança das correntes de ar quando o vento sopra, é inegavelmente claro. Uma pessoa nascida do Espírito pode não ser capaz de explicar exatamente quando ou de que maneira renasceu, mas nunca pode permanecer no mesmo estado de antes.
Em última análise, o renascimento não é um resultado alcançado através do nosso conhecimento ou zelo religioso, mas uma obra realizada soberanamente por Deus. A única coisa que podemos fazer é nos encomendar humildemente perante a Palavra de Deus, tal como alguém escuta o som do vento. Quando deixamos de lado a justiça que nós mesmos construímos e buscamos fervorosamente apenas a misericórdia de Deus, o vento do Espírito começa finalmente a nos conduzir às profundidades do Reino de Deus.
Um Reino onde se Entra pela Vida de Jesus, não por Minha Própria Justiça
Ao fim, este mistério do renascimento culmina no Evangelho da Cruz. Nicodemos tentou entrar no Reino de Deus acumulando sua própria justiça, mas o Senhor diz que o único caminho não é o que nós construímos, mas o que o Senhor mesmo abriu. Queridos santos, o critério para entrar no Reino de Deus não reside no número de anos de frequência à igreja, na quantidade de serviço ou na presença de experiências místicas. O critério é apenas um: Eu morri realmente com Jesus, e fui ressuscitado para a vida com Jesus?
Temos realmente a confiança de viver mais justa e apaixonadamente do que Nicodemos? Se temos alguma esperança verdadeira, é apenas que meu eu chegue ao fim e Jesus Cristo sozinho se converta em minha vida. O renascimento começa nesse lugar desesperado onde reconheço minha própria morte. Oro fervorosamente em nome do Senhor para que esta maravilhosa graça — de ser lavado até a morte pela água e ressuscitado de novo pelo Espírito — se converta não em uma confissão que permaneça no reino das ideias, mas em uma realidade viva na vida de cada um de vocês hoje.
Oremos
Santo Pai Deus, hoje descobrimos a sombra de nosso próprio ser na figura de Nicodemos, que buscou o Senhor no meio da noite. Perdoa nossa tolice de sonhar com o Reino de Deus enquanto vestimos os velhos trapos de nosso próprio zelo e justiça.
Louvamos o grande amor de Jesus Cristo, que pessoalmente caminhou primeiro para as águas do juízo onde nós deveríamos ter sido arrastados e ter morrido por direito. Agora, concede que o ‘mistério do renascimento’ — onde eu morro e Cristo vive em mim — possa transcender a confissão ideológica e converter-se em uma realidade vívida nos campos de nossas vidas.
Desejamos encomendar as velas de nossas vidas ao vento do Espírito, que sopra onde quer, além do controle humano. Nesse lugar desesperado onde minha própria justiça se desmoronou, permite-nos viver como verdadeiros cidadãos do Céu que confessam que apenas a vida de Jesus é nossa única esperança.
Oramos em nome de Jesus Cristo, que é nossa vida eterna. Amém.
