Escritura: Gênesis 48:1–7

 

"Passado algum tempo, disseram a José: 'Seu pai está doente'. Então ele levou consigo seus dois filhos, Manassés e Efraim. Quando avisaram a Jacó: 'Seu filho José veio vê-lo', Israel reuniu suas forças e sentou-se na cama. Jacó disse a José: 'O Deus Todo-Poderoso apareceu-me em Luz, na terra de Canaã, e ali me abençoou, dizendo-me: "Eu o farei prolífero e o multiplicarei. Farei de você uma comunidade de povos e darei esta terra como propriedade perpétua aos seus descendentes". Agora, pois, os seus dois filhos que lhe nasceram no Egito, antes da minha vinda para cá, serão contados como meus; Efraim e Manassés serão meus, como são meus Rúben e Simeão. Os filhos que lhe nascerem depois deles serão seus; serão contados sob o nome de seus irmãos na terra que herdarem. Quando eu voltava de Padã, para minha tristeza Raquel morreu no caminho, na terra de Canaã, quando ainda faltava certa distância para chegar a Efrata. Eu a sepultei ali, ao lado do caminho de Efrata (que é Belém)'." Amém.

 

O Contexto e o Fluxo do Tempo

Na última semana de dezembro de 2024, compartilhamos as passagens finais de Gênesis 47. Desde então, dois meses se passaram. Às vezes, poucos meses podem tornar distantes as memórias de vários anos; por isso, gostaria de começar hoje refletindo brevemente sobre a palavra anterior para despertar nossa lembrança.

 

Gênesis 48 é um capítulo onde a história de Jacó se desenrola com José no centro. No entanto, os protagonistas práticos desta narrativa não são os filhos de Jacó, mas os dois filhos de José: Efraim e Manassés — os netos de Jacó. Assim como os mais velhos costumam ter o coração mais atraído pelas histórias de seus netos do que pelas de seus próprios filhos, a história desses netos forma o cerne do texto de hoje.

 

O cenário do encontro de Jacó com seus netos é o estado crítico de sua saúde debilitada. Aqueles que assistiam a Jacó chamaram José às pressas e, ao ouvir a notícia, José foi ao encontro de seu pai com seus dois filhos. Naquela época, Jacó teria cerca de 147 anos, aproximando-se do fim da vida, enquanto José tinha quase sessenta. Os dois filhos que o acompanhavam eram jovens adultos, com aproximadamente vinte e um e vinte e cinco anos.

 

Imaginem a cena: José, o filho nascido pouco antes de Benjamim, visitando seu pai idoso em seu leito de morte com dois netos. Este encontro entre um avô que enfrenta a morte e seus netos adultos é o início solene e pungente que a passagem de hoje nos apresenta.

 

Uma Vida de Aflição Relembrada Através da Promessa de Deus

No limiar de sua partida, Jacó subitamente começa a relembrar sua vida passada. Como um ancião que compartilha histórias de tempos idos, Jacó abre a boca, mas o conteúdo de sua confissão é extraordinário. Os versículos 3 e 7 de nosso texto contêm a revisão da vida de Jacó. O versículo 3 captura sua juventude, quando deixou Canaã rumo a Padã-Arã, e o versículo 7 relata seus anos de maturidade, quando partiu de lá para retornar a Canaã. Jacó situa toda a sua vida entre esses dois pontos e coloca a história de seus dois netos no centro. Em outras palavras, ele desenrola a história de seus netos sobre o pano de fundo de toda a sua existência.

 

Que tipo de histórias um avô costuma contar aos netos? Geralmente, pode-se vangloriar de como sobreviveu a tempestades ferozes ou relatar as grandes conquistas do passado. No entanto, o primeiro relato que Jacó traz é o evento em Betel. Ele menciona, acima de tudo, como o Deus Todo-Poderoso lhe apareceu e lhe deu uma promessa quando ele estava em um estado miserável, fugindo de seu irmão.

 

No versículo 7, ele continua com a história de seu retorno, e suas circunstâncias na época não eram muito diferentes. Ao voltar de Padã-Arã para Canaã, ele ainda era, essencialmente, um fugitivo. Ao confessar uma sequência de provações implacáveis — sendo um fugitivo tanto ao partir quanto ao voltar — ele revela serenamente a José e a seus netos a natureza árdua de sua jornada.

 

Em última análise, Jacó revela sem reservas que sua vida começou com sofrimento e foi marcada pela dor de perder sua esposa mais amada, Raquel, no caminho. Na verdade, ele tinha muitas memórias orgulhosas que poderia ter compartilhado. Poderia ter falado de sua reconciliação dramática com seu irmão Esaú, da grande riqueza que construiu ou dos inúmeros milagres que experimentou em cada encruzilhada. No entanto, Jacó escolheu compartilhar com seus amados netos a profunda angústia e os anos de privações que suportou.

 

Fé que Deixa uma Promessa Invisível como Herança

Normalmente, após refletir sobre uma vida cheia de dificuldades, o natural seria dizer: "Embora eu tenha vivido uma vida difícil, espero que vocês vivam desfrutando das bênçãos de Deus sem tanto sofrimento". Nós também costumamos contar aos nossos filhos as histórias de nossas lutas com a esperança de que eles tenham sucesso em um ambiente melhor. No entanto, a bênção de Jacó flui em uma direção completamente diferente das nossas expectativas. Ele apresenta a promessa de Deus que recebeu há muito tempo e ora para que essa promessa continue diretamente na vida de seus netos.

 

Há algo que devemos notar aqui. Naquele momento, havia algo entre as promessas de Deus que tivesse sido cumprido visivelmente? Objetivamente falando, não havia uma única sequer. Deus havia prometido claramente a terra de Canaã, mas Jacó não morreu como proprietário daquela terra. Quanto à promessa de multiplicar a descendência, embora tivessem formado uma família de setenta pessoas, ainda estavam longe de ser uma nação. Acima de tudo, Jacó e sua família estavam no Egito, uma terra estrangeira, e não na terra prometida de Canaã. Se fôssemos nós, poderíamos ter tido dificuldade em oferecer tal bênção por pura vergonha. Falar sobre querer que a promessa de Deus se cumpra quando não há uma realidade tangível para mostrar pode soar vazio.

 

A atitude de Jacó só é possível quando há uma certeza específica. É como ter a fé clara de que um pedaço de papel, que atualmente parece sem valor, é na verdade a escritura de um vasto e valioso terreno. É como dizer: "Este papel pode parecer insignificante aos seus olhos agora, mas é a escritura de uma terra na localização mais privilegiada. No futuro, terá um valor incalculável". Em outras palavras, Jacó declara que esta promessa que ele transmite aos netos — embora pareça humilde exteriormente — é a herança mais preciosa de sua vida, a qual não pode ser trocada por nada mais.

 

A Promessa de Deus: Mais Preciosa que o Tesouro Terreno

Jacó descobriu um valor incomparavelmente mais precioso do que as muitas dores e tristezas de sua vida, ou mesmo do que os pequenos sucessos e conquistas de uma perspectiva mundana. Ele desejava transmitir algo muito mais valioso do que qualquer posse material: o próprio Deus e a promessa que Ele deu. Esta não é apenas uma história que exalta a excelência de Jacó como indivíduo. A Escritura fornece uma interpretação clara de suas ações. Hebreus 11 registra: “Pela fé Jacó, à hora da morte, abençoou cada um dos filhos de José”. Isso atesta que a bênção de Jacó não foi apenas o último desejo de um avô, mas um ato espiritual enraizado profundamente na fé.

 

Isso significa que Jacó considerava a promessa de Deus muito mais preciosa do que todos os tesouros ou sucessos do mundo. Mesmo que a realidade fosse uma sucessão de fracassos e dificuldades, ele tinha certeza de que a promessa de Deus era uma grande vitória que sobrepujava todas as adversidades. Mesmo quando não parecia estar vencendo e não havia uma substância tangível em mãos, ele sabia que, por ser a promessa de Deus, ela era a maior força e poder. Ele confessou que a promessa definiria a identidade de seus descendentes e se tornaria o âmago de quem eles realmente são.

 

Em verdade, não podemos deixar de valorizar a realidade visível diante de nossos olhos. É da natureza humana sentir que os resultados que seguramos hoje são mais valiosos do que as esperanças de amanhã. Mas considere isto: e se houvesse em sua posse uma joia verdadeiramente preciosa cujo valor você ainda não tivesse compreendido? E se o valor dela fosse tão magnífico que você esperasse desesperadamente que seus descendentes se apegassem a essa promessa por gerações? Como na analogia mencionada anteriormente, se você tivesse a certeza de que uma horta de repolhos aparentemente negligenciada fosse, na verdade, a escritura de um terreno no centro da cidade mais movimentada, você poderia dizer com coragem aos seus filhos: embora pareça insignificante agora, seu valor se tornará inimaginavelmente grande no futuro.

 

A História da Salvação de Deus e o Início das Doze Tribos

Jacó agora exige audaciosamente de José: "Dê seus dois filhos para mim". Esta declaração sugere que, na história da redenção, a era de José chegou a uma espécie de conclusão. José foi chamado por Deus para preparar o caminho para que a família de Israel descesse ao Egito, se tornasse uma nação e, eventualmente, retornasse à terra prometida. Ele já havia cumprido fielmente essa missão e estava bem ciente de seu papel.

 

A partir deste ponto, a maneira como Deus trabalha continua através da história das doze tribos. Ao formar as duas tribos de Efraim e Manassés sob José, Israel torna-se praticamente treze tribos. No entanto, Deus reivindicou a tribo de Levi como "sua", separando-a inteiramente para a adoração. No final, doze tribos — excluindo Levi — herdaram a terra prometida. É também por isso que a Escritura trata José como o primogênito no lugar de Rúben. Através de seus dois filhos, José recebeu uma porção dupla da herança e, por meio disso, a história da salvação de Deus continuou a fluir.

 

Na terra do Egito, Deus iniciou uma nova história ao chamar Efraim e Manassés através de Jacó. Naquele momento, o ambiente de Jacó não importava para ele. Se ele estava em Canaã ou no Egito não era uma questão fundamental. Sua idade, ou o arrependimento de que poderia ter feito mais por seus descendentes se fosse mais jovem, não tinham peso. O quão frágil estava seu corpo, ou o quão dolorosos e turbulentos haviam sido seus anos passados, não eram questões para sua consideração.

 

Apenas uma coisa era importante para Jacó: transmitir o que havia de mais precioso em sua vida, um valor que não poderia ser trocado por nada no mundo. Isso era Deus e Sua promessa. Jacó confessou isso inteiramente pela fé. Através dele, percebemos profundamente o quão sincero Jacó era em relação à promessa de Deus e como ele confiava nessa promessa como a totalidade de sua vida. Qual o significado que a promessa que Deus lhe deu tem para você? Você vive lembrando que a promessa de Deus é verdadeiramente o propósito e o tudo de sua vida?

 

O Amor Imutável de Deus que nos Sustenta

"Eu estarei com você". Esta promessa que Deus nos deu é verdadeiramente tão preciosa quanto a própria vida para você e para mim? A promessa de que "estarei com você e farei todas as coisas cooperarem para o bem em sua vida" soa mais valiosa do que qualquer outra coisa no mundo? É a promessa que olha através da fé para ver que a boa vontade de Deus será perfeitamente cumprida no final, independentemente de nossas circunstâncias atuais. A Escritura atesta incessantemente que a promessa de Deus possui um valor absoluto para nós.

 

Por que vacilamos na vida? É porque nossas emoções, julgamentos, ambientes e diversas situações nos abalam constantemente. Inúmeras tempestades nos impedem de descansar em um lugar de paz, às vezes nos fazendo tremer de medo ou cair em profunda ansiedade. Não podemos estar inteiramente sem preocupações ou inquietações, nem podemos simplesmente dizer "está tudo bem" diante da realidade dolorosa. A vida é, de fato, árdua. Até Davi, um grande homem de fé, nem sempre cantou alegremente. Ele às vezes molhou seu leito com lágrimas e passou horas desesperadas clamando por vingança contra seus inimigos. No entanto, o que sustentou Davi até o fim, em meio àquela dor abaladora, foi a promessa de Deus de que o Senhor é o meu refúgio e que Ele se torna uma habitação eterna para aqueles que O buscam.

 

Portanto, percebemos hoje que a confissão de Jacó não é uma história confinada às fronteiras geográficas de Canaã. Esta é uma história sobre o Reino de Deus, a cidade eterna que nos sustentará para sempre. Ao colocar os dois filhos de José naquela posição, Deus anunciou o início de duas novas tribos e continuou Sua história eterna de salvação. No centro disso estão os nomes de Manassés e Efraim.

 

Manassés: Esquecendo o Egito e Alcançando a Herança Celestial

Quando José deu o nome ao seu primogênito em Gênesis 41, ele confessou seu significado: “Deus me fez esquecer todo o meu sofrimento e toda a casa de meu pai”. Este é o significado embutido no nome 'Manassés'. Através deste nome, José pensou ter finalmente lavado seu passado doloroso e o sofrimento em Canaã. Ele pretendia estabelecer-se na vida no Egito e iniciar um novo descanso.

 

No entanto, embora Manassés fosse filho de José nascido no Egito, Jacó pediu que ele lhe fosse entregue. Jacó adotou Manassés como seu próprio filho. Tornar-se filho de Jacó significa tornar-se um ser que entra na promessa de Deus dada a Jacó. Por causa disso, o significado do nome foi completamente renovado. Antes, significava que a dor de Canaã fora esquecida; agora, passava a significar: "Você não pertence mais ao Egito, então agora esqueça o Egito".

 

Esta é a cena onde o prelúdio do Êxodo é declarado. Jacó manteve o nome de Manassés, mas atraiu esse nome para o reino da promessa de Deus. Agora, Manassés não é aquele que 'esqueceu Canaã', mas sim aquele que 'esquece o Egito para que o Egito não o possua, e segue em direção à terra prometida de Canaã'. É uma declaração magnífica de que ele deixará de bom grado o conforto e as recompensas mundanas do Egito para tornar-se filho de Jacó e herdar o legado prometido.

 

Ele não é mais um escravo do Egito. Ele se tornou um homem livre de Deus seguindo para a terra prometida. Expresso em termos do Novo Testamento, isso se alinha com as palavras de Romanos: "Vocês não são mais escravos do pecado e do mundo, mas tornaram-se servos de Deus e da justiça". A Escritura chama o estado de ser servo de Deus de verdadeira 'liberdade', pois só em Deus é possível a liberdade real que o mundo não pode dar.

 

O Maravilhoso Privilégio e a Herança dos Filhos de Deus

A história de Jacó e Manassés não para na declaração de que "você não é mais escravo do pecado" ou "você não pertence mais ao Egito". Jacó vai um passo além e declara: "De agora em diante, você é meu filho". Para usar a expressão do Novo Testamento, esta é a graça da 'adoção'. Embora o único e verdadeiro Filho de Deus seja Jesus Cristo, Deus nos adotou como filhos e filhas através de Cristo. Tornamo-nos mais do que apenas aqueles que escaparam da condição de servos; tornamo-nos 'filhos' — membros da família de Deus.

 

Quão extraordinário é que você tenha se tornado um filho de Deus e possua esse maravilhoso privilégio. O nome mais nobre que Jesus desfrutou nesta terra foi 'o Filho de Deus'. No entanto, Deus concedeu esse mesmo nome precioso a nós também. Isso não significa que alcancemos a mesma autoridade ou poder divino de Jesus. Nada pode substituir Jesus Cristo. Significa, porém, que fomos convidados para o lugar da glória e santidade de Deus que Cristo desfrutou, e nos sentamos à mesma mesa para compartilhar plenamente do amor e da alegria de Deus.

 

Gálatas registra este mistério maravilhoso: “E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: ‘Aba, Pai’. Assim, você já não é escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro”.

 

O cerne desta mensagem é que, ao nos tornarmos filhos de Deus, não tomamos mais as coisas do Egito como nossa herança. Agora, somos aqueles que recebem as coisas do céu como nosso legado. No entanto, o ponto paradoxal é que, quando nos deparamos com uma verdade espiritual tão imensa, muitas vezes ficamos calmos e indiferentes demais.

 

Suponha que você chegasse em casa hoje e recebesse uma ligação dizendo que herdou centenas de milhões de um parente distante que nunca conheceu. No momento em que ouvisse a notícia, seu coração não dispararia e sua respiração não aceleraria? Você se perguntaria: "Será que isso é verdade?" e verificaria várias vezes, sobrecarregado pela notícia incrível.

 

O evento que aconteceu conosco é um mistério muito maior e mais maravilhoso do que esse. Você e eu nos tornamos filhos de Deus e recebemos Sua herança infinita. Não importa quanta propriedade possamos herdar neste mundo, mesmo que seja massiva, ela não pode sequer ser comparada à herança eterna que Deus dá. Deus não nos chamou de filhos apenas de nome. Ele nos concedeu a promessa e o direito claros: "Compartilharei tudo o que é meu com você". Ele permitiu toda a plenitude do Reino de Deus como sua herança.

 

Vivendo como Herdeiros que Conhecem o Amor de Deus

O ápice dessa herança é o próprio Deus. Deus promete: "Deixarei você desfrutar de Mim mesmo com você". 1 João 3 proclama este mistério: “Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus!”. Esta palavra nos exorta a meditar profundamente sobre este amor — quão grande foi o amor de Deus para que nos tornássemos Seus filhos, e o que esse status significa. A Escritura confirma: "E é o que somos!", e diz que a razão pela qual o mundo não nos reconhece é que ele não conhece a Deus. O mundo não pode entender quem somos ou o que desfrutaremos porque não pode dar nem conhecer tal graça.

 

Nosso maior lamento é que nosso conhecimento da herança que Deus dará é muito carente. Mesmo quando ouvimos quão maravilhoso é o seu valor, muitas vezes apenas sorrimos brandamente, como se fosse assunto de outra pessoa. Por outro lado, somos muito espertos em relação aos valores mundanos. Estamos acostumados a contar dinheiro e calcular o valor de posses, mas poucos sabem estimar o tesouro guardado no céu. Esta é a nossa tragédia. Somos perspicazes quando se trata de ganho mundano, mas quando ouvimos histórias celestiais, reagimos como se ouvíssemos uma língua estrangeira estranha. Isso ocorre porque somos muito ignorantes em relação ao valor eterno.

 

Quão lamentável é viver sem saber o quanto Deus o amou para torná-lo Seu filho, e o que significa o fato de Ele ter Se tornado nosso Pai. Mesmo um pai terreno, em meio à pobreza extrema, suportaria a fome e encheria o estômago com sal enquanto lutava para alimentar seu filho. Mas que tipo de pessoa é o nosso Deus? Deus é aquele que pessoalmente tragou a morte para salvar Seus filhos. Pais terrenos carregarão um filho doente nas costas e correrão quilômetros para salvá-lo. Nosso Deus é aquele que nos carrega nas costas por todo o caminho até o céu. Quando jazemos espiritualmente enfermos, esquecendo até quem somos, Deus é o Pai verdadeiro que insiste em nos carregar até o lugar da glória eterna.

 

Pais terrenos também confortam seus filhos dizendo: "Se estiver difícil, diga-me que está difícil; está tudo bem". O que eles reteriam pelo bem de seu filho? Deus é o mesmo. Ele diz: "Diga-me. Se doer, diga-me que dói; se estiver difícil, diga-me que está difícil", e Ele pessoalmente deu Seu corpo por nossa fraqueza. No entanto, sabemos que às vezes, mesmo os pais terrenos mais maravilhosos e fervorosos podem soltar a mão, incapazes de sustentar seu filho. O Salmista confessou: "Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá". Mas uma palavra de conforto mais profunda está em Isaías: “Pode uma mulher esquecer-se de seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa se esquecer, eu não me esquecerei de você!”. O mais nobre amor terreno pode vacilar, mas o amor de Deus nunca muda e nos sustenta até o fim.

 

Uma Vida Gloriosa: Tornando-se o Efraim de Deus

Este é o amor do Pai que foi derramado sobre nós e está sendo derramado até mesmo neste momento. Quão cansadas nossas vidas se tornam em meio ao trabalho exaustivo, ansiedades que pesam no coração e inúmeras situações que não saem como planejado? Caímos no desânimo porque tantas coisas estão além do nosso controle, e ficamos exaustos apenas com o fardo de viver o dia a dia. Naquele momento em que você se vira na cama preocupado e finalmente cai em um sono profundo, o único que o protege sem tosquenejar ou dormir é Deus, o Pai. Quem mais neste mundo o ama tanto e compartilha até mesmo sua dor mais profunda?

 

Percebemos agora que este Pai de amor é o nosso Deus, e nós somos o 'Manassés de Jacó' e o 'Manassés de Deus'. Somos agora pessoas que esqueceram o Egito e, ao mesmo tempo, pessoas que estão esquecendo o Egito. Somos herdeiros que conhecem o Reino de Deus em vez dos valores mundanos e que caminham pela estrada para compartilhar daquela glória santa.

 

Amigos, vocês estão vivendo vidas verdadeiramente gloriosas. O mundo pode não reconhecê-los, e pode não haver muitos que chamem o nome de vocês. Mas Deus chama pessoalmente o seu nome e se agrada de você. Deus diz: "Eu o valorizo tanto assim", e Ele caminha esta senda gloriosa com você. Como um pai poderia não valorizar o filho em sua mão? Deus está derramando o coração desse Pai inteiramente sobre nós.

 

O nome Efraim, chamado ao lado de Manassés, carrega o significado de 'duplamente frutífero' ou 'colheita abundante'. José confessou este nome, dizendo: “Deus me fez prosperar na terra onde tenho sofrido”. Para José, a 'terra onde sofrera' era o Egito, mas no momento em que este nome entrou na promessa de Jacó, seu significado expandiu-se espiritualmente. Agora, essa abundância significa uma prosperidade gloriosa que será alcançada não no Egito, mas na 'terra que Deus preparou'. Passou a significar a abundância eterna a ser desfrutada no Reino de Deus.

 

Somos todos aqueles que confessam que Deus é a nossa verdadeira herança. Estamos gradualmente percebendo que todos os nossos labores nesta terra não terminam aqui, mas estão sendo armazenados em direção à recompensa eterna que desfrutaremos em nosso lar celestial. Hoje, caminhamos o caminho da fé, ansiando por essa herança gloriosa.

 

A Cidade Eterna e Cristo, a Água da Vida

Estamos atualmente habitando em tal vida de promessa. O profeta Jeremias, que percebeu qual era a nossa verdadeira herança e o legado genuíno que receberíamos, confessou: “Digo a mim mesmo: A minha porção é o Senhor”. Abraão, o pai da fé, também sabia que somente Deus era o seu escudo e a sua grandíssima recompensa. Nossa herança é o próprio Deus. Jesus Cristo, que se entregou por nós, e o nosso crescimento à Sua semelhança, são o verdadeiro legado e a herança eterna de Deus que a Escritura testifica.

 

Esta verdade maravilhosa também é capturada na letra dos hinos que amamos cantar: "Tu és a minha porção eterna, mais do que amigo ou vida para mim". Porque Deus é a minha herança, seu valor deve ser mais precioso do que a vida. Nos hinos em inglês, isso é expresso de forma ainda mais clara como 'Minha posse eterna' (My everlasting possession). Deus torna-se o padrão de todo valor que define minha vida. Se alguém perguntasse qual é o valor da minha vida, eu responderia corajosamente que Deus é o padrão para tudo o que sou. Isso porque eu pertenço a Deus e sou Sua posse.

 

Enquanto vivemos nesta terra, existimos nesse status nobre. 1 João declara: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é. Embora o corpo glorioso que vestiremos ainda não tenha sido totalmente revelado, sabemos pela fé que, quando Cristo retornar, seremos transformados em uma semelhança gloriosa como a Dele. É verdadeiramente algo de tirar o fôlego que o dia de alcançar a medida completa da glória de Cristo nos aguarda.

 

É claro que vivemos com várias insatisfações em relação ao nosso eu atual. Eu sou o mesmo. Como pastor, pregador ou simplesmente como ser humano, muitas vezes sinto um sentimento de autorreproche, sentindo que não faço nada direito. Ainda sou carente, cometo erros e provavelmente cometerei falhas no futuro também.

 

Se alguém me perguntasse: "Por que você ainda está nesse lugar?", meu coração humano poderia ser ferido. No entanto, é nesses momentos que devemos lembrar a palavra de Deus: "Não, eu sou o filho precioso de Deus. Eu sou a filha linda de Deus". Mesmo que minha vida pareça amassada por fora, ela continua sendo uma obra de arte nas mãos de Deus; mesmo que pareça vacilar, é uma rocha firme eternamente sustentada por Deus. Mesmo que pareça uma vida que desaparecerá sem sentido, na realidade, é uma pessoa preciosa de Deus vivendo em meio a uma graça sem fim.

 

A Promessa do Sacramento e o Caminho do Herdeiro

Se a vida de nós, que somos chamados filhos de Deus, é verdadeiramente assim, quão magnífica e linda ela é. A Escritura testifica que esta é a nossa realidade. Portanto, não importa em qual situação estejamos, devemos nos apegar à esperança lembrando a imagem da vida completa que virá, conforme mostrada no Livro de Apocalipse.

 

De acordo com as palavras de Apocalipse, a vida que desfrutaremos eternamente no Reino de Deus é uma vida onde flui o rio da água da vida. A água da vida que flui do trono de Deus forma um rio e, junto ao rio, está a árvore da vida, que dá fruto todos os meses. Ali, comeremos do fruto da árvore da vida, beberemos da água da vida e viveremos para sempre. Isso simboliza a realidade espiritual que nos restaurará perfeitamente, suprirá constantemente novas forças e tornará eterna a alegria que desfrutamos com Deus. E a realidade dessa água da vida e desse pão da vida não é outro senão Jesus Cristo.

 

O importante é que não deixemos essa graça apenas como uma questão para o futuro distante. Sempre que somos convidados para a Ceia do Senhor, já estamos provando esse banquete de vida. À mesa do Sacramento, ao encarar o corpo e o sangue de Cristo, comemos e bebemos Jesus Cristo, que é a água eterna da vida e o pão do céu. Este é um ato sagrado de confessar que a vida abundante a ser desfrutada no reino eterno já começou aqui. Porque somente Jesus Cristo é o nosso verdadeiro alimento e força, somos resgatados de todo o mal através Dele e encontramos o verdadeiro sentido da vida em meio a qualquer provação.

 

Dessa forma, fomos chamados para uma vida que dá frutos abundantes. Agora, somos 'Manassés', esquecendo os confortos do Egito e indo em direção à terra prometida, e 'Efraim', desfrutando da abundância dada gratuitamente por Deus, em vez de frutos colhidos por nossa própria força — somos pessoas que iniciaram um Êxodo espiritual.

 

É claro que o deserto estará à espera nesse caminho. Haverá dias de dor em que clamaremos de sede, mas o Senhor abrirá a rocha e deixará a água viva jorrar. Como o maná que caía todas as manhãs, Cristo, nossa vida eterna, suprirá graça fresca sempre que precisarmos, e a mão do Senhor — Sua promessa de estar conosco para sempre — nos sustentará firmemente. Aqueles que confiam nessa promessa e anseiam por se aproximar do Senhor certamente trilharão esse caminho de vida.

 

Esse caminho não é, de modo algum, uma estrada plana. Como diz o livro de Romanos, porque o próprio Espírito testemunha que somos filhos de Deus, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. Portanto, para compartilharmos de Sua glória, devemos também compartilhar de Seus sofrimentos. Através deste caminho, somos purificados e completamos nossa santidade. Quando caminhamos silenciosamente por essa senda, a aparência de um verdadeiro filho de Deus, assemelhando-se a Jesus Cristo, será finalmente revelada de forma plena em nós.

 

Amados santos, não desviem mais o olhar para as coisas vãs do mundo. Não permaneçam em interesses egocêntricos como "como posso me tornar uma pessoa melhor" ou "como posso subir a uma posição mais elevada do que os outros". Não façam do propósito principal de sua vida o quanto mais vocês podem possuir e o quanto mais confortavelmente podem viver nesta terra.

 

Em vez disso, devemos confessar com ousadia: "Não sou o Manassés ou o Efraim do Egito, mas o Manassés de Deus e o Efraim de Deus". Mesmo que a realidade continue sendo uma sucessão de momentos difíceis e provadores, creiam que somente o Senhor é o verdadeiro sentido de sua vida. Não desistam desse caminho até que o caráter do Senhor dê frutos bonitos em vocês e caminhem em companhia Dele. Nossas deficiências e fraquezas são bem claras, mas espero que mais uma vez vocês tenham a certeza de que Cristo, que é forte o suficiente para cobrir todas essas faltas e muito mais, é o seu Senhor.

 

Vocês são as joias do céu, a glória de Deus e os protagonistas das doze portas celestiais. Lembrem-se de que o Senhor está chamando cada um de vocês por um nome tão nobre quanto as joias que adornam a cidade de Jerusalém. Espero sinceramente que vocês corram até o fim desse belo caminho da vida e dessa verdadeira senda da fé.

 

Oremos.

Gracioso Senhor, nós Te agradecemos. Já que recebemos tão grande graça de Ti, como poderíamos recusar este caminho sagrado? Se ainda estamos na tolice de não perceber quem somos ou qual herança recebemos, querido Senhor, permita-nos entender isso plenamente. Oramos fervorosamente para que não paremos no conhecimento meramente intelectual, mas que permaneçamos firmes sobre esse caminho da promessa.

 

Permita-nos aprender profundamente o que significa viver uma vida caminhando Contigo. Conceda-nos não um conhecimento vago de ver com os olhos e ouvir com os ouvidos, mas uma graça prática de caminhar com o Senhor em meio às realidades ferozes de nossas vidas. Ao percebermos o quanto de poder e força dá à minha vida saber que sou um herdeiro de Deus, permita-nos viver cada dia obtendo verdadeiro consolo, encorajamento e uma força nova e inabalável.

 

Em nome de Jesus Cristo, nossa herança eterna, oramos. Amém.

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