João 5:44-47

"Como vocês podem crer, se aceitam glória uns dos outros, mas não procuram a glória que vem do único Deus? Contudo, não pensem que eu os acusarei diante do Pai. Quem os acusa é Moisés, em quem estão as suas esperanças. Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito. Visto, porém, que não creem no que ele escreveu, como crerão no que eu digo?" Amém.

 

O trem real invisível e o nosso olhar

Todas as crianças adoram brinquedos, e eu não era exceção. Ainda me lembro vividamente de um pequeno minitrem que ficava atrás da vitrine de vidro de uma papelaria no meu bairro. Olhando para trás, era um brinquedo de plástico rude, mas para mim, naquela época, era um tesouro que eu desejava mais do que tudo. Todos os dias eu ia àquela loja, encostava o rosto no vidro e ficava olhando fixamente. Prometi a mim mesmo que um dia o compraria sem falta. Mas que dinheiro tem uma criança em idade pré-escolar? Tudo o que eu podia fazer era insistir com meus pais.

 

Nessa época, meu pai, que trabalhava no exterior, voltou para casa. Naquele tempo, era comum passar por Hong Kong no caminho de volta para a Coreia para comprar presentes. Sabendo o quanto eu falava de trens, meu pai me comprou um enorme "trem de brinquedo fabricado nos Estados Unidos". Quando fui ao aeroporto recebê-lo, ele disse gentilmente: "Comprei o trem que você tanto gosta", tentando corresponder ao meu entusiasmo.

 

No entanto, suas palavras não chegaram aos meus ouvidos. Durante todo o trajeto para casa, minha mente estava ocupada apenas pelo pequeno minitrem que estava atrás da vitrine da papelaria. No momento em que chegamos em casa, soltei a mão do meu pai e corri para a papelaria. Mais uma vez, encostei o rosto no vidro e fiquei olhando para aquele minitrem. Por mais que meu pai dissesse: "Isso é uma coisa minúscula; tenho um trem muito melhor bem aqui", de nada adiantava. Ele até tirou o grande trem de brinquedo da bolsa e me mostrou ali mesmo, mas eu nem olhei. Não tinha interesse em nada além de como conseguir aquele minitrem. Apesar de algo incomparavelmente melhor estar ao meu lado, meus olhos, já cativados por outra coisa, não conseguiam ver o que era verdadeiramente valioso.

 

O Evangelho não ouvido enquanto se busca a própria glória

Os judeus daquela época esperavam fervorosamente pelo Messias. Anelavam por um libertador que os resgatasse de sua dolorosa realidade. O Messias que desejavam era um vencedor político que virasse o mundo de cabeça para baixo e lhes entregasse glória, alegria e, finalmente, riqueza e poder. Então, apareceu um homem que afirmava ter visto a Deus e começou a realizar as obras de Deus. No entanto, as coisas que ele fazia estavam muito distantes do que os judeus queriam. Consequentemente, não ouviram as palavras do Messias que estava ali mesmo, diante de seus olhos.

 

A igreja de hoje encontra-se frequentemente em um estado semelhante. Nosso interesse costuma estar em outro lugar e não em Jesus mesmo. Colocamos nosso coração em como nos curar de doenças e como prosperar em todas as coisas. O que é verdadeiramente surpreendente é a facilidade com que nos deixamos seduzir pelo discurso doce de que "se você apenas fizer isso, todos os problemas serão resolvidos e tudo ficará bem". Mesmo hoje, as pessoas costumam entregar seus bens ganhos com tanto esforço em troca de tais promessas xamanistas.

 

Não parece estranho este fenômeno? A Bíblia diagnostica a razão pela qual caímos em tais delírios: "porque buscamos nossa própria glória". Jesus veio a esta terra e começou a realizar a obra santa confiada por Deus dentro do nosso ser interior. Ele nos concedeu a glória e o gozo celestiais, ensinando-nos o que significa viver como cidadãos do Reino de Deus. No entanto, temos pouco interesse nessa obra fundamental. Se você não colocar seu coração nas coisas celestiais, não apenas deixará de entender o Evangelho, mas nem sequer o ouvirá. Em tal estado, por mais que leia a Bíblia, a declaração do Senhor de que "Meu reino não é deste mundo" não chegará ao seu coração. Essas palavras simplesmente continuarão sendo ilegíveis.

 

O Evangelho da Prosperidade e Jesus como agente imobiliário

Mesmo lendo a Bíblia diariamente, só chamam a atenção versículos como: "Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai a tua alma". Mesmo ao aceitar essas palavras, as pessoas as interpretam egoisticamente na direção que desejam, pensando: "Já que minha alma prosperou e obteve a salvação, agora só restam as bênçãos de ganhar dinheiro e a prosperidade nos negócios". Isso ocorre porque o olhar delas está fixo apenas em sua própria glória e não na obra de Deus.

 

Como se pode dizer que alguém crê em Jesus no sentido verdadeiro em tal estado? Invocar o Seu nome sem saber com exatidão quem Ele é não pode ser chamado de uma fé de todo o coração. Como todo mundo está ocupado buscando sua própria glória, mesmo quando leem o famoso Sermão do Monte ou as Bem-aventuranças, acabam presos na estrutura de uma perspectiva orientada à prosperidade. Ao ler "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra", pensam: "Se eu crer em Jesus, Deus me dará bênçãos terrenas para que eu possa possuir bens imobiliários". Então, usando essa palavra como justificativa, compram terras. Curiosamente, às vezes o preço dessa terra sobe. Quando fazem uma fortuna ao se multiplicar o valor cinquenta ou cem vezes, inevitavelmente se prepara um lugar para o testemunho. Dizem: "Comprei terras confiando na palavra de Deus, e o Senhor me abençoou para dar fruto a cento por um, como diz a Bíblia". É verdadeiramente vergonhoso ver as pessoas contando sem pudor tais histórias, relegando instantaneamente Jesus à categoria de agente imobiliário.

 

A verdadeira bênção e o destino de nossas orações

Não somos pessoas que se apresentam diante do Senhor tendo recebido a terra visível de Canaã como promessa. Se a igreja começar a perseguir apenas esses valores seculares, nunca poderá ver a glória de Deus. Se não vermos a glória de Deus, não poderemos experimentar as inúmeras bênçãos verdadeiras que fluem dessa glória. E sem experimentar essas verdadeiras bênçãos, simplesmente não podemos suportar as diversas tentações e dores que o mundo lança sobre nós.

 

Quando ocasionalmente realizamos reuniões de oração e compartilhamos temas de oração, eles costumam ser dominados por temas semelhantes. O mais comum é, sem dúvida, "orações pelos filhos". Este é um tema verdadeiramente precioso e importante. No contexto da Coreia, as pessoas rezam fervorosamente pelos exames de admissão, pela delinquência juvenil ou por diversos problemas familiares. O que há de nobre nisso? Além disso, nos reunimos para rezar pela cura de doenças. Isso também é, certamente, uma boa obra.

 

No entanto, em todo o tempo que levo dirigindo reuniões de oração, nunca vi uma reunião sob o lema "Não amemos o dinheiro". Ainda não vi um tema de oração como "O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; portanto, arrependamo-nos". Não acredito que viria ninguém se eu convocasse uma reunião de oração com esse título. Quem viria para "não amar o dinheiro"? Quando a carne é fraca e os corações esperam secretamente uma chuva de dinheiro, quem agradeceria ouvir que o dinheiro é a "raiz de todos os males"? Se eu disser aos empresários que "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males", eles não replicariam imediatamente: "Pastor, o que o senhor quer que façamos? Está dizendo que não devemos ganhar dinheiro?"

 

É claro que o sentido não é deixar a atividade econômica ou o trabalho. No entanto, se examinarmos calmamente nossos temas de oração, podemos ver claramente onde residem nossos interesses. Não podemos negar o fato de que, em um sentido real, continuamos preferindo buscar nossa própria glória antes de buscar a glória de Deus.

 

A acusação de Moisés e a armadilha da Lei

O texto diz que os judeus "esperam em Moisés". O versículo 45 registra: "Não pensem que eu os acusarei diante do Pai; há um que os acusa: Moisés, em quem vocês confiam". Que os judeus esperem em Moisés significa que esperam na Lei. Confiam absolutamente na Lei registrada por Moisés e acreditam firmemente que cumprir a Lei é a sua salvação. Se os judeus viviam confiando tanto na Lei, como teriam sido suas vidas? Pensem nisso. O interesse deles era um só: "Quem consegue cumprir melhor a Lei dada por Deus?" Havia uma razão clara pela qual os fariseus se apresentavam diante do templo levantando as mãos para orar, jejuavam, dizimavam estritamente e oravam em voz alta com ações de graças. Queriam ostentar o quão bem cumpriam a Lei e os regulamentos, dizendo: "Sou mais diligente do que você". Em última análise, estavam envolvidos em uma batalha inútil sobre "quem é superior e quem é mais fiel à Lei".

 

Hoje em dia, há muitos que se veem presos nesse tipo de luta mesmo crendo em Jesus. Confessam com seus lábios que creem no nome de Jesus, mas por dentro estão submersos em comparações como "quem reza mais?", "quem serve melhor?" ou "eu trabalho tanto, por que você não?". Alguns, de uma maneira aparentemente mais sofisticada, julgam os outros com superioridade moral, dizendo: "Eu vivo de forma mais reta e honesta; por que você mente?". Essa atitude não é, em última análise, diferente de cair na armadilha da Lei. Pode parecer piedosa por fora, mas encerra um grave problema fundamental. Porque em todos esses casos, não estamos diante de Deus, mas diante das pessoas. Pensar "estou cumprindo a Lei melhor do que essa pessoa" é prova de que se é consciente do olhar humano. Por mais que tentemos negar, no fundo do nosso coração reside o desejo de receber mais elogios e fama das pessoas. Todos temos um coração que quer ouvir a avaliação: "Aquela pessoa tem uma fé tão boa e vive tão retamente".

 

A inutilidade da própria justiça através da comparação

Na Bíblia fica claramente registrado o quão insignificante é, na verdade, para nós cumprir a Lei um pouco melhor, viver um pouco mais limpo que os outros ou mentir menos. Gálatas 3:10 diz: "Pois todos os que dependem das obras da lei estão sob maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei". Quando o povo de Israel se gabava de ter cumprido a Lei, Paulo deu um golpe seco: "O que diz a Escritura? Não diz que se você quer cumprir a Lei, deve cumprir tudo em todos os momentos? Se não pode cumpri-la toda com perfeição, está igualmente sob maldição".

 

Em última análise, o fato de sermos ligeiramente melhores do que os outros não significa nada diante de Deus. Esta é a "Acusação de Moisés". Que Moisés acuse significa isto: "Você realmente se gaba de cumprir a Lei? Se é assim, cumpra esta Lei perfeitamente, sem faltar um único momento. Se não, não tenho outra escolha senão acusá-lo". Na vida, costumamos pensar: "Pelo menos não sou tão ruim". Consolamo-nos estabelecendo normas como: "Não digo que sou uma grande pessoa, mas não ajo como aquela pessoa. Embora digam que creem em Jesus, eu não ajo como aquele pastor, presbítero ou diácono. Pelo menos sei manter o básico". Reafirmamo-nos dizendo: "Pelo menos faço estas boas obras" ou "Pelo menos não cometo atos tão perversos". No entanto, a Bíblia adverte que tal atitude — o coração que tenta reivindicar sua própria justiça comparando-se com os outros — é o pecado mais terrível.

 

A ação de graças do fariseu e a contrição do publicano

Lembram-se da cena em que o fariseu e o coletor de impostos rezavam juntos? Esta famosa parábola registrada em Lucas 18 atravessa nosso estado atual de fé. "Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batia no peito, dizendo: Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador". Entre estas duas orações tão contrastadas, aquele que Jesus declarou justo foi, inesperadamente, o coletor de impostos.

 

Qual era o núcleo da oração do fariseu? Ele confessou: "Eu te agradeço porque não sou como este publicano". Ele fez da superioridade moral obtida ao se comparar com os outros o objeto de sua ação de graças. No entanto, o coração que se sente aliviado pensando "pelo menos não sou tão ruim" é a própria raiz do maior pecado contra o qual o Senhor adverte. Pensar "pelo menos estou melhor do que outros porque creio em Jesus, e sou uma pessoa bastante decente" é como uma toxina perigosa para um crente. O fato de que uma vida de serviço na igreja, de dar ofertas e de obedecer às exortações do pastor possa se tornar, em vez disso, uma ferramenta para construir a própria justiça diante de Deus, levando ao pecado fundamental, faz soar um profundo alarme para nossos pensamentos habituais.

 

O que devemos notar aqui é que o fariseu deu "graças" a Deus. Não se deixem enganar facilmente por modificadores como "graças a Deus" ou "dando glória a Deus". Usar com frequência essa linguagem religiosa não significa necessariamente que se tenha uma atitude fiel. O fariseu também era uma pessoa que sempre confessava agradecimento com seus lábios. O que importa é se essa confissão é realmente um meio para tomar a glória própria, ou se é uma realidade cheia da glória de Jesus Cristo. Somente quando o centro é reto, nossa ação de graças e nossa entrega de glória têm verdadeiramente valor.

 

O orgulho acusado pela Lei e os sepulcros caiados

Se permanecermos em uma atitude como a do fariseu, a Bíblia adverte solenemente que a Lei de Moisés nos acusará. Se você nutre um sentimento de mérito pensando "hoje não faltei ao culto", essa Lei o acusará. Se você se apresenta aqui com orgulho, pensando "tentei viver mais limpo do que os outros" ou "não cometi atos perversos como outros", a Lei de Deus revelará, em vez disso, seus pecados ocultos detalhadamente. Deste modo, o Evangelho declara uma história em um nível totalmente diferente dos valores seculares ou dos critérios de julgamento humanos. A mensagem da Escritura para o fariseu é clara: embora pareçam ter equipado perfeitamente a forma de piedade por fora, por dentro não há nada além de orgulho dizendo "sou superior aos outros". Diante da pergunta: "Por mais que você tente, pode alcançar a Minha santidade?", a única resposta que podemos dar é "Não".

 

Entre os que ouvem a palavra de graça e caem no autorreproche, há casos em que se sentem decepcionados, dizendo: "Sou uma pessoa que poderia fazer melhor, por que sou assim?". Se isso não for um verdadeiro lamento pelo pecado, mas um arrependimento derivado de uma "justiça própria" quebrada, a Lei voltará a nos acusar, dizendo: "Você realmente acredita que pode alcançar o bem por suas próprias forças?". Por isso, o Senhor utilizou a poderosa metáfora dos "sepulcros caiados" para com os fariseus. É um diagnóstico solene de que, enquanto o exterior pode estar belamente adornado para parecer um grande crente, o interior está cheio do cheiro de um cadáver em decomposição. Devemos ter cuidado para que, embora a vida religiosa exterior seja respeitável, o fedor do pecado possa continuar vibrando em nosso interior.

 

Haverá quem diga: "De forma alguma tento me exaltar comparando-me com os outros; simplesmente persigo puramente uma vida boa". Se essa confissão for verdadeira, é uma atitude muito preciosa, pois é prova de estar diante de Deus além dos olhos humanos.

 

Farrapos de justiça descobertos diante da santidade de Deus

A pessoa que persegue o verdadeiro bem acaba se apresentando honestamente diante de Deus. E no momento em que nos apresentamos diante do santo Criador, explodimos em uma confissão completamente diferente da anterior. Isso ocorre porque percebemos dolorosamente que todas as boas obras que realizamos e todos os nossos esforços para viver retamente não são vestes resplandecentes diante de Deus, mas como trapos sujos. Diante dessa santidade avassaladora, a justiça humana perde seu lugar. Somente então tomamos a oração do coletor de impostos, que batia no peito gritando "Tem misericórdia de mim", como nossa própria confissão.

 

Em Mateus 8, vemos uma cena em que Jesus, após terminar o Sermão do Monte, encontra-se com um centurião em Cafarnaum. "Senhor, meu servo está em casa paralítico, sofrendo terrivelmente. Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo. Respondeu o centurião: Senhor, não mereço receber-te debaixo do meu teto. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado". Jesus maravilhou-se com a confissão deste centurião gentio, que utilizou a ordem da organização militar como metáfora para confiar unicamente na autoridade do Senhor. E o elogiou dizendo: "Digo-lhes a verdade: não encontrei ninguém em Israel com tamanha fé". Confessar a própria indignidade e buscar apenas o poder da palavra do Senhor: essa é a essência da verdadeira fé que o Senhor busca.

 

A fé do centurião e a confissão de soberania

A história deste centurião é a mesma que frequentemente citamos como modelo de fé a ser imitado. Pensando "por que Jesus elogiou tanto este homem?", consideramos que sua convicção — "Senhor, não precisa vir à minha casa. Basta dizer a palavra e ele será curado" — é uma grande fé. Mas, se o tamanho da fé fosse simplesmente a intensidade da convicção, não seria possível uma fé maior? Não seria uma fé ainda maior dizer: "Senhor, não precisa nem falar. Apenas olhando de longe ele se curará", ou até mais além: "Senhor, nem precisa olhar. Só de pensar em mim uma vez o senhor curará completamente a doença"?

 

Frequentemente competimos pelo tamanho da fé dessa maneira. Utilizamos a paixão e a entrega com que cremos, ou a força da convicção que nutrimos, como medida da fé. Por causa disso, surge uma estranha competição mesmo na hora de distinguir a superioridade da fé. Quando alguém testemunha: "Fui curado após receber a oração", a pessoa ao lado responde: "Eu já acreditava que seria curado e me levantei, e já estava melhor". Então outro diz: "Fui para casa acreditando que já estava curado", e a última pessoa presume sua fé dizendo: "Já me recuperei totalmente, terminei de comer e me preparei para ir trabalhar". Quem deles tem verdadeiramente a fé mais íntegra? Aos olhos humanos, quanto mais se recua, mais forte e assombrosa parece ser a fé.

 

No entanto, a história do centurião não tem nada a ver com esse tipo de convicção ou paixão. Jesus não elogiou o centurião porque ele acreditava que já estava feito antes mesmo de Ele chegar. O núcleo da fé que o Senhor notou não foi o alarde de "serei curado mesmo que o senhor não venha", mas estava contido em sua seguinte confissão: "Pois eu também sou homem sujeito a autoridade e tenho soldados sob o meu comando. Digo a um: Vá, e ele vai; e a outro: Venha, e ele vem". A chave reside nestas palavras. Ou seja: "Senhor, eu sou o Teu soldado. Tu és o meu Comandante, então dá a ordem. Se disseres para a doença ser curada, ela será; mesmo que não seja, continuarei Seguindo a Tua vontade. Se disseres vai, eu vou; se disseres vem, eu venho; se disseres morre, eu morrerei. Não sou nada mais que um soldado que obedece às ordens do Senhor". Esta é a essência da "grande fé" de que falou Jesus. É saber claramente quem é o dono da vida e quem é o servo. Através desta confissão, o centurião mostrou como é uma vida que não busca sua própria glória, mas apenas a glória do Senhor. Conectando isso com o texto de hoje, ele não tentou tomar sua própria glória, mas apenas revelou a glória de Deus. Esta é a característica comum das pessoas que se descobriram diante de Deus. Ao fazê-lo, podemos rezar com contrição como o coletor de impostos e mostrar uma fé perfeita como a do centurião. "Senhor, desejo que não se faça minha glória nem minha vontade, mas que apenas se manifeste a glória de Jesus Cristo. Eu sou o Teu soldado, e Tu és o meu Comandante eterno".

 

O verdadeiro propósito da Lei e a glória de Cristo

Portanto, a Lei de Moisés não foi dada de forma alguma para que alguém tomasse sua própria glória. O texto atesta claramente que a Lei foi dada para nos fazer olhar para Jesus Cristo. O versículo 46 diz: "Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim". Isso aponta que eles não acreditavam de verdade. Segue com: "pois ele escreveu a meu respeito", mas eles não percebiam este fato. Não conseguiam ver a verdade de que as Escrituras apenas dão testemunho de Jesus Cristo.

 

Pensem mais uma vez no coletor de impostos e no centurião. Eles não buscavam sua própria glória. Ao contrário, confessaram amargamente o quão miseráveis e fracos eram diante de Deus. Não olharam para sua própria glória nem para a luz que eles mesmos produziam, mas apenas para a glória de Jesus Cristo, que é a Luz verdadeira. Como o princípio do Evangelio é tão claro e simples, há muitas vezes em que ele não chega ao mais profundo do nosso coração. Se eu lhes dissesse agora: "Vamos fazer uma oração fervorosa durante toda a noite a partir de hoje. Aproveitemos assim o amor e a graça de Deus", vocês poderiam arder em desejos de lutar, dizendo: "Sim, vamos resolver isso com a oração a partir de hoje. Vou passar várias noites no monte e receberei o Espírito Santo de qualquer maneira". Mas o que diz a Bíblia? Proclama: "Eu já te abençoei". A Bíblia sublinha que tudo já foi dado aos que conhecem plenamente a Deus e a Jesus Cristo, em vez de arrebatar algo gritando e buscando com o nosso zelo.

 

Quando buscamos a glória de Jesus, nos tornamos finalmente pessoas que creem na Lei em um sentido prático. A expressão "crer na Lei" pode soar estranha, mas significa confessar que alguém é apenas um soldado do Senhor, em vez de usar a Lei para a própria glória. Significa buscar apenas a glória do Senhor e olhar apenas para Jesus Cristo, o dono e cumpridor da Lei. Olhar para Ele é uma confissão de fé de que alguém confia inteiramente Nele para tudo.

 

Além da acusação da Lei e em direção ao seio de Cristo

Vocês se sentem atualmente orgulhosos do fato de estarem cumprindo a lei da consciência — que também é um tipo de lei — ou as disposições da Lei que conhecem à sua maneira? Desfrutam da paz pensando: "Pelo menos estou fazendo isso enquanto creio em Jesus", e secretamente se gabam disso em seu coração? Se for assim, saiam desse lugar imediatamente. É como uma ponte podre que pode desabar a qualquer momento. Devem se afastar rapidamente desse coração que acredita: "Estou seguro porque estou fazendo estas coisas". Pelo contrário, o correto é ir ao lugar onde, como o coletor de impostos, confessem: "A Lei que conheço está me matando. O sentimento de culpa da minha consciência me sufoca. Senhor, ajuda-me. Tem misericórdia de mim".

 

Quando Jesus se torna o meu Comandante, só então podemos suportar qualquer julgamento. Nesse momento, nem a Lei nem a consciência poderão jamais nos acusar. Porque habitamos no refúgio chamado Jesus Cristo, a Lei já não nos condena e a consciência já não nos acusa. A ganância que há em mim não pode me levar à destruição nem me derrubar. Haverá quem pergunte: "Isso significa que está tudo bem ser tão ganancioso quanto se queira?". De forma alguma. Pelo contrário, significa que o Espírito Santo atua em você para que já não se deixe levar pela ganância. O Espírito Santo nunca nos deixa sozinhos. Não há nenhum lugar na Bíblia, nem pode acontecer jamais na vida de um santo, onde Deus diga aos chamados como Seus filhos: "Agora que vocês estão salvos, vivam como quiserem", e os abandone.

 

Uma batalha sagrada formada pelo amor

Quando você vem diante de Deus, o Deus que sustenta sua vida nos fará lutar contra nossa própria ganância através do Espírito Santo. Ele nos faz odiar a aparência feia e todos os pecados que há em nós e nos faz lamentar por causa desses pecados. Assim, nos faz meditar profundamente no que é uma vida verdadeira diante de Deus e avançar com determinação. Passamos a odiar o pecado. Nosso coração se quebra ao ver o pecado. É porque sabemos que fere o coração do Deus que amamos. Como não queremos ferir o coração daquele a quem amamos, acabamos nos afastando do pecado. Mesmo quando surge a oportunidade de mentir, aguentamos mais uma vez. Não é porque quero ser moralmente superior aos outros, mas porque não quero ferir o Senhor que amo.

 

Por isso, nos esforçamos para viver honestamente. Mesmo quando tropeçamos e caímos e as coisas não saem como desejamos, voltamos diante de Deus e confessamos com lágrimas. "Deus, me ajoelhei de novo diante do Senhor porque sou muito fraco. Por favor, perdoa-me e tem misericórdia de mim. Deixa-me ouvir a voz do Espírito Santo que vem de dentro do meu coração e ajuda-me nesta fraqueza. Deixa-me lutar contra este pecado, e dá-me as forças para lutar contra este pecado mesmo que tenha que derramar sangue, não, até mesmo à custa da minha vida". Se tal luta espiritual não ocorresse em nós, seria uma imagem estranha demais para ser chamada de santo salvo. Seria permanecer em um lugar verdadeiramente lamentável, longe da vida de santo testemunhada pela Bíblia.

 

O único refúgio, a Cruz de Cristo

O que vocês mais temem na vida? O que realmente deveríamos temer não é perder um emprego, nem que a empresa à qual pertencemos quebre e desapareça. Perder a vida física por causa de uma doença incurável também não é o mais temível. O verdadeiramente aterrador e temível em nossas vidas é o fato de que um dia toda a minha vida deverá ser julgada diante de Deus. E se nesse momento você se apresentar diante desse tribunal apenas com suas próprias forças? Se você se apresentar diante de Deus confiando no mérito de ter seguido sua consciência a vida toda ou antepondo a Lei que cumpriu como os fariseus do texto de hoje. Deus não é de forma alguma alguém que transija e perdoe moderadamente, dizendo: "Sim, como ser humano, esse esforço é suficiente. De que outra forma você poderia ter feito tanto com essa natureza fraca?". É porque Deus nunca criou os humanos para serem tão incompletos e malvados originalmente. Deus criou os humanos verdadeiramente belos e bons, mas os humanos atraíram o pecado para si e mergulharam nele. Portanto, somos seres que não têm desculpa alguma diante do Deus santo.

 

No entanto, nesse mesmo momento de desespero, se você fugiu para Cristo, a história muda completamente. Bem-aventurado aquele que se ajoelha diante de Deus e suplica: "Tem misericórdia de mim. Tem misericórdia de mim, que não aguento o peso de todo este pecado. Deixa que o Espírito Santo mova meu coração e me sustente para que eu nunca rejeite a obra do Espírito Santo que acontece no meu interior". Se você lutou ferozmente contra o pecado a ponto de derramar sangue e lágrimas e se escondeu no seio de Cristo, agora sustente-se com audácia na cruz. "Senhor, olha para esta cruz. Não foi isso que o senhor fez por mim? Agora vivo confiando não no meu mérito, mas no poder do Senhor, e não na minha justiça, mas na justiça de Jesus Cristo. Já que estou aqui confiando apenas no que é do Senhor e não no que é meu, Senhor, aceita-me e tem misericórdia de mim".

 

A todos os que fugiram para Cristo desta maneira, pode-se dizer com certeza que nada pode prejudicá-los. Nem sua consciência, nem a ganância que surge constantemente, nem a tentação de Satanás que abala seu coração: nenhum poder poderá jamais abalar sua vida. É porque quem habita em Cristo tem a confiança de que todas as suas transgressões já foram perdoadas e que está seguro dentro desse amor.

 

A graça do perdão e a urgência do Evangelho

Vocês já pensaram profundamente no verdadeiro significado de "perdoar os pecados"? Quando confiamos em nós mesmos dentro dos limites de nossas vidas nos quais nada podemos fazer, não há forma de lavar esse pecado. Porque nós mesmos nunca poderemos resolver as inúmeras transgressões e fraquezas que acumulamos, nem essa sujeira interior. No entanto, a Bíblia proclama que Jesus Cristo lavou toda essa sujeira. Somente quem percebeu profundamente esta graça sabe o que é o verdadeiro perdão. Como conhecem o peso do perdão, podem finalmente perdoar seus próximos. Já não brandem a afiada Lei para ferir não apenas seus próprios corações, mas também os dos outros. Como sabem dolorosamente o quão fracos são e que estavam em uma situação em que não podiam evitar a ira de Deus, agora exortam fervorosamente os outros a fugirem juntos para o seio do Senhor.

 

No dia em que Deus julgar tudo no futuro, em que forma você se apresentará? Mesmo quando uma pessoa comum o julga, há muitos defeitos e você mesmo pensa que há muitos pontos vergonhosos; se o Deus justo o julgar, qual será o resultado? Não cairia sobre sua cabeça o julgamento de Deus? Portanto, não se atrase e fuja rapidamente para este refúgio. Vamos juntos rapidamente. A razão pela qual gritamos e chamamos alguém, tentamos trazê-lo de alguma forma e apelamos com lágrimas está justamente aqui. Não é porque você é melhor do que os outros, nem porque tem grandes conhecimentos. Só há uma coisa: há um julgamento inevitável no fim da vida e, de fato, mesmo neste momento, Deus está julgando o nosso centro. A razão pela qual evangelizamos é porque conhecemos este coração de Deus e para resgatar almas desse julgamento solene.

 

Os olhos de quem superou um treinamento infernal

Se os problemas da vida que vocês enfrentam agora parecem grandes demais, por favor, lembrem-se desta história. Se tivéssemos que escolher o lugar mais duro das forças armadas, sem dúvida seria o Corpo de Fuzileiros Navais (Marines). Entre as histórias heroicas que ouvi de veteranos, pode haver algumas partes exageradas, mas uma vez ouvi falar desta história de treinamento. Correndo sem parar pelos lamaçais, o soldado sentia que o coração ia explodir e que ia morrer, com o fôlego chegando à ponta da garganta. Quando não pôde dar mais um passo e desabou no ato, o instrutor aproximou-se correndo, cobriu-o de insultos e o colocou de pé. Segundo consta, ele sacou sua baioneta, jogou-a no chão e gritou: "Mate-me de uma vez e vá embora!". Quão difícil deve ter sido para ele até mesmo pedir que o matassem?

 

Mas vocês já viram os rostos dos soldados que terminaram esse treinamento infernal? Os olhos dos que acabam de sair após terminar o treinamento brilham com força. Seus corpos estão cheios de confiança e sente-se um espírito que parece capaz de tudo. É porque venceram uma dor parecida com a morte. Qual é o julgamento mais temível do mundo? Algo mais temível do que aquele julgamento em que caiu enxofre sobre Sodoma e Gomorra e todos pereceram: o julgamento eterno que merecemos por causa dos pecados que cometemos e do desespero. Mas se estamos em Jesus Cristo, que nos permite suportar e vencer suficientemente esse temível julgamento, então o que neste mundo não poderíamos suportar? Se é o coração de uma pessoa que cruzou a onda desse enorme julgamento, não deveria estar naturalmente cheio de confiança e alegria dadas pelo céu? O que se atreveria a abalá-lo? Vocês já são pessoas que voltaram vivas do limiar do julgamento mais infernal pela graça de Cristo.

 

Libertação total em Cristo Jesus

Portanto, amados, gravem esta grande declaração da Bíblia no profundo de seus corações: "Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte". Como não podia ser alcançado com nossa carne fraca e, portanto, a Lei havia falhado, o próprio Deus resolveu essa obra. Ou seja, Deus enviou seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e condenou o pecado em seu corpo. Agora, Ele trabalhou para que nós, que não caminhamos segundo a carne, mas segundo o Espírito, possamos alcançar plenamente toda a justiça que a Lei exige.

 

Deus chamou vocês para esta mesma obra. Somente este Senhor deve ser a força de vocês, e somente este Senhor deve ser a única satisfação. Não conhecemos nada mais precioso e bendito do que este mistério da salvação. Quem possui esta verdade não pode evitar endireitar os ombros, fazer com que seus olhos ganhem vida e que uma luz brilhante permaneça em seu rosto. Como não estar alegre? Todo o sofrimento pelo qual estou passando começa a parecer pequeno diante da graça do Senhor. Mesmo as tempestades do mundo que se lançavam sobre mim como para me engolir parecem meramente triviais comparadas ao fato de que o Senhor recebeu o julgamento que eu merecia e me abraçou neste assombroso seio de Cristo. As tribulações do mundo nunca poderão nos fazer nada. Minha dor, minha fraqueza e meu ministério estão agora em Cristo. O local de trabalho e o negócio de vocês também estão juntos em Cristo Jesus. O que há a temer então? Eu apenas louvo ao Senhor.

 

Oremos

Amado Senhor, louvamos a Tua glória e a Tua maravilha mais uma vez. Refletimos sobre como o Senhor nos salvou e de onde fomos resgatados. Para nós, que vagávamos sem perceber sequer o que era uma vida seguindo a Lei como escravos, Jesus Cristo se tornou um verdadeiro refúgio. Agradecemos de verdade por se tornar o Dono de nossas vidas e o nosso Comandante, e carregar em nosso lugar todas as nossas transgressões. O Senhor é o meu escudo e a minha fortaleza; diante do Senhor, que é o meu Comandante, minhas armas, minha armadura e até eu mesmo, tudo pertence a Ti. Minhas preocupações, os conflitos internos que experimento e as inúmeras dificuldades que enfrento aqui agora permanecem dentro de Jesus Cristo, nosso Comandante. Tornamo-nos inteiramente possessão do Senhor. Como o Senhor não nos guiaria pelo caminho mais excelente? Senhor, apenas Te damos graças e louvor.

 

 Oramos no nome de Jesus Cristo. Amém.

 

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