Escritura: Oseias 14:1–3
"Volte, ó Israel, para o Senhor, o seu Deus. Os seus pecados causaram a sua queda! Preparem o que vão dizer e voltem para o Senhor. Digam-lhe: 'Perdoa todos os nossos pecados e aceita-nos graciosamente, para que te ofereçamos o fruto dos nossos lábios. A Assíria não nos salvará; não montaremos em cavalos de guerra. Nunca mais diremos "Nossos deuses" àquilo que as nossas próprias mãos fizeram, pois em ti o órfão encontra misericórdia.'" Amém.
A Traição Inconsciente e o Amor não Correspondido de Deus
Todo o livro de Oseias ilumina de forma prática a relação entre Deus e nós através da narrativa de um casal: Gomer e Oseias. Ambos estavam unidos por uma aliança de entrega mútua; no entanto, este vínculo, que deveria ser inabalável, acabou por se fragmentar devido às nossas transgressões.
O ponto culminante da nossa traição não reside simplesmente na enumeração de pecados. A verdadeira gravidade do problema é que permanecemos completamente alheios à nossa condição, mesmo enquanto pecamos, beijamos ídolos e permitimos que o nosso coração se encha de orgulho desmedido. Por isso, Deus nos diz incessantemente: "Venha a Mim; olhe para Mim", sustentando uma história de salvação que se assemelha a um amor profundo e não correspondido.
Por que o Senhor nos insta repetidamente a voltar? Frequentemente acreditamos estar servindo-O com fervor, cumprindo diligentemente os nossos sacrifícios. De certo modo, orgulhamo-nos de nunca ter esquecido o Seu nome. Consequentemente, torna-se profundamente difícil reconhecermos a nossa verdadeira realidade e compreendermos para onde, exatamente, devemos retornar.
O Egocentrismo: O Indicador da Distância de Deus
O texto de Oseias revela hoje a nossa alienação de Deus e o fundamento sobre o qual Ele nos ordena "voltar". Como podemos discernir se nos afastamos Dele? A mensagem que atravessa todo o livro nos adverte que, quando colocamos o "eu" no centro de todas as coisas ou nos focamos exclusivamente em nós mesmos, estamos diante de um sinal de crise espiritual. Se o nosso olhar está fixo apenas em nós mesmos, devemos examinar solenemente a nossa fé e perguntar à nossa própria alma: "Estou me afastando de Deus?".
Afastar-se de Deus não significa apenas um rejeição explícita ao culto ou uma negação aberta do Seu nome. Não se limita a circunstâncias extremas de desprezo ou abandono total. Assim como o povo de Israel, nós também invocamos a Deus com os nossos lábios. Mas o que reside verdadeiramente no nosso centro? São as nossas posses, os nossos talentos ou os sucessos que desfrutamos? Ou seriam a nossa dor, os problemas que enfrentamos ou as nossas emoções que ocupam esse lugar central? A Escritura nos interroga sobre qual é a verdadeira preocupação e o eixo das nossas vidas.
Mesmo que o que esteja no centro seja uma ferida profunda, se o nosso coração está totalmente consumido por esse sofrimento em vez de por Deus, isso é evidência do nosso distanciamento. Embora tenhamos alcançado o sucesso e tudo tenha prosperado neste ano, se o nosso coração se dedica apenas a essas conquistas, estamos, na prática, distantes de Deus. O texto de hoje adverte que tal estado nos levará inevitavelmente a "tropeçar". Por que caímos, mesmo quando Deus está conosco?
Pobreza Espiritual e Desespero na Ausência de Deus
A razão pela qual permanecemos em uma situação precária, apesar da promessa de Deus de nos sustentar, é que sentimos que caminhamos este sendero sozinhos, tendo-O esquecido. Quando caminhamos ignorando o Senhor, caímos rapidamente no desespero diante da menor carência. Isso não se refere apenas à falta de bens materiais. Quando a alma começa a empobrecer, o nosso espírito murcha facilmente, mesmo por coisas menores como o esfriamento do fervor religioso, o cansaço no serviço ou o tédio ao ler as Escrituras. Ao secarem as raízes da fé, vacilamos sem remédio e nos afundamos no desespero quando chegam as provações. Este é o resultado inevitável de esquecer como estar satisfeito em Deus e tentar encontrar a satisfação em si mesmo. Quanto mais esquecemos o Senhor, mais nos afundamos no lamaçal da frustração.
Compreendo bem quão doloroso é levantar-se de novo sob a perspectiva de quem caiu. Aqueles que sofrem podem querer perguntar: "Pastor, tente cair o senhor mesmo. Sabe quão desolador é levantar-se sozinho, sem ninguém para ajudar?". Certamente, eu também tive tais experiências, e essas provações muitas vezes chegam sem aviso prévio. A dor agonizante de não ter sequer o ânimo para orar devido a uma crise econômica ou a uma enfermidade física é uma realidade inegável. No entanto, embora isso seja verdade, existe outra verdade à qual devemos nos apegar: somos atribulados de todos os lados, mas não esmagados; abatidos, mas não destruídos. Embora os nossos joelhos tremam e pareça que caímos, é uma verdade imutável que não nos rendemos na derrota.
No momento em que esquecemos isto — que Deus está ao nosso lado e conosco — as nossas vidas tornam-se desoladas. Mas lembrem-se: embora sopre uma tempestade feroz e tudo o que possuem pareça ser arrebatado, vocês continuam sendo herdeiros de Deus e possuidores da vida eterna de Cristo. Vocês não estiveram, nem por um só momento, fora do amor de Deus; são Seus filhos amados. Portanto, o profeta Oseias nos declara hoje com voz cheia de convicção: Voltem para o Senhor. Olhem apenas para Ele.
A Gloriosa Restauração do Relacionamento
Este chamado do Senhor não é simplesmente uma ordem para mudar de direção. Vai além de uma simples recomendação de deixar de viver para o mundo e ir para Deus. Se aprofundarmos no texto, vemos que é um convite urgente à intimidade. É um chamado não apenas para olhar para Deus de longe, mas para aproximar-se Dele. Não se trata apenas de dar a volta, mas de entrar no relacionamento mais profundo e íntimo com Ele.
Considerem a parábola do filho pródigo. Quando o filho decidiu voltar para casa, o pai não se limitou a ficar de pé esperando. Assim que viu o seu filho ao longe, correu em sua direção, beijou-o, abraçou-o, colocou um anel em seu dedo e celebrou um banquete. Submergir-se completamente em um relacionamento onde se compartilham esse gozo e deleite: esse é o verdadeiro significado de voltar para o Senhor. Mais do que um giro forçado da cabeça, Deus está nos concedendo esta gloriosa restauração do nosso relacionamento com Ele.
Chegamos agora à casa do Pai e vivemos dentro do Reino de Deus. Portanto, devemos confessar: "Senhor, agora governa sobre mim. Que o amor de Deus, e não os meus próprios desígnios, dirija a minha vida. Que o gozo de Deus, que se deleita em mim, seja o motor da minha existência, e que a fidelidade do Senhor, que me guia retamente, me governe".
Ao refletir sobre o ano de 2025, percebo através desta Palavra que não há fissuras na verdade de Deus. Mesmo enquanto preparava esta mensagem para a congregação, eu, como pastor, não pude escapar ao fio desta Palavra. Olhei para trás para ver o que estava realmente no centro da minha vida. Para ser honesto, pergunto-me se o meu ministério me governou mais do que Deus durante este último ano.
Não era que eu tivesse esquecido a Deus. No entanto, a responsabilidade do ministério às vezes me trazia gozo e outras vezes desespero. Eu reagia às situações ministeriais como se tudo dependesse delas. Ao analisar por que eu estava tão comovido e dolorido, ou o que me alegrava tanto, percebo que estava preso ao desempenho ministerial ou à qualidade dos meus sermões. Tive que me perguntar: "Era Deus realmente o meu tudo?".
Eu também me arrependo profundamente. Mesmo se me desesperasse, deveria tê-lo feito dentro do nome de Deus; mesmo se amasse, deveria tê-lo feito através do poder do Evangelho. Deus deve governar cada área da minha vida e, no entanto, falhei nisso. Poderia ter me adornado com retórica piedosa como "ministério" e "o Reino do Senhor", mas devo me perguntar se, na realidade, eu estava angustiado pelos resultados que eu queria, em vez de buscar a Deus. Compreendo profundamente que esta é a essência mesma daquilo de que devo me arrepender.
Preparar-se para Aproximar-se de Deus com Palavras
Nossas circunstâncias individuais e motivos de arrependimento podem diferir, mas como foi o seu ano passado? Ao longo de 2025, quem esteve realmente no centro da sua vida? O que governou as suas emoções e pensamentos, sacudindo a sua existência? Se esse centro tivesse sido apenas Deus, a Sua graça e o Evangelho, quão gozosas e abençoadas teriam sido as nossas vidas. Mas mesmo se falhamos, nunca é tarde demais para voltar. Podemos nos aproximar Dele novamente com esperança.
O profeta nos insta a voltar e clarifica o significado desse retorno. O versículo 2 diz: "Preparem o que vão dizer e voltem para o Senhor". Eu também pensei inicialmente que isso significava simplesmente voltar para a Palavra de Deus ou encontrar consolo através dela.
No entanto, um olhar mais profundo ao significado original revela uma perspectiva muito mais rica. Esta expressão significa que, se você deseja voltar para o Senhor, deve refletir cuidadosamente sobre quem você é, como viveu e qual é o seu estado atual, e então aproximar-se de Deus com essas confissões sinceras, preparadas com uma linguagem refinada. Em outras palavras, "preparar o que dizer" é uma exortação solene a apresentar-se diante do Senhor após ter refletido profundamente sobre a sua vida e ter clarificado honestamente o seu propósito.
Portanto, o contexto mostra que esta expressão é uma introdução às confissões específicas que seguem. A Escritura diz: "Preparem o que vão dizer... e digam-lhe". Isso sugere que devem seguir confissões de fé específicas, as quais o profeta Oseias nos pede para preparar. O profeta está solicitando encarecidamente: "Preparem estas confissões em seu coração e aproximem-se de Deus".
As Quatro Confissões do Arrependimento
Hoje, no último dia do ano, nos apresentamos diante de Deus. Ao considerar como aproximar-se do Senhor, Oseias apresenta quatro confissões específicas. A primeira é a súplica: "Perdoa todos os nossos pecados" (ou "Tira toda a iniquidade"). Esta confissão é um mistério que não pode ser compreendido plenamente à parte da graça da Cruz. Aqui, a palavra "todos" vai além de um sentido quantitativo para significar uma completude qualitativa. É uma confissão desesperada que diz: "Elimina completamente a minha injustiça e deixa-me estar justo diante de Deus unicamente através dos méritos do Senhor".
Quem se atreveria a apresentar-se justo diante de Deus por seus próprios meios? Ninguém tem o poder de estar retamente diante do Senhor por suas próprias forças. Esta justiça proclamada por Oseias está estreitamente ligada às palavras do capítulo precedente. Oseias 13:14 registra: "Eu os remirei do poder do sepulcro e os resgatarei da morte. Onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó sepulcro, a tua destruição?".
Estas palavras têm uma ressonância muito familiar para nós. O canto de vitória que Paulo proclamou em 1 Coríntios 15: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?", é uma citação deste mesmo texto de Oseias. Em última análise, ambos os textos cantam a mesma salvação. É a poderosa declaração de Deus: "Eu te remi e te livrei do poder da morte; portanto, a morte já não pode te subjugar".
Filhos que se Aproximam com Valentia pela Justiça de Cristo
Deus nos declara claramente: "Eu te remi e te salvei da morte; resgatei-te do pecado que conduz à morte e chamei-te justo. És justo diante de Mim, um ser precioso que compartilhará a eternidade Comigo". Este é o núcleo do que Oseias enfatiza. É a verdade que nunca devemos esquecer quando nos aproximamos de Deus.
Devemos estar diante do Senhor com esta convicção: "Senhor, apresento-me diante de Ti como alguém revestido da justiça de Cristo. Aproximo-me do Pai confiando apenas em Jesus Cristo; portanto, considera-me justo". Isso pode parecer uma petição audaz demais ou mesmo desavergonhada, mas a Escritura nos encoraja a aproximar-nos Dele exatamente desta maneira. É porque o Senhor já pagou o preço total por nós. O chamado do Senhor para "Vir a Mim" é uma promessa de que Ele tirará a nossa iniquidade. Devido ao fato de esta promessa ter sido cumprida perfeitamente através de Cristo, agora obtivemos justiça no Senhor.
Apesar da nossa confiança em Jesus, que venceu a morte, a voz de Satanás nos acusando continua implacável. Muitas vezes somos enganados por essas mentiras e vacilamos, ou nos reprochamos ao nos vermos estagnados sem progredir espiritualmente. A frágil realidade de perguntar: "Por que sou tão deficiente? Por que não consigo dar nem um passo à frente?", existe dentro de nós.
Satanás e o velho homem bloqueiam constantemente a nossa visão para evitar que vejamos a Deus, obrigando-nos a olhar apenas para o nosso patético "eu". Mas a Escritura nos ordena com firmeza: Olhe para Deus e descubra a si mesmo dentro da Sua graça. Além disso, diz-nos para olharmos para os nossos irmãos, irmãs e famílias dentro de Deus. Frente à morte, ao pecado e ao engano de Satanás — que buscam nos dividir e dispersar — devemos declarar: "Onde está o teu poder? Onde está o teu aguilhão? Olharemos apenas para Jesus e nunca esqueceremos a graça da Cruz".
2 Pedro 1:5–7 nos exorta: acrescentem à sua fé a virtude; à virtude, o conhecimento; ao conhecimento, o domínio próprio; ao domínio próprio, a perseverança; à perseverança, a piedade; à piedade, a fraternidade; e à fraternidade, o amor. Revestir-se continuamente do caráter do Senhor desta maneira deve ser a nossa verdadeira oração ao nos aproximarmos como justos diante do Senhor que tirou toda a nossa iniquidade: "Senhor, já que me chamaste justo, aproximo-me de Ti com valentia como uma pessoa justa".
O fato mesmo de você poder se ajoelhar e orar é evidência clara de que Deus já o reconheceu como Seu filho. Se não fosse um filho, quem se atreveria a chamar o Deus Criador de "Pai"? Embora às vezes pareçamos filhos insignificantes ou imaturos, continuamos sendo os amados filhos e filhas de Deus. "O que posso fazer? Sou Teu filho". Esta santa audácia nos foi concedida. Somos os orgulhosos filhos de Deus.
Aceita-nos Graciosamente: Nós, que somos o Deleite de Deus
Em segundo lugar, Oseias nos ensina a confessar: "Aceita-nos graciosamente" (ou "Recebe o que é bom"). Esta confissão contém dois significados profundos. Um é oferecer a nós mesmos como sacrifício: "Deus, por favor, aceita-nos". Vocês se lembram da bondade primordial quando Deus nos criou e disse: "Era muito bom"? Agora, através de Cristo, fomos restaurados como seres que são novamente bons aos olhos de Deus. Portanto, podemos confessar com valentia: "Senhor, por favor, aceita a nós, a quem chamaste bons".
O outro significado é a súplica para que Ele receba a nossa confissão, as nossas "palavras". Essencialmente, estes dois são um. Devido ao fato de a nossa iniquidade ter sido tirada e termos sido aceitos pela graça de Deus, finalmente abrimos os nossos lábios para confessar: "Sou um filho do Senhor. Somos o povo de Deus e o verdadeiro Israel". Esta é uma petição para que Deus aceite esta sincera confissão de fé como algo "bom".
Frequentemente nos aproximamos de Deus dizendo: "Senhor, sou um pecador que não pode apresentar-se diante de Ti", e baixamos a cabeça. Esta é certamente uma preciosa oração de autorreflexão. No entanto, se a nossa oração ficar apenas nesse lugar, não será ela fraca demais? Será que a emoção e a convicção da salvação secaram em nossas orações?
Vocês já ouviram alguma vez uma voz em uma oração comunitária declarando: "Senhor, já que tiraste todas as nossas iniquidades, agora nos apresentamos como justos diante de Ti. Recebe as coisas boas que Te deleitam"? É provável que seja muito raro. Alguém poderia se perguntar como nos atrevemos a oferecer tal oração dada a nossa condição. No entanto, o profeta Oseias nos exorta claramente a orar desta maneira. Que coisa boa há em nós, ou o que poderia satisfazer a Deus para tornar possível tal oração?
Se olharmos apenas para nós mesmos, não há nem uma única bondade que possamos apresentar a Deus. No entanto, o fato de podermos orar, de podermos nos aproximar no nome de Jesus e chamar a Deus de "Pai", é em si mesmo um milagre e uma graça maravilhosa. Desfrutamos desta imensa bênção, mas frequentemente não nos damos conta do seu valor. Esquecemos com demasiada facilidade quão glorioso é chamar a Deus de "Pai" e quanta alegria isso nos traz. Oseias nos insta a lembrar esta verdade: "Aceita-nos graciosamente". Esta é uma súplica para receber não a minha pessoa, mas o Cristo que vive em mim, e um grito desesperado mas glorioso para lembrar o mérito de Jesus que me cobre.
A Oferenda dos Lábios em vez de Novilhos: Um Espírito Quebrantado
A terceira expressão notável na oração de Oseias é a confissão "ofereceremos o fruto dos nossos lábios". Para explicar esta confissão, o profeta menciona o sistema de sacrifícios. Em vez de abater animais para oferecer sacrifícios tradicionais, declara que oferecerá o "fruto dos lábios" sobre o altar. De fato, este trecho é bastante difícil de interpretar e traduzir. A Bíblia em português costuma vertê-lo como "sacrifício de louvor dos nossos lábios" ou "oferta dos nossos lábios".
Se interpretarmos o significado original de maneira mais direta, torna-se: "Novilhos, ou seja, oferecemos os nossos lábios em paz (shalom)". Isso implica que não é o animal, mas os nossos "lábios" mesmos que se tornam a oferta de paz que nos vincula a Deus. Em outras palavras, é uma declaração radical de que os nossos lábios se tornam o sacrifício real que substitui os novilhos.
Este contexto é visto vividamente no Salmo 51. Através deste salmo, Davi canta a essência da adoração que frequentemente ignoramos: "Senhor, abre os meus lábios, e a minha boca proclamará o teu louvor. Não te deleitas em sacrifícios, senão eu os traria; não te agradas de holocaustos". Em seguida, Davi conclui com esta confissão: "Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás".
Aqui também a confissão dos lábios aparece como um sacrifício. Deus não busca novilhos externos nem holocaustos magníficos. Se esse fosse o propósito, Davi os teria oferecido com prazer. No entanto, o sacrifício que Deus busca verdadeiramente é o "espírito quebrantado" que flui através dos nossos lábios.
Não buscamos a Deus conduzindo manadas de gado ou rebanhos de ovelhas; antes, oferecemos a verdade do nosso ser através do canal dos nossos lábios. Os lábios são como uma porta pela qual fluem as verdadeiras intenções guardadas no profundo do coração. Se é assim, o que desejaria Deus receber exatamente quando o que está no nosso interior brota através dos nossos lábios?
Frequentemente pensamos que determinações resolutas como "Amo o Senhor" ou "Viverei de acordo com a vontade do Senhor" são os melhores sacrifícios para agradar a Deus. Certamente, Deus se deleita na confissão daquele cujo coração está cheio do Senhor. No entanto, o Salmo 51 e o livro de Oseias nos lembram que a essência do sacrifício chega a um lugar muito mais profundo do que os nossos pensamentos convencionais. Se os nossos lábios são o sacrifício, qual deve ser a realidade desse sacrifício?
O Lugar da Graça: Aproximar-se com um Espírito Quebrantado
O sacrifício que Deus busca verdadeiramente é um espírito quebrantado. Se Deus tivesse nos dito: "Demonstrem a sinceridade do seu amor por mim com uma confissão 100% perfeita, sem uma única mentira", como teríamos nos saído? Entre os que adoram aqui hoje, há alguém que possa afirmar com confiança que o centro do seu coração está dirigido apenas a Deus? Provavelmente nem uma única pessoa.
Mesmo enquanto eu, o que prega, proclamo esta Palavra, frequentemente sinto que, mesmo neste momento, o meu próprio "eu", a cobiça e a avareza não desapareceram completamente do meu interior profundo. O mesmo é provável para vocês, a congregação. Oferecer o centro dos nossos corações de maneira perfeita e exclusiva a Deus é quase impossível dada a natureza humana. Este é o retrato honesto e inegável do nosso ser interior.
No entanto, muito gratos, vemos que Deus não nos obriga a "trazer o que há de melhor" nem a "oferecer o que consideram mais limpo". O "espírito quebrantado" — o sacrifício que o Senhor deseja verdadeiramente — é um coração que, ao dar-se conta desesperadamente de quem sou, prostra-se dizendo: "Deus, estou cansado, fatigado, ferido, e venho a Ti tal como sou, incapaz de ajudar a mim mesmo".
Hermanos e hermanas, se isto não é graça, sobre que base poderíamos nos apresentar diante de Deus? O que poderíamos oferecer que satisfizesse e agradasse ao Deus Criador? O sacrifício no qual Deus se deleita é o espírito quebrantado em si mesmo. Deus valoriza imensamente esse coração que se volta para o Senhor e esse desejo fervoroso de estar diante Dele, mesmo em um estado miserável.
Uma Confissão Resoluta que Corta com os Ídolos do Mundo
A confissão final apresentada pelo profeta Oseias contém uma resolução verdadeiramente notável. O núcleo desta oração, que inverte todo o fluxo do livro de Oseias, é este: "Deus, a Assíria não nos salvará". Esta é uma admissão desesperada mas clara do fato de que o mundo nunca poderá nos salvar.
Orgulhamo-nos de conhecer bem esta verdade, mas será que a nossa vida é realmente coerente com ela? Na realidade, somos seres que anseiam viver confortavelmente rendendo algum tributo ao mundo e transigindo razoavelmente. Queremos nos apoiar em coisas que já foram domesticadas pelos caminhos do mundo em vez de nos apoiarmos em Deus, acreditando que essas coisas são o escudo protetor que nos manterá a salvo.
No entanto, a Escritura nos ordena dizer firmemente "Não". Ela nos adverte para não tentarmos desfrutar do conforto transigindo e rendendo tributo. Tal caminho de compromisso é, em última análise, o caminho para a morte espiritual. Embora viver mais ou menos em harmonia com o mundo possa parecer razoável, esse caminho detém a nossa respiração espiritual. É porque, sem percebermos, tornamo-nos escravos do mundo e entregamos a soberania da nossa vida aos valores mundanos. Portanto, devemos declarar constantemente que não é o poder mundano, como a Assíria, que nos salvará.
Seguindo a resolução de não confiar no mundo, o profeta confessa: "Não montaremos em cavalos". Aqui, o "cavalo" simboliza a força e a capacidade humana. É o reconhecimento de que nenhum talento ou recurso que possuamos pode nos salvar. Em vez disso, é uma confissão do desejo de usar tudo o que Deus nos deu de acordo com a Sua boa vontade. É um compromisso santo de usar todas essas coisas para o Reino do Senhor e para o gozo dos nossos irmãos e irmãs.
Olhando mais profundamente para esta confissão, vemos uma vontade poderosa de não confiar nas próprias posses. É uma declaração de que já não usaremos a força, o sucesso, a realização ou uma carreira brilhante como fundamento de nossas vidas. Isto inclui a nossa própria dor e feridas. Irmãos e irmãs, não confiem mais em suas feridas. Elas nunca poderão ser o seu salvador.
Não importa quão profundamente olhemos para o nosso sofrimento e dor, ali não há salvação. Frequentemente nos afundamos em nossa própria dor, mas a dor nunca pode ser o senhor de nossas vidas. Não importa quão dura seja uma provação, aferrando-se a vocês e negando-se a soltá-los, não devem entregar a ela a soberania da sua vida. Nem o sucesso nem a dor, nem nada neste mundo, está qualificado para nos salvar. Apenas Deus e o Seu Reino possuem a autoridade e a qualificação para nos governar.
"Nunca mais diremos 'Nossos deuses' àquilo que as nossas próprias mãos fizeram". Fazer um deus com as nossas próprias mãos é evidência da arrogância de tentarmos nos tornar nós mesmos o criador. A motivação fundamental para fabricar um ídolo é satisfazer a própria cobiça, e não é diferente de uma declaração de que eu me tornarei o deus que governa sobre todas as coisas. A idolatria é aterradora porque é a minha própria cobiça e o orgulho de tentar sentar no trono de Deus. Agora devemos cessar toda idolatria e prostrar-nos apenas diante de Deus.
Uma Vida onde Deus Mesmo é o Objetivo Final
Agora devemos confessar sinceramente diante do Senhor: "Senhor, aproximo-me de Ti tendo preparado todas estas confissões segundo o Teu chamado. Já não hesito devido aos meus pecados; aproximo-me pela graça do Senhor que me perdoou e me chamou de justo. Ofereço-me inteiramente ao Senhor, que não apenas me chamou de justo, mas olha para mim e se regozija grandemente. Senhor, cada momento da minha vida está unicamente em Tuas mãos".
Esta confissão e este retorno que oferecemos diante do Senhor, esta firme resolução e arrependimento de não voltar a caminhar nunca mais pela senda do pecado, não devem ser o destino final da nossa fé. A determinação de que "farei realmente bem a partir de agora" ou "serei mais fervoroso no novo ano" não pode ser o fim último das nossas vidas.
O objetivo que buscamos verdadeiramente não é o arrependimento que preparamos, nem é a confissão dos nossos lábios. O ato em si de dar-se conta de algo e oferecê-lo a Deus não pode ser a essência. O que deve permanecer ao final de nossas vidas, o propósito que verdadeiramente ansiamos e perseguimos, é Deus mesmo. Deleitar-se em Deus, e Deus mesmo, deve ser o único propósito de nossas vidas.
Durante este tempo, vivemos aferrados a inúmeros poderes e riquezas nos quais confiamos e dos quais nos orgulhamos, e dos quais às vezes nos desesperamos. Dentro dessas coisas também havia feridas profundas e dor. O profeta Oseias descreve o nosso estado como "ser como um órfão". É uma vida vivida usando o sofrimento e a dor como um cajado porque não havia outro lugar onde se apoiar. São os anos passados incapazes de soltar essas coisas, temendo que a esperança se desvanecesse sem elas. Devemos confessar que percorremos um caminho solitário, verdadeiramente como aqueles que não têm pai.
Sem saber em que confiar, eventualmente pusemos os nossos corações em coisas que se desvaneceriam e, ao final, tentamos aguentar agarrando-nos inclusive à nossa dor e feridas. De nós, o Senhor se aproxima. E Ele diz: "Tenho observado todos os seus espíritos quebrantados, e ainda os amo. Mesmo que sejam como uma chama que vacila, Eu me regozijo em que venham perante Mim com esse coração quebrantado". Porque essa é a nossa verdadeira aparência, e isso é exatamente o que o Senhor esteve esperando.
O Coração do Pai Deus para o Órfão que Recebe Misericórdia
O coração de Deus, que nota o meu espírito quebrantado, é um coração misericordioso que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que fumega. Quando Deus nos diz: "Olhe para Mim", o que Ele deseja verdadeiramente não é que alcancemos um arrependimento perfeito e nos mantenhamos erguidos com orgulho. Antes, deseja o coração que confessa: "Senhor, olha para mim. Continuo sendo apenas um espírito quebrantado, dolorido e cansado. Mas desejo apenas ir para o Senhor e olho apenas para o Senhor. Já que não tenho para onde ir senão para o Senhor que me ama, tem piedade de mim".
Portanto, amados santos, lembrem-se do Deus que tem misericórdia de nós e proclamem com valentia: "Morte, onde está o teu poder? Feridas minhas, onde está a sua vitória? Orgulho meu, onde está o teu aguilhão? Ira e ódio meus, onde está a sua vitória? Voltarei para o meu Pai Deus; a minha vitória é apenas Jesus Cristo, e dou graças por Ele".
Tendo proclamado a vitória desta maneira, o apóstolo Paulo conclui o final de 1 Coríntios 15 da seguinte maneira: "Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, inabaláveis. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil".
Realmente vocês trabalharam duro este ano que passou. Entre os nossos irmãos e irmãs há quem tenha passado o ano com o coração dolorido, e congregantes amados que passaram longas horas em leitos de hospital ou em uma dor indescritível. Alguns suportaram a tristeza de despedir-se de um ente querido antes do tempo, e outros passaram o ano agonizando sozinhos sem poder dizer a ninguém devido a crises econômicas repentinas. Foi um momento difícil para todos, e às vezes pôde ser um ano doloroso e difícil de suportar.
Amados irmãos e irmãs, o trabalho de vocês nunca será em vão. O Senhor lembra as lágrimas e a dor que derramaram sozinhos, os momentos em que resistiram enquanto apertavam o peito, e os instantes em que buscaram desesperadamente a Deus em seu leito de doente. As canções que cantarolaram interiormente quando não podiam louvar em voz alta, as lágrimas que encharcaram as páginas enquanto liam a Bíblia, e cada momento de oração oferecido a Deus em um sofrimento indescritível nunca são em vão.
Portanto, acudam perante o assombroso amor do Senhor com o seu espírito quebrantado tal como está. Apresentem-se diante do Senhor que permanece ao nosso lado, confessando: "Senhor, olha para nós". Espero fervorosamente que avancem com valentia hoje em direção a esse Senhor de graça, que não apaga o pavio que fumega e não quebra a cana rachada.
Oração
Senhor Santo, ao aproximarmo-nos humildemente de Ti, por favor, fica conosco com a Tua grande graça e amor. Desejamos fervorosamente que caminhes conosco e Te tornes pessoalmente o nosso tudo. Que a graça de Jesus Cristo, que entregou o Seu corpo e derramou o Seu sangue por nós, nos sustente por completo e guie as nossas vidas pessoalmente pelo bom caminho. Oramos no nome do nosso Salvador, Jesus Cristo. Amém.
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