A Palavra de Deus: Gênesis 26:34-27:4

Esaú, com quarenta anos de idade, tomou por mulher a Judite, filha de Beeri, o hitita, e a Basemate, filha de Elom, o hitita. Elas causaram grande tristeza a Isaque e a Rebeca. Quando Isaque já era velho, e os seus olhos haviam enfraquecido, de modo que não podia ver, chamou Esaú, seu filho mais velho, e lhe disse: ‘Meu filho!’ Ele respondeu: ‘Aqui estou’. Isaque continuou: ‘Estou velho e não sei o dia de minha morte. Agora, pegue as suas armas, o seu arco e a sua aljava, vá ao campo e cace para mim uma caça. Prepare-me uma comida saborosa, do jeito que eu gosto, e traga-a para eu comer, para que a minha alma o abençoe antes que eu morra’.” Amém.

 

O Medo de Isaque e a Companhia de Deus

Quando uma grande fome atingiu Canaã, Isaque estava a ponto de ir para o Egito, mas Deus lhe ordenou que ficasse em Canaã. Ele obedeceu, contudo, seu coração estava tão cheio de medo que ele chegou a mentir sobre sua esposa, dizendo que ela era sua irmã. Por fim, ele teve que deixar aquele lugar por causa de uma disputa por poços. Mesmo depois de se tornar muito rico, ele sofreu repetidamente a perda dos poços que cavava. Deus lhe mostrou: “Eu estou com você”, não apenas em seus momentos de prosperidade, mas também em momentos de perseguição, dor e tristeza.

 

A vida de Isaque não é simplesmente a história de um indivíduo que viveu em uma determinada época. Para entender seu profundo significado, devemos considerar a época em que Gênesis foi escrito. O público deste livro, registrado por Moisés, era o povo de Israel em sua jornada para fora do Egito. Portanto, Gênesis contém muitos elementos linguísticos que refletem a experiência do Êxodo. Os termos ‘caos’ e ‘escuridão’ que encontramos em Gênesis são, na verdade, palavras usadas para descrever o deserto. Através das histórias de Isaque e Abraão, encontramos lições destinadas aos israelitas que acabavam de ser libertados da escravidão.

 

O Significado Oculto nas Histórias sobre Comida

Para entender Gênesis corretamente, devemos ir além de buscar lições simples e abordá-lo da perspectiva do povo de Israel no Êxodo. Este livro foi claramente escrito como uma lição crucial para eles. Embora a Bíblia seja uma lição para todos nós, seus primeiros leitores foram o povo de Israel.

 

O texto menciona repetidamente poços e água, e em particular, as ‘histórias de comida’ aparecem continuamente como tema central. Isaque amava a comida saborosa feita da caça que Esaú trazia, a ponto de a Bíblia dizer que ele “amava” Esaú. Isaque chega a pedir a Esaú que prepare seu prato favorito. Os próprios problemas de Esaú começaram por causa de um ensopado de lentilhas que Jacó cozinhou. Sem uma compreensão mais profunda, essas narrativas podem parecer apenas histórias sobre comida. No entanto, na verdade, não são apenas histórias sobre as refeições da família de Isaque; são a linguagem do deserto, usada pelos israelitas durante sua jornada. Podemos ver que, através da vida de Isaque, Deus está enfatizando algo importante para os israelitas e para nós.

 

A Escolha Errada de Isaque e o Início de uma Crise

De acordo com o texto, quando Esaú se casou com mulheres cananeias do povo hitita aos quarenta anos, isso foi motivo de grande aflição para Isaque e Rebeca. Algum tempo depois, quando Jacó tinha cerca de 77 anos, a visão de Isaque começou a falhar. Como é comum com os idosos, ele deve ter pensado: ‘Eu não sou o que costumava ser; meu tempo está se aproximando’. Isaque tinha cerca de 140 anos neste ponto, mas ele continuaria a viver por mais 50 anos. No entanto, simplesmente por causa da sua visão fraca, ele assumiu que sua vida estava perto do fim.

 

Ele chama Esaú. A partir deste ponto, a história entra em uma ‘crise’, como sugere o título do sermão de hoje. Existem quatro personagens nesta narrativa, e nenhum deles é retratado como justo. Cada personagem é descrito como um pecador. Deus havia anteriormente assegurado ao temeroso Isaque: ‘Eu estarei com você’, libertando-o de suas ansiedades. Nesse ponto, Isaque deveria ter entendido todas as promessas e lições de Deus. No entanto, ele não o fez. O livro de Gênesis nos mostra que Deus continua a disciplinar Isaque ao longo do resto de sua vida, e a passagem de hoje é um desses casos. A primeira pessoa que consideraremos entre os quatro é Isaque, o patriarca da família. Ele é quem inicia toda essa provação.

 

O Julgamento Falho do Patriarca Isaque

O incidente em que Isaque chama Esaú é por si só sombrio e melancólico. Ele acredita que morrerá em breve, então suas palavras adquirem a natureza de um último testamento. Tipicamente, um testamento é declarado na frente de todos os filhos, como sabemos pelo caso de Jacó, que chamou todos os seus doze filhos para abençoá-los um por um. Esta é a prática comum para um testamento final.

 

No entanto, Isaque chama apenas Esaú. A partir disso, entendemos um fato muito importante: Isaque sentia a necessidade de realizar este assunto em segredo. Ele está agindo com uma convicção que talvez não compreendamos totalmente. O registro bíblico sugere que Isaque estava ciente dos eventos entre Jacó e Esaú — que Esaú vendeu sua primogenitura por um prato de ensopado, e que Deus havia prometido, enquanto os gêmeos ainda estavam no ventre de Rebeca, que ‘o mais velho servirá o mais novo’. Sabendo disso, Isaque não chamou Jacó. Ele também não chamou Rebeca, por causa da promessa de Deus. Isaque está pondo de lado a promessa de Deus e tentando dar a ‘Aliança de Abraão’ a Esaú.

 

A Bíblia deixa claro qual era o problema e como começou: Isaque amava Esaú. A Escritura revela a razão de seu amor da seguinte forma: “Isaque amava Esaú porque apreciava a caça que ele trazia para casa”. Como pôde um pai amar um filho mais do que o outro simplesmente pela comida que ele providenciava? Nós, sabendo que Esaú estava preparando esta refeição para receber uma bênção em troca, podemos ver isso como uma ação errada. No entanto, Isaque estava tão convencido e sério sobre este assunto que chamou Esaú enquanto excluía Jacó e Rebeca. Ele acreditava que a bênção pertencia a Esaú desde o início.

 

Isaque estava certo de que seu julgamento era claro e correto. Sua subsequente reação atordoada e chocada, ao perceber que Jacó havia roubado a bênção, prova isso. O plano de Isaque era dar tudo o que tinha a Esaú, e ele estava confiante de que daria certo. Embora ele possa ter tido alguns momentos de remorso, está claro que ele estava certo de que sua decisão era a correta.

 

O Julgamento Distorcido de Isaque e a Racionalização da Emoção

Vários fatores contribuíram para a escolha de Esaú por parte de Isaque. Primeiro, aos seus olhos, Jacó não era adequado para continuar a linhagem de Abraão e Isaque. Ele acreditava que o ativo e empreendedor Esaú era uma escolha melhor do que o quieto e introvertido Jacó. Segundo, ao contrário de Jacó, Esaú já tinha uma família. Uma vez que a promessa de Deus — de que seus descendentes seriam uma grande nação — exigia o casamento, Isaque estava convencido de que Esaú, tendo começado uma família, era mais adequado para cumprir a promessa de Deus. Ele pensava que sua decisão era racional e correta para o bem da família de Abraão.

 

No entanto, a Bíblia nos mostra que o julgamento de Isaque estava errado ao revelar seu ponto de partida. Esse ponto de partida era que Isaque gostava da comida de caça que Esaú trazia para casa. A Bíblia registra que o julgamento falho de Isaque começou com algo tão insignificante como a ‘comida’. Isso demonstra que nossas decisões supostamente racionais são frequentemente influenciadas muito mais por fatores emocionais. Também temos a tendência de racionalizar essas emoções reinterpretando e mudando as circunstâncias.

 

Se a comida fosse um fator tão crítico, Isaque poderia ter percebido que seu julgamento estava errado se tivesse pensado um pouco mais profundamente. Embora Esaú ocasionalmente trouxesse caça, era Jacó, que passava muito tempo na cozinha, quem preparava a maioria das refeições diárias de Isaque. Apesar de comer a comida de Jacó todos os dias, Isaque preferia Esaú por causa da comida que ele lhe trazia ocasionalmente.

 

Este é um problema de amor equivocado, que segue o medo equivocado que examinamos anteriormente. Isaque está sendo disciplinado por Deus por causa de seu amor. A Bíblia mostra claramente ao longo desta história que o amor de Isaque por Esaú começou com uma refeição simples e insignificante de caça. Não há disputa de que Esaú era um filho devoto que servia fielmente seu pai. Isaque estava satisfeito com Esaú. A ideia de que tudo isso foi decidido por causa da comida pode soar estranha, mas muitas de nossas escolhas na vida começam de maneira semelhante.

 

Perdendo Coisas Importantes por Assuntos Trivialis

Nós abrimos facilmente nosso coração a alguém que nos dirige uma palavra gentil quando nos conhecemos, e um comentário descuidado pode se tornar um espinho em nosso coração, impedindo-nos de avaliar essa pessoa objetivamente. Muitas vezes tomamos decisões erradas com base em informações pequenas e triviais. No entanto, nós nos convencemos de que nosso julgamento foi inteiramente racional. Embora um pequeno ato de bondade ou encorajamento seja importante, julgar uma pessoa ou situação inteira com base nisso pode levar a um grande fracasso. Às vezes, ficamos chateados com um incidente trivial ou uma única palavra, e esse ressentimento pode se transformar em ódio. Estas são coisas que acontecem frequentemente em nossas vidas.

 

A história bíblica mais famosa sobre isso é a parábola do filho pródigo. Quando o pai abraça alegremente seu filho que retorna e dá uma festa, o irmão mais velho, que estava trabalhando nos campos, reclama com seu pai: “'Olha! Todos estes anos eu servi a você e nunca desobedeci a sua ordem. No entanto, você nunca me deu nem um cabrito para que eu pudesse celebrar com meus amigos'”. Ele nem sequer considerou que seu irmão perdido havia retornado; em vez disso, ele estava ressentido por não ter recebido nem um pequeno cabrito, enquanto seu irmão era celebrado com um novilho gordo. Ele entendeu mal o coração de seu pai e fez um julgamento completamente errado com base no pequeno assunto de um cabrito.

 

O pai então diz ao filho mais velho: “'Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que eu tenho é seu'”. O filho mais velho falhou em entender o coração de seu pai e interpretou mal a situação por completo. Esses tipos de coisas não acontecem conosco? Você pode ter certeza de que o conhecimento que você tem, os eventos sobre os quais você ouviu ou até mesmo o que você testemunhou em primeira mão são realmente suficientes para fazer um julgamento correto sobre tudo? Esta é uma pergunta difícil. O irmão mais velho do filho pródigo já se sentia magoado e injustiçado, comparando-se com seu irmão e caindo em autocompaixão. Essa mentalidade o impedia de ver a verdade crucial do coração de seu pai. A Bíblia, através da história do irmão mais velho, destaca como perdemos de vista coisas importantes por causa do que parece trivial.

 

O Amor Equivocado de Isaque e sua Racionalização

Para Isaque, Esaú não era apenas um objeto de amor e uma existência especial, mas também um filho devoto. Isaque acreditava que Esaú era aquele que protegeria e faria prosperar a linhagem da família. Portanto, seus olhos viam Esaú, não Jacó. Ele pensava que Esaú exerceria uma liderança muito maior e era mais digno da promessa de Deus, já que ele já havia iniciado uma família. Por causa disso, as verdades importantes se tornaram invisíveis para ele, e ele pôde racionalizar tudo.

 

Um desses fatos foi a imprudência de Esaú ao vender sua primogenitura por um prato de ensopado. Mas Isaque não via isso dessa forma. Em vez disso, ele estava com raiva de Jacó por ter enganado seu irmão para tomar a primogenitura. Isso é precisamente a racionalização. Em vez de repreender Esaú por vender imprudentemente sua primogenitura, Isaque começou a culpar Jacó por seu comportamento traiçoeiro. Esse tipo de pensamento é a tolice que nos impede de ver os fatos corretos. Nós podemos pensar que somos muito racionais e equilibrados, mas na realidade, não somos.

 

Voltando à história de Isaque, ele não impediu que Esaú se casasse com uma mulher cananeia, o que Deus havia proibido. Não há dúvida de que Esaú conhecia a famosa história de como Isaque havia enviado um servo para muito longe para encontrar uma esposa para ele, no entanto, ele tomou mulheres cananeias como esposas. Ele falhou em cumprir seu dever como primogênito e herdeiro. Mas Isaque racionalizou até mesmo este fato. 'Finalmente, os descendentes da promessa de Deus poderão nascer através de Esaú'. Como Jacó ainda não havia se casado, aos olhos de Isaque, era evidente que os descendentes da promessa de Deus viriam através de Esaú. Esta lógica lhe permitiu ignorar todos os fatos anteriores. É por isso que Isaque chamou Esaú para abençoá-lo. Embora seu amor fosse equivocado, ele amava Esaú porque este o agradava e era seu filho favorito. Este amor fez com que tudo se tornasse compreensível e perdoável. Até mesmo a clara palavra de Deus, 'o mais velho servirá o mais novo', não pôde abalar a convicção de Isaque.

 

O Conflito Entre a Lógica e a Emoção

A gravidade desta situação é facilmente vista nos acontecimentos cotidianos ao nosso redor. Em muitos casos, quando precisamos perdoar alguém que nos prejudicou, logicamente faz sentido. Todos podemos concordar que, uma vez que Deus perdoou nossos grandes pecados, é justo que perdoemos os pecados de nosso próximo. No entanto, muitas vezes achamos difícil fazê-lo. Por que essa lógica não se aplica facilmente a nós? Porque nossas emoções não se rendem facilmente. É claro que somos movidos muito mais por nossas emoções. Isso mesmo aconteceu com os israelitas no Êxodo, e não é um assunto alheio ao deserto, como podemos facilmente descobrir nas Escrituras.

 

Portanto, a mentalidade de Isaque, como revelado no trecho de hoje, é a seguinte: Primeiro, ele não estava ciente do ponto de partida fundamental que governava seu coração. Ele pensava que estava certo, mas na realidade, seu favoritismo por Esaú, que se originou do seu amor por comida, estava dificultando que ele pensasse corretamente. E a certeza de Isaque sobre sua decisão errada é encontrada no versículo 4. Ele diz: “para que minha alma o abençoe”. A palavra hebraica para ‘alma’ é nephesh, que pode ser traduzida literalmente como ‘vida’ ou ‘ser’. Assim como Deus soprou o fôlego de vida no homem na criação, tornando-o um ‘ser vivente’, esta palavra pode ser interpretada como ‘ele se tornou um ser humano; ele recebeu vida’. Ou seja, um ser criado à imagem de Deus foi feito. Aqui, ‘minha alma’ é usada com o sentido de ‘com toda a minha vida, eu te abençoarei’. Pode-se traduzir também como ‘verdadeiramente’.

 

Assim, embora a origem de seu coração possa não ter sido boa, ele estava certo e acreditava que esta era a vontade de Deus.

 

Uma Reflexão Profunda sobre o Nosso Próprio Julgamento

Portanto, é necessário que reflitamos profundamente sobre nosso próprio julgamento. Devemos examinar onde se encontra a base de nossos pensamentos, julgamentos e ações, e quão profundamente estamos pensando. Mesmo se você afirmar que seu julgamento é confirmado pela palavra de Deus, eu diria que isso pode não ser suficiente. Isaque não deu uma bênção com base em algo diferente da palavra de Deus. Ele estava transmitindo a aliança de Abraão a seu filho como Deus havia ordenado. No entanto, embora ele tenha ouvido a palavra de Deus, seus próprios desejos eram muito mais fortes em seu coração do que seu amor por Deus. Isaque nos mostra de forma crua que podemos até mesmo ouvir a palavra de Deus da maneira que queremos ouvi-la.

 

Isso é verdade não apenas em tempos de ansiedade, dor e dificuldade, mas também em tempos de alegria. Quando nossos corações estão alegres e em paz, ou quando problemas difíceis são resolvidos e nos sentimos aliviados, se pararmos de pensar aí, nossa paz e alegria se concentrarão apenas nas realidades tangíveis. Portanto, se não dermos um passo mais profundo em direção ao coração mais fundamental de por que realmente servimos e adoramos a Deus, podemos ser pessoas que estão sempre se racionalizando, assim como Isaque. Se você apenas pensa: ‘Eu creio em Jesus, então venho à igreja para adorar, e quando a adoração termina, volto para casa e cumpro meu dever de domingo’, você deve pensar por que está cumprindo esse dever. Por que você tenta não faltar à adoração?

 

Para encontrar o ponto de partida desses pequenos problemas em nossas vidas, agora devemos receber uma grande ajuda de Isaque. As emoções que Isaque tinha estavam bastante longe dos fatos e verdades que ele deveria ter reconhecido e aceitado, no entanto, ele não conseguia descobri-las. Portanto, através da história de Isaque, devemos encontrar o ponto de partida desse pequeno problema dentro de nós, para não cometer os mesmos erros que ele. Caso contrário, não poderemos saber com clareza se nosso ato de adoração é para servir a Deus ou para fazer o que eu gosto, e poderíamos cometer o mesmo erro que Isaque. Então, agora, vamos desvendar juntos esse ponto de partida trivial em nosso coração.

 

O Trivial e a Fé

Como mencionado anteriormente, a inclusão das ‘histórias de comida’ na narrativa de Isaque, registrada por Moisés, está relacionada à vida dos israelitas no Êxodo. O povo de Israel também se queixou a Deus por causa da comida no deserto, e a Bíblia descreve isso como ‘testar a Deus’. Eles perguntaram: ‘Deus não pode nos dar nem mesmo esta comida?’ E recordaram que no Egito haviam comido peixe, pepinos, melões, alho-poró, cebolas e alho ‘de graça’, e por um pedaço de melão, que mal podiam comer após um trabalho árduo, queriam voltar para a escravidão do Egito.

 

Isso nos parece uma loucura, no entanto, muitos crentes, incluindo Isaque, caem facilmente em tais erros. Cada pessoa considera que sua decisão é muito lógica e está firmemente convencida, chegando a se auto-hipnotizar com a ideia de que é a vontade de Deus. Os israelitas talvez pensaram que era a vontade de Deus voltar para a escravidão no Egito, em vez de morrer de fome no deserto. À primeira vista, pode soar como um argumento válido. Mas se pensarmos um pouco mais profundamente, podemos ver que está errado.

 

É importante que descubramos e lutemos contra as muitas coisas triviais que podem nos fazer tremer. Aqui, ‘trivial’ pode se referir ao alho, alho-poró, melões ou carne para os israelitas do Êxodo. No entanto, as coisas que a Bíblia consistentemente ensina que são ‘triviais’ não são pequenas e insignificantes como estas, mas sim tudo o que bloqueia nosso caminho para Deus ou que não tem relação com Ele.

 

Então, quando temos que tomar uma decisão, que mentalidade devemos ter? Por exemplo, pense na adoração online, uma prática que se expandiu nas igrejas durante a pandemia. Seria muito difícil decidir se é certa ou errada reunindo opiniões a favor e contra. Há muitas opiniões, e não é fácil discernir qual é a correta. No entanto, a tarefa mais difícil é examinar se a origem fundamental de todas essas opiniões é um ‘assunto trivial’, como no caso de Isaque.

 

Portanto, através do exemplo de Isaque no trecho de hoje, vamos ver como podemos verificar se o ponto de partida de nossas decisões de fé é trivial ou não.

 

Três Maneiras de Discernir o que é Trivial

Primeiro, se a decisão ou plano que você fez tem como objetivo glorificar a si mesmo ou servir a seus próprios interesses, em vez de fazer você tomar consciência de seu pecado ou da graça de Deus, então é claramente um assunto trivial.

 

Foi assim com Isaque. Em vez de pensar se sua decisão errada era um pecado ou o que ele precisava corrigir, ele se sentiu satisfeito ao ver seu filho preferido, Esaú, feliz, e esperava desfrutar de deliciosas refeições no futuro. Um pai amar seu filho e um filho oferecer comida deliciosa a seu pai são coisas boas, mas Isaque não viu a graça de Deus através disso, e sim o quanto ele se satisfaria e se alegraria, por isso se tornou um assunto trivial. Nós também, quando tentamos viver de acordo com a vontade de Deus, devemos examinar se nossas ações se tornam assuntos triviais. Devemos perguntar se, através disso, estamos cientes de nosso pecado, se surge em nós o desejo de conhecer a graça de Deus e se não há o desejo de acaparar nossa própria glória. Como na história do filho mais velho na parábola do filho pródigo, descobrir quem somos corretamente em Deus é a maneira de evitar o erro de que nossas decisões e ações degenerem em assuntos triviais.

 

A Comparação, a Autocompaixão e o Evangelho da Prosperidade

Em segundo lugar, devemos ter cuidado com o sentimento de superioridade através da comparação com os outros ou, por outro lado, com a queda na autocompaixão por causa do desânimo.

 

Isso também é uma causa para que nossa vida se torne trivial. É tentar a Deus e nos destrói. Sem entender quem somos e que bênçãos desfrutamos em Deus, caímos na tolice de nos compararmos constantemente com os outros, buscando manifestar nossa própria glória ou nos afundar em autocompaixão. Se você alguma vez pensa: ‘Eu estou fazendo bem, por que eles não estão fazendo tão bem quanto eu?’, você está caindo em um assunto trivial. Por mais grande que seja o trabalho que você faça, mesmo que viaje pelo mundo para pregar o evangelho, se estiver preso na comparação e na autocompaixão, todo esse trabalho se torna trivial. Porque você está apenas fazendo um nome para si mesmo. Você se compara com os outros e pensa em quão elevado você é, agindo como um fariseu.

 

No caso de Isaque, outra forma de trivialidade é revelada. Ele parece ver e citar a palavra de Deus, e viver de acordo com ela, mas ele só vê o resultado da palavra, não o Deus que a fala. Isaque só vê a imensa bênção que Deus deu a Abraão. Ele quer dar essa bênção a Esaú e deseja que Esaú a receba. Mas ele não pensa no que agrada a Deus nem em como se deve viver. Isso ocorre porque estamos acostumados a ver apenas os resultados. Esta é a essência do ‘Evangelho da Prosperidade’. Se você está apenas interessado nos benefícios e resultados que pode obter ao servir a Deus, não importa o quanto você sirva e trabalhe duro na igreja, isso não passa de um assunto trivial que arruina sua vida e sua fé.

 

O Padrão para o que é Trivial: A Vitória de Cristo

Por fim, a maneira de discernir o que é trivial é considerar se você depende da vitória de Cristo ou de seus próprios fracassos e feridas.

 

Isso está relacionado aos eventos que os israelitas experimentaram no deserto. O teste que eles enfrentaram no deserto foi: ‘Vocês confiarão na comida que satisfaz o estômago de vocês neste deserto, ou confiarão em Deus?’ Como no relato de Deuteronômio, Jesus também foi tentado da mesma forma no deserto. O conteúdo da tentação foi: ‘Diga a estas pedras que se tornem pão’. A resposta de Jesus a essa tentação foi: ‘O homem não viverá só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’.

 

Muitos significados estão escondidos na resposta de Jesus. Se o que consideramos trivial tem ou não uma relação com a palavra de Deus também é importante. Mas a pedra de toque que quero mencionar por último para sabermos o que é trivial é precisamente esta: Porque Cristo respondeu à tentação de Satanás e foi vitorioso, a pergunta é, quando você e eu enfrentamos uma certa situação ou problema, estamos dependendo da vitória de Cristo ou estamos dependendo de nossas próprias feridas e dores ou pensando na derrota de nossa vida? Se você está pensando na derrota de sua vida, na verdade você está se envolvendo em um assunto trivial.

 

Na verdade, você vive dependendo da vitória de Cristo, dentro de Sua vitória. O que o Senhor fez ao ir para o deserto não foi para que você, mais uma vez, simplesmente permanecesse na dor e na tristeza em meio a essas coisas complicadas e difíceis; não é para que você se apegue às feridas que você recebeu ou infligiu, nem para que você se afunde em autocompaixão por seus fracassos ou sucessos, seja na igreja, no trabalho ou mesmo em casa. A pergunta é se você se lembra e confia no fato de que Jesus Cristo, que veio por todas essas coisas, foi vitorioso, ou se você ainda confia em seu próprio fracasso.

 

Entender o que é trivial é importante, mas se invertermos isso, nos mostra que tipo de vida temos, e é por isso que penso que esta é uma história realmente doce e bonita. Você e eu, nesta terra, vivemos de uma maneira realmente incrível, confessando quem somos e quão cheios estamos da graça e do amor de Deus, e que não é a palavra que papagaiamos ou os versículos da Bíblia que governam nossa vida, mas que o Deus que falou essa palavra é quem governa nossa vida, e é por isso que a palavra tem um significado verdadeiro. Dizer que a palavra de Deus é o próprio Deus é por esta mesma razão. Vivemos por causa dessa palavra.

 

Você e eu somos pessoas que desfrutam disso. Porque somos pessoas que devem ter cuidado com o que é trivial e, ao mesmo tempo, somos pessoas que vivem uma vida abundante que o Senhor concedeu. Nós somos aqueles que vivem na vitória de Cristo. Somos pessoas que sabem quem somos e qual é nossa identidade. Porque somos as pessoas que sabem como Deus nos salvou, o que Ele nos está concedendo e que tipo de vida vivemos.

 

Eu sei bem que vocês, seja na igreja ou em casa, embora pareçam adorar e ouvir sermões de uma maneira tão polida, estão passando por muitos conflitos e dificuldades, porque eu mesmo estou na mesma situação. Mesmo nas famílias mais felizes, sempre há dor e problemas, e mesmo nas mais infelizes, às vezes há risadas e alegria. Nossa vida em si mesma não é tão simples nem fácil. Mas a Bíblia nos diz que é por isso que caímos facilmente em assuntos triviais. Nós transformamos todas essas coisas em algo trivial. Isso ocorre porque nossas emoções, nossos supostos benefícios e nossos desejos começam a criar essas coisas.

 

No entanto, a Bíblia nos diz: ‘Não há nada trivial em nossas vidas’. Isso porque você é uma pessoa que, por mais pequena que seja, pode confessar com fé: ‘Isso é a graça de Deus, a mão de Deus estava nisso, e o fato de eu ser quem sou hoje é porque Deus me guiou até aqui’. Nenhum de nós vive uma vida trivial, e se vivermos de acordo com esta palavra, somos pessoas que estão na vida mais bela.

 

Embora pareça que você está sendo derrotado em tudo o que enfrenta, a Bíblia diz que você não está sendo derrotado, mas sim que você está se movendo em direção a Cristo. Pode parecer que você está caindo nesta terra e que todas as coisas estão te engolindo, mas ela diz que nada pode te oprimir. Pode parecer que somos seres que se desesperam e só podem derramar lágrimas, mas ela diz que somos seres que sempre se regozijam. “Homens de pouca fé, por que duvidam?” De que vocês duvidam? Depois de terem vivido até aqui pela graça de Deus, vocês ainda não entendem? Vocês ainda não sabem quem segura essa vida que está diante de vocês? Eu oro para que vocês vejam com fé que ninguém entre nós tem uma vida pequena ou trivial, e que todos nós vivemos vidas verdadeiramente maravilhosas, e que é por isso que podemos viver sem sermos abalados por nada neste mundo, mas sim com alegria e louvor.

 

Oremos

Amado Senhor, sabemos o quão fácil é para nós entregarmos nossas vidas aos pequenos assuntos que governam nosso coração. Às vezes, por um espinho debaixo da unha, desistimos de toda a vida, e soltamos as pessoas que amávamos com muita facilidade. Mesmo sabendo da promessa maravilhosa de que tu nos seguras e nos levas para o reino eterno, há muitas vezes em que vivemos como se pudéssemos soltar até mesmo a Deus.

 

Senhor, nós nos arrependemos. Por favor, perdoa-nos. Nós erramos. Como pudemos subestimar tanto o amor de Deus que nos ama, como pudemos considerar tão insignificante a grandeza de Deus que nos guia! Nós erramos.

 

Portanto, Senhor, restaura a tua mão que nos segura e nos guia, e faz-nos vê-la novamente. Faz-nos confessar com fé que nossa vida não é trivial, e mostra-nos de novo aqueles momentos maravilhosos em que tu estabeleceste Israel, Isaque, Abraão e Moisés. Faz-nos entender que nós também estamos vivendo essa vida.

 

E agora, finalmente, que não nos esqueçamos, Senhor, de que estamos vivendo a vida de vitória de Jesus Cristo que todos os nossos antepassados na fé tanto ansiavam e esperavam, e faz-nos viver essa vida.

 

Oramos em nome de Jesus Cristo. Amém.

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